Quer você seja cristão, quer seja ateu, agnóstico ou professe qualquer outra religião, um fato incontestável é que os alicerces filosóficos da nossa civilização passam pelo conjunto de ideias que formam o que chamamos de “Cristianismo”. Para nós, ocidentais, o Cristianismo é mais que uma religião. O jeito como nos organizamos politicamente, como lidamos com o Estado, com as leis, com a família, com o sexo, com o dinheiro, com o poder, etc. Tudo isso passa pelo que podemos chamar de cultura cristã, moral cristã ou tradição cristã. Por essa razão, refletir sobre o Cristianismo é uma urgência hoje para entendermos nossas falhas, nosso desmoronamento civilizatório, nossos erros e nossos acertos. Conhecer o Cristianismo é, para os ocidentais, uma busca pelas raízes de nossa sociedade. Desde a queda de Roma até o surgimento da modernidade, passando pela Idade Média, Reforma Protestante, Contrarreforma, e tantas outras revoluções, o Cristianismo funcionou como um motor invisível por trás da construção do que entendemos como civilização ocidental.

Que tipo de reflexão, então, devemos fazer hoje em torno do Cristinismo para entender nossos problemas civilizatórios? Que leitura inteligente podemos construir sobre as ideias cristãs, de modo proveitoso e eficaz, sem recair em fanatismos, em polarizações irracionais, em emotividades ou arroubos de raiva?

Como é de conhecimento de todos, os evangelhos falam do nascimento e infância de Jesus Cristo, mas silenciam quanto à sua adolescência e juventude. Após as narrativas da infância, Jesus volta a aparecer como um adulto de trinta anos, inicia sua missão no mundo e três anos depois é condenado à morte por crucificação, depois de três dias ressuscita e ascende aos céus. O que se sucede daí em diante é o surgimento da Igreja Cristã, como continuadora da sua mensagem.

Sobre as narrativas dos evangelhos, muitos questionam acerca de sua veracidade histórica. Será que, de fato, as palavras que se encontram nesses livros são verdadeiras? Porém, o que deve ser levado em consideração é que, assim como todas as escrituras Sagradas de todas as grandes religiões da história, os evangelhos também possuem uma chave de interpretação mítica, ou seja, podemos falar que eles nos apresentam a Mitologia Cristã.

É importante ressaltar que, quando se fala em “mito”, não quer dizer que a narrativa é uma mentira, muito pelo contrário, um mito carrega uma verdade subjetiva muito profunda, que muitas vezes trata da realidade psicológica e espiritual do Ser Humano e que dificilmente poderia ser transmitida numa linguagem objetiva, de tipo jornalística.

Todas as histórias em torno da vida de Cristo são muito simbólicas. Por exemplo, a perseguição de Herodes ao menino Jesus, podemos entendê-la como representativa da oposição que existe entre nossa ambição pelo poder da matéria e o anseio de nossa Alma, que busca alcançar um Ideal Humano. O menino Jesus é a representação do Princípio Divino que habita no Ser Humano, o qual ainda é muito embrionário e necessita ser amadurecido. Mas dentro de nós existe também um Herodes, que quer matar esse menino para não perder o seu poder. Herodes é o nosso lado “animal”, tirânico, dos prazeres grosseiros, ou seja, os nossos instintos e desejos relacionados às coisas do mundo material e físico, que perseguem o Princípio nobre e racional que há em nós.

Os três Reis Magos que vêm de lugares distantes, guiados por uma estrela no céu em busca do filho de Deus, são representações da busca de toda a Humanidade, através de tantas tradições, em lugares tão diferentes do planeta, nas mais diversas épocas históricas, por esse Cristo, esse Ideal de Perfeição Humana, esse estado evolutivo em direção ao qual nossa Alma caminha. A jornada evolutiva depende da orientação de uma estrela que brilha na abóbada celeste. Isso representa a necessidade de contato com o Grande Mistério que há no Universo. Não podemos ignorar que há uma Inteligência em todo o Cosmos, que está para além de qualquer símbolo religioso e que transcende a capacidade de compreensão do Homem, porém que governa e rege as galáxias, as estrelas, a Terra e cada um de nós.

Citamos aqui os primeiros movimentos dos evangelhos apenas como exemplo do quanto essas narrativas estão para além do que entendemos como verdades ou mentiras, certezas ou incertezas. Os evangelhos constituem um gênero literário à parte, não são ficções nem tratados históricos, mas podem ser entendidos como expressões de uma Alma coletiva em busca de evolução. Mas não só isso, são algo a mais, são a própria tentativa de plasmar no mundo essa evolução ou, em uma expressão mítica, fazer com que seja “assim na terra como no Céu”.

O Evangelho de João tem um jeito muito peculiar de narrar o nascimento de Jesus, ele começa dizendo que “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”. Depois ele diz: “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós (…)”. Esse é um jeito muito profundo de falar do nascimento de Jesus. O Verbo, ou o “Logos” na versão grega, significa na cultura humana a palavra em ação. Quando queremos traduzir a ação em nossa linguagem usamos o Verbo. Quando queremos ligar o acontecer ao pensar usamos um Verbo. João está falando da União entre o plano mental e o plano dos acontecimentos. Seria na linguagem do filósofo Platão a União entre o mundo das ideias e o mundo das coisas, a matéria e o Espírito como faces da mesma moeda.

Jesus é a expressão dessa União entre os homens e Deus, é o Verbo que se faz carne e habita entre nós. É os céus descendo para a Terra. A encarnação, a plasmação, a materialização de algo que é transcendente, sutil e intangível. Se usarmos essa chave para lermos os evangelhos, abriremos uma porta e veremos com clareza o sentido de cada narrativa. Cada milagre operado por Jesus: a transformação de água em vinho; o cego que passa a ver; o paralítico que passa a andar; o leproso que fica curado. Cada um desses prodígios faz referência a um grande Código Moral que transmuta a Natureza Humana de algo sem valor (água), para algo valioso (vinho). A libertação da cegueira, se refere à possibilidade de se abrir para novas visões, novas perspectivas. Aquele que passa a andar é o Indivíduo que se libertou de estagnações na jornada evolutiva. A cura da lepra é a purificação de vícios internos que se alastram em nossa Alma como uma doença contagiosa. Jesus é o arquétipo, ou seja, a ideia em sua Perfeição, descendo para o plano da realidade Humana e acontecendo na História como um Verbo que se faz carne.

Essa é uma leitura do pensamento cristão, não das instituições que se propõe a falar em nome de Cristo. São duas coisas muito diferentes. Infelizmente, ao longo da história muitas instituições religiosas deformaram a mensagem do Mestre. Com a institucionalização do Cristianismo em Roma, a nossa jornada civilizatória dobrou uma esquina perigosa. Bibliotecas foram incendiadas e escolas filosóficas que buscavam os Mistérios foram brutalmente destruídas. Durante a Idade Média, pessoas foram queimadas em fogueiras, e essa lista de barbárie e destruição não terminou até hoje, apesar dos métodos terem mudado. Com o avanço do capitalismo, muitas igrejas passaram a instrumentalizar a fé e se tornaram verdadeiras empresas, quando não cassinos.

Diante de tanta deturpação, as novas gerações tendem a reduzir toda a tradição cristã, tão profunda e tão importante para a evolução da Humanidade, apenas à face abjeta da religiosidade institucional. O ateísmo vem crescendo muito entre os mais jovens, a repulsa e a diluição da Moral cristã é a ordem do dia. É como se estivéssemos cobrindo a essência do Cristianismo com muitos véus, de modo que a contemporaneidade só vê a superfície desses véus de mentiras, ignorância e manipulação, e é incapaz de perceber a Bela Luz da mensagem original que está por baixo disso.

Mas nisso reside um grande abismo, pois ao perdermos a essência do pensamento cristão, perdemos também a direção da evolução, perdemos o caminho de elevação do Espírito Humano. Avançamos em tecnologia, mas estamos desmoronando moralmente. Aumentamos o potencial de produzir e armazenar informações, porém tornamo-nos uma civilização muito intelectual, sem capacidade de tocar o coração nem mesmo daqueles que estão perto de nós. Milhões de pessoas se suicidam todos os dias, outros tantos buscam a felicidade no consumo, no poder aquisitivo, na beleza dos corpos, mas nada disso nos leva às respostas que nossa Alma procura desesperadamente.

Precisamos com urgência construir uma reflexão séria sobre os fundamentos da maior religião do planeta, na tentativa de discernir entre o certo e o errado e tentar entender o que pulsa dentro de nossas Almas. Não adianta olhar para o Cristianismo com a pergunta se é verdade ou mentira, essa não é uma pergunta inteligente. Não adianta relacionar a lista de barbáries e destruições que pesam nos ombros das Igrejas, pois o Cristianismo não se resume a isso. Precisamos buscar entender profundamente os alicerces de um sistema civilizatório que está desmoronando, sob pena de vermos desabar a nossa própria casa e não fazermos nada. Independente de crença religiosa, nós precisamos voltar às raízes dos primeiros cristãos, entender o que os movia, o que buscavam e o que colocaram nas entrelinhas dos antigos evangelhos.

Que este texto seja um convite a você para refletir seriamente sobre essas questões e atuar no mundo em busca de uma Renovação para toda a Humanidade, nesta jornada de Evolução.

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