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Série escolas de filosofia: Academia de Atenas

Tempo de leitura: aproximadamente 8 minutos

Sejam bem-vindos a mais um texto da série “Escolas de filosofia”. Como apresentamos em nosso texto de introdução, a filosofia permeia a humanidade desde tempo imemoriais, pois, no momento em que buscamos conhecer o mundo e desvelar seus mistérios, já estamos, em algum grau, buscando o saber. Como bem definiu Pitágoras, “filosofia” nada mais é do que “amor à sabedoria”, ou seja, é amar as ideias e chegar a esse patamar de conhecimento acerca das leis da natureza e do mundo.

Partindo dessa perspectiva, ser filósofo não era uma profissão, mas um estilo de vida. Na Grécia Antiga, portanto, podemos encontrar esses amantes da sabedoria nas mais diversas condições sociais: desde nobres, como Platão e Aristóteles, até os mais simples e pobres, em termos materiais, como Sócrates e Diógenes. As posses, nesse caso, não eram um fator relevante para um verdadeiro amante da sabedoria e podia-se desenvolver suas ideias mesmo dormindo em um barril. 

Essa ideia é fundamental para compreendermos um pouco melhor sobre a escola de filosofia que abordaremos neste texto: a Academia de Atenas. Esta foi, sem sombra de dúvidas, uma das principais instituições gregas devotas  à sabedoria. Fundada por Platão, resistiu por quase um milênio antes de ser fechada pelo imperador Justiniano, acusada de ser um dos últimos centros do paganismo. Porém, para entender melhor essa história, precisamos voltar no tempo e entender sobre seu surgimento, princípios e legado para a humanidade.

Não podemos contar a história da Academia de Atenas sem antes apresentarmos devidamente o seu fundador: Platão. Voltemos, portanto, ao século V a.C. para conhecermos um pouco do mais importante filósofo do Ocidente. Platão, que na verdade chamava-se Aristócles, nasceu em Atenas, em 428 a.C., e foi criado em um berço de ouro. Seus pais, desde seu nascimento, desejavam que o filho seguisse a carreira política, mas, logo nos primeiros anos, o pequeno Aristócles não apresentava disposição para a administração pública. Voltava-se, em grande parte nesse período, para a arte, e buscava a inspiração das musas em poesias e na música. Porém, tudo mudou quando estava próximo dos 20 anos.

Um dia, enquanto caminhava pela cidade, deparou-se com um homem que ensinava na praça pública. Sua atenção logo foi fisgada e assim, quase “por acaso”, Platão encontrou o seu mestre: Sócrates. Conta-se que, após esse encontro, Platão destruiu suas poesias e passou a dedicar-se integralmente ao estudo da filosofia. Tornou-se discípulo de Sócrates e, durante oito anos, aprendeu sobre o Universo, o mundo das ideias e o valor do saber em meio à ignorância. Porém, o aprendizado de Platão com seu mestre encerrou-se com a condenação de Sócrates à morte devido à “subversão da juventude”, durante o chamado “governo dos trinta tiranos”. 

Essa experiência destruiu a última chance de Platão envolver-se com a política. O filósofo percebeu que de nada adiantaria mudar os governos se antes não houvesse pessoas dispostas a buscarem o verdadeiro conhecimento de si e ajudar os outros a se governarem. Em uma de suas obras mais notáveis, “A república”, o filósofo nos apresenta a construção de um Estado Ideal, ou seja, um governo justo e que buscaria sempre o melhor para sua cidade. Em síntese, Platão nos fala, ao final, que a única chance desse estado existir é fazer com que os seres humanos sejam melhores, que busquem ser justos em suas atividades e naquilo que lhe correspondem. Enquanto isso não fosse possível, estaríamos ainda vivendo sob regimes defeituosos e cometendo injustiças, tal qual a que Sócrates foi alvo. 

