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Oxalá, a Criação e o Discernimento na Natureza

Tempo de leitura: aproximadamente 7 minutos

Deuses e mitos não são novidades para o Ser Humano. Ao longo de nossa história, quando observamos as mais distintas civilizações, notamos que todas elas possuem lendas e Divindades que representam Ideias e Forças da Natureza. É possível que nos dias atuais essa pareça ser uma ideia estranha para a maioria das pessoas, uma vez que vivemos em um mundo em que é preciso “ver para crer”. Porém, mesmo que tenhamos dificuldades em aceitar elementos de outras culturas, principalmente as que não se assemelham à nossa e que estão distantes de nós, se faz fundamental compreender seus mitos e Deuses se quisermos vislumbrar as ideias que permeavam o cotidiano dessas pessoas.

A mitologia, afinal, não se limita a uma série de histórias que “não fazem sentido”, como costumamos pensar. Ao contrário do que prega o senso comum, os mitos são fontes de ensinamentos e ideias que estão imortalizados pelos símbolos deixados por essas culturas antigas. Assim, as histórias dos heróis e Deuses desses antigos povos nos transportam para o modo de vida e mentalidade daqueles homens e mulheres do passado, além de serem um manancial de inspiração para levarmos à prática esses ensinamentos em nossas Vidas.

Visto isso, ao falarmos de um Deus e seus mitos não devemos encarar tais histórias como fruto da imaginação e ingenuidade de um povo “primitivo”, mas sim como a capacidade de sintetizar ideias profundas em poucos símbolos e representações. Observando desse ponto de vista, aprender mais sobre mitologia é um rico canal de conhecimento e investigação e nos traz grandes benefícios enquanto buscadores de nós mesmos, ou seja, para conhecermos profundamente o que somos, para onde vamos e nossa finalidade enquanto Seres Humanos.

Tendo em vista tais ideias, hoje falaremos um pouco sobre uma Divindade da Mitologia Iorubá, presente em diversas religiões de matrizes africanas em nosso país: Oxalá.

Oxalá, em linhas gerais, é um dos principais Deuses dentro do esquema mitológico Iorubá. Entretanto, seus símbolos e mitos têm variações em cada uma das culturas africanas que veneram o Deus. Partindo disso, não é nosso objetivo explicar detalhadamente todas as distintas formas e nomes dados para Oxalá, muito menos pretendemos encerrar as ideias e representações que esta Divindade carrega. 

Sendo assim, Oxalá é conhecido como o “Orixá da Criação”. Suas representações são distintas, desde um homem jovial até um ancião, porém destaca-se em sua representação a cor de suas vestes: sempre branca.  Segundo a mitologia, ele foi a primeira Divindade criada por Olodumaré, que é o grande criador do Universo. Por ser o primogênito das Divindades africanas, Oxalá também é conhecido como o “Pai dos Orixás”. Ele representa a Pureza, a Sabedoria e a Paz. Além disso, sua principal função dentro dos mitos africanos é a de ter criado o mundo e o Ser Humano. 

Conta o mito que Olodumaré, após fazer nascer Oxalá, deu ao seu filