Você provavelmente já ouviu falar de Pitágoras, o famoso filósofo grego que desenvolveu uma fórmula matemática para calcular os lados de um triângulo retângulo. Entretanto, seria simplório reduzir o papel desse homem apenas a essa descoberta. De fato, Pitágoras é considerado um dos maiores sábios que já existiu no Ocidente, por mais que ele próprio não se considerasse um detentor de tanto saber. 

Suas principais contribuições para o mundo vão muito além da famosa fórmula a² + b² = c², que tanto usamos na escola. Uma delas, e talvez a mais marcante, foi a criação da sua famosa escola de filosofia, a primeira a ser conhecida no mundo grego. Sua escola, na qual somente os que compreendiam a matemática podiam entrar, foi alvo de diversos conflitos enquanto existiu e seu fim se deu de um modo um tanto quanto trágico, tornando-se assim um dos símbolos do que ocorre quando a ignorância supera a sabedoria. 

Considerando sua grandeza para a história da filosofia Ocidental e a importância que sua escola teve no seu tempo, seria impensável não colocá-la nesta série de textos. Hoje, portanto, falaremos da incrível Escola Pitagórica, responsável por impulsionar a busca pela sabedoria na Grécia Arcaica.

Antes de adentrarmos nesse assunto, cabe conhecermos um pouco mais sobre esse grande mestre de sabedoria que viveu há mais de 25 séculos. Nascido por volta de 570 a.C., na ilha de Samos, Pitágoras teve uma boa infância, sendo filho de um rico comerciante de jóias. Assim, desde cedo interessou-se por matemática, filosofia e arte, três áreas em que se mostraria um gênio. Ele viveu em Samos até seus 40 anos, mas sua educação se deu, em grande parte, no Egito. Foi nas terras do norte da África, conta-se, que ele aprendeu profundamente sobre arquitetura e teria desenvolvido seu teorema observando as grandes pirâmides. Mais importante que isso, porém, está no fato de seus mestres no Egito o aceitarem como um discípulo, reconhecendo desde cedo o potencial de Pitágoras para a sabedoria.

Quanto a isso, devemos entender que, na antiguidade, o Egito era o maior centro de conhecimentos do mundo. Advindos de uma sabedoria milenar, praticamente todos os filósofos que buscaram mergulhar nas águas do saber precisaram banhar-se às margens do Nilo. O historiador Heródoto define bem a distância, à época, entre os conhecimentos da Grécia e do Egito quando nos diz que:

“Os gregos perto dos egípcios são como bebês”

Pitágoras, após seus anos de estudo e aprofundamento no Egito, teria ainda conhecido outras escolas de filosofia. Dizem que chegou até a viver entre sábios hindus, após ser capturado pelo império Persa, porém, pouco sabemos sobre isso. O fato é que suas viagens renderam-lhe uma vida repleta de ensinamentos e isso o levou de volta à ilha de Samos. Lá fundou sua primeira escola, chamada de Semicírculo. Nesse período, porém, a pólis grega estava dominada por um governante tirano e este determinou que a escola fosse fechada pouco tempo depois. Pitágoras notou que suas ideias não poderiam florescer em um terreno tão infértil como o de sua cidade natal e assim se colocou novamente em marcha. Desse modo, foi na cidade de Crotona que Pitágoras encontrou o espaço necessário para fundar a sua Escola Pitagórica.

Seus discípulos, os pitagóricos, viviam sob a rígida ordem da escola. Além de serem exímios matemáticos, passavam por provas de caráter moral e de controle dos seus instintos. Uma dessas lições, por exemplo, era a de colocar-se em frente a um grande banquete, repleto das suas comidas prediletas, e não poder comer. Assim, controlando os apetites, o discípulo sairia mais forte e com mais autodomínio do que quando tinha chegado. De igual modo, era aconselhável o afastamento de relações sexuais e outros tipos de prazeres. Não por acaso, o estilo de vida pregado por Pitágoras em muito assemelhava-se aos ascetas orientais, ao qual renegavam os prazeres materiais para alcançar a iluminação.

No caso do sistema pitagórico, a principal ideia era a de que nossos instintos e prazeres nos tiram do caminho da virtude. Gastamos nosso tempo e energia focando apenas em realizá-los e esquecemos por completo de desenvolvermos nossas principais qualidades. Desse modo, era fundamental, antes de conhecer mais acerca dos ensinamentos do mestre, o controle dos mais baixos prazeres.

Um outro método empregado pela Escola de Pitágoras consistia em controlar os temperamentos humanos. Desde a antiguidade já se conhecia que todos nós temos características singulares, mas que muitas vezes se expressam de forma mais ou menos genérica. Classificamos, por exemplo, pessoas extrovertidas e introvertidas, comunicativas ou retraídas e assim por diante. Frente a isso, Pitágoras estabeleceu uma disciplina de buscar o equilíbrio dentro dessas expressões naturais. Portanto, para os que eram naturalmente mais “calados”, Pitágoras os obrigava a falar, debater e estimulava que fossem sempre os oradores. Já os que naturalmente se detinham a falar, Pitágoras os classificava como “acusmáticos”, ou seja, eles não podiam falar absolutamente nada, ficando em silêncio e absorvendo os ensinamentos. Conta-se que, nos primeiros cinco anos na Escola de Pitágoras, os alunos estavam submetidos a essa dinâmica.

Analisando essa questão, é interessante entendermos os pontos que levavam a uma disciplina tão rígida na Escola Pitagórica. O primeiro e mais evidente era o domínio desses impulsos, que são tão difíceis como controlar o apetite ou o ímpeto sexual. O segundo, porém, e não tão óbvio, era o de tornar as mentes receptivas às ideias que ali eram tratadas. Aos que, naturalmente, gostam de debater, por vezes é difícil buscar compreender o que o outro está falando, pois caímos em uma falsa competição e queremos que nosso ponto de vista se sobreponha ao dos demais. Já para o que naturalmente fica calado, em geral essas pessoas tendem a aceitar o que lhe dizem sem questionar, o que também não é prudente para um aspirante a filósofo. Ao amante da sabedoria cabe a reflexão, sem aceitar de “primeira” tudo que lhe dizem, mas também sem rejeitar toda e qualquer ideia que a priori não lhe parece fazer sentido. 

Frente a tantas regras, para quem observava a vida dos pitagóricos entendia que ali não apenas aprendiam sobre ideias filosóficas, mas viviam-nas. A Escola Pitagórica seria, mais tarde, um exemplo de como a filosofia pode – e deve – ser um estilo de vida, pois não faria sentido pensar e desenvolver ideias pelas quais você não honraria na prática. A vivência das ideias era algo tão presente na vida dos discípulos de Pitágoras que se dizia que era possível reconhecer um pitagórico apenas pela maneira como este caminhava. 

Quanto às ideias, os pitagóricos entendiam a matemática como um sistema sólido para chegar à verdade. De fato, a compreensão dos números para esses filósofos era bem distinta dos dias atuais. Enquanto utilizamos as fórmulas e compreensões geométricas para realizações puramente materiais, ou seja, para construção e contagem financeira, para os discípulos de Pitágoras o número era, antes de tudo, uma ideia. Assim, as relações matemáticas não serviam apenas para fazer templos, mas, principalmente, para representarem uma ideia. Não por acaso, o símbolo da escola era o pentagrama, que possui uma estreita relação com a razão áurea, tão utilizada na Grécia Antiga.

Junto a isso, outra ideia fundamental para esses filósofos era a da metempsicose, ou transmigração da alma. Em resumo, nossa alma, na qual contém nossa verdadeira essência, poderia sair de um corpo para o outro. Hoje as doutrinas orientais e ocidentais chamam essa ideia de reencarnação, porém é importante salientar que, antes de ser uma percepção religiosa, a metempsicose se apresenta como uma ideia filosófica. Assim, o que é verdadeiro e essencial no Ser Humano jamais morreria, mas evoluiria ao longo do tempo e utilizaria os corpos para viver experiências no mundo manifestado.

Tais ensinamentos, porém, não eram simples de serem absorvidos, ainda mais quando disseminados para um grande público. Por isso, grande parte da doutrina de Pitágoras estava reservada para os seus membros mais internos, que tinham por obrigação guardá-las em segredo do público. Para nós, que vivemos em um mundo em que a informação e a troca de ideias acontecem a todo momento, pode nos parecer absurdo esse tipo de prática, afinal, o papel de um sábio não deveria ser disseminar a sabedoria para todos?

Pensemos como a sabedoria sendo uma arma. Ela pode ser muito benéfica para quem sabe manejar e tem  o discernimento sobre em que momentos deve ser utilizada. Entretanto, se colocamos tamanho poder na mão de alguém que não sabe manejar e muito menos discernir a hora correta de usá-la, o que poderia acontecer? Certamente essa pessoa causaria mais mal, para si e para os outros, do que bem. Portanto, o conhecimento disseminado por Pitágoras era, de fato, para poucos, pois somente alguns seriam capazes de fazer bom uso dele. 

Esse distanciamento do grande público, porém, foi uma faca de dois gumes para o sábio de Samos. Ao manter a população fora dos seus muros, a Escola Pitagórica, com os anos, passou a alimentar um rancor e ser mal vista pela população de Crotona. Junto a isso, após um dos governantes da cidade não ser aceito como discípulo, estabeleceu-se uma série de revoltas contra os pitagóricos que culminou no incêndio da escola. Esse episódio é amplamente relatado pelos historiadores do passado, mas com diferenças em seus relatos. Segundo alguns, o ataque à escola se deu no momento de uma aula e a maioria dos pitagóricos foram mortos nele, incluindo o próprio Pitágoras. Outros, porém, afirmam que Pitágoras estaria viajando e não morreu naquele momento, mas teria cometido suicídio pela dor de saber que seus discípulos haviam sido mortos.

Seja como for, o fato é que a Escola Pitagórica encontrou seu fim nas mãos de uma população que não compreendia seus desígnios. Essa, infelizmente, não seria a única vez em que a busca pela sabedoria seria perseguida por aqueles que não a conhecem. Poderíamos citar casos como a morte de Sócrates ou mesmo a destruição da biblioteca de Alexandria, mas nenhum desses eventos, agora tão distantes no tempo, podem ser revertidos. Cabe a cada um de nós, portanto, perceber o valor das ideias e honrá-las com nossa prática, assim como os discípulos de Pitágoras.

Não precisamos, evidentemente, viver tal qual os pitagóricos, mas sim aprender a mais valiosa lição que esses homens e mulheres nos legaram: honrar as ideias com a nossa prática. 

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