Com a morte de Sócrates, ocorrida em 399 a.C., o jovem Platão se viu sem um mestre para guiá-lo na trilha filosófica. Desse modo, o ateniense foi em busca de conhecimento em outros locais. Viajou para o Egito e demais regiões em busca da sabedoria, até que, segundo contam os relatos, em 384 a.C. ele decidiu abrir sua escola de filosofia: A Academia de Atenas.

A Academia, em verdade, segundo alguns historiadores, já existia antes da sua fundação. De maneira informal, Platão convidava outros filósofos e amigos para passear pelos jardins da futura instituição, além de realizar jantares e diálogos neste espaço. Como sua família detinha muitas posses, o discípulo de Sócrates herdou o terreno que construiria a academia, sendo este próximo a um bosque dedicado à deusa Atenas (daí vem o nome da academia). Além disso, uma das características mais singulares da escola de Platão foi o fato de não existir um valor monetário para os estudantes. Apesar de não ser uma escola aberta ao público, ela não cobrava daqueles que frequentavam as suas aulas. E, mesmo sendo “de graça”, nem todos estavam aptos a serem alunos de Platão. De acordo com alguns estudos, na entrada da sua academia apresentava-se os seguintes dizeres:

“Que ninguém além dos geômetras entrem aqui”

Assim, podemos deduzir que, na Academia de Platão, eram aceitos apenas aqueles que buscavam, de fato, conhecer o mundo a partir da lógica matemática. Hoje poderíamos achar isso um absurdo, mas, compreendendo o contexto histórico da época, encontramos uma série de relações entre a matemática e a filosofia, principalmente as que estudavam o valor do metafísico. Assim, seria praticamente impossível a um estudante que não entendesse da arte dos números compreender as ideias de Platão. Essa tradição, de fato, existia na Grécia Antiga. Retornando um pouco mais no tempo encontraremos, por exemplo, a escola pitagórica em que dizia-se que “quem não sabe matemática não pode entrar”.  Provavelmente, inclusive, esses dizeres da Academia de Atenas foram inspirados na inscrição pitagórica.

Frente a isso, a escola sustentou-se, em grande parte, graças ao seu fundador e suas posses. Também entende-se que muitos estudantes, advindos de famílias com boas condições financeiras, aportavam com doações voluntárias para a manutenção da instituição. Além disso, a Academia também era reconhecida como um centro religioso, uma vez que cultuava-se as Musas, as famosas filhas de Zeus e Mnemosine e que seriam as responsáveis por inspirar os artistas e todos aqueles que buscavam aprender suas artes. Assim, essas detentoras do conhecimento eram, de certo modo, a inspiração para se buscar o mundo das ideias.

Uma outra característica importante da Academia de Platão era a de que não distinguia-se homens e mulheres, algo quase impensável para a época. As mulheres na sociedade grega tinham, na maioria dos casos, apenas a função de cuidar da casa e dos espaços privados, enquanto os homens eram destinados à vida pública. Porém, a Academia de Atenas apresentava um número considerável de mulheres na filosofia e algumas chegaram a destacar-se como Asioteia de Filos e Lastêneia de Mantinela. Ambas foram discípulas de Platão e vivenciaram a filosofia mesmo em uma cidade que condenava as mulheres por viverem fora de suas casas.

Outros filósofos importantes também foram alunos da Academia. O mais notável foi, sem dúvidas, Aristóteles. O jovem veio de Estagira,com pouco mais de 18 anos, com o intuito de estudar com Platão. Como uma sincronia da vida, o “pai da ciência”, como seria conhecido, nasceu no mesmo ano em que a Academia de Platão foi fundada. Portanto, 18 anos após a sua fundação, a academia já contava com certa fama em toda a Hélade e diversos jovens eram instruídos por seus pais a irem conhecer a filosofia platônica. Aristóteles viveu em companhia do seu mestre Platão por quase 20 anos e, naturalmente, ajudou a academia a desenvolver-se nesse período. Foi graças a essa experiência que após a morte de Platão ele pôde criar sua própria escola de filosofia: o Liceu. 

Desse modo, a Academia de Atenas não foi apenas o palco em que grandes ideias foram desenvolvidas e absorvidas por gerações de amantes da sabedoria, mas um grande centro que impulsionou os estudos de filosofia e gerou, ao longo do tempo, a base para diversas correntes filosóficas. De fato, graças ao esforço de Platão escolas como o estoicismo e o neoplatonismo, foram fundadas, mesmo que, na prática, existam profundas diferenças entre cada uma delas. 

Mas, o que ocorreu com a Academia depois que seu fundador deixou a existência? Seus discípulos continuaram a obra de Platão, mantendo a administração e os princípios da sua Academia. Em geral, divide-se a academia em três fases: a antiga, a média e a nova. A diferença entre elas está, em geral, no foco dos ensinamentos. Se na fase inicial desenvolvia-se um diálogo com a matemática e a busca pelo metafísico, as fases seguintes dedicavam-se ao ceticismo e ao estoicismo, respectivamente.  

A Academia continuou seu trabalho de difusão e formação do pensamento filosófico até o início do século VI, quando foi sumariamente fechada pelo imperador Justiniano. Quanto a isso, devemos compreender algumas ideias que levaram a esse triste desfecho da escola de Platão. Inicialmente, o contexto da época estava completamente contra os sucessores de Platão. A doutrina cristã imperava na Europa e os estudos e ideias advindas de uma outra cultura e forma religiosa, chamada de pagã, não era vista com bons olhos. O culto às musas gregas era inaceitável, além de pensamentos contrários a alguns preceitos religiosos do cristianismo.

Dentro dessas perspectivas, a maioria dos centros de estudos da antiguidade foram, aos poucos, sendo destruídos e substituídos por locais de adoração e formação do clero cristão. Como exemplo notável dessa sumária destruição, temos o incêndio da biblioteca de Alexandria, no Egito, e o fechamento da Academia de Platão. Para alguns historiadores, a Idade Média inicia-se não em 476, com a queda de Roma, mas com o fechamento da quase milenar instituição platônica, sendo este o último baluarte da antiguidade clássica a resistir às invasões bárbaras e ao incipiente mundo cristão que formava-se. 

Os filósofos dessa época, em meio à perseguição que sofreram, refugiaram-se nas cortes do Império Sassânida, no Oriente. Com eles grande parte dos manuscritos e obras de Platão, Aristóteles e tantos outros renomados filósofos sobreviveram no mundo Oriental que, séculos mais tarde, iria usufruir desse rico conhecimento para ter seus grandes e notáveis filósofos como Avicena, Al Ghazali e Averróis. Assim, por mais que a Europa tenha mergulhado nas trevas da Idade Média, no Oriente a luz da sabedoria mantinha sua chama acesa. Desse modo, se hoje conhecemos Platão e seus brilhantes diálogos, assim como toda sua influência na história da filosofia, é graças à sabedoria Oriental que não rejeitou suas obras e nem os discípulos de suas ideias quando procuraram abrigo.

Por fim, cabe refletirmos sobre como momentos de ignorância podem subverter o mundo em que vivemos. Quando passamos a ser intolerantes, seja devido a ideias distintas ou a qualquer outra diferença, tendemos a destruir e desconsiderar uma série de aspectos que poderiam nos ajudar em nossa caminhada. Dessa maneira, não é à toa que a ignorância é comparada a um tipo de cegueira, pois, quando não conseguimos enxergar para além das nossas próprias convicções, deixamos de aprender e vislumbrar as grandes possibilidades que existem fora das nossas percepções.

Se, por outro lado, somos capazes de enxergar que em cada aspecto da vida podemos aprender algo, então nossa ignorância passa a ser humildade frente aos mistérios que ainda não conhecemos e assim não mais desejamos nos encerrar nas próprias ideias e convicções, mas expandir nossa visão e abarcar a todos, retirando sempre o melhor de cada ensinamento. Sendo assim, podemos chegar à sabedoria por diversos caminhos e ideias, desde que estejamos abertos a perceber que não somos detentores da verdade e, muito menos, seus juízes e algozes. 

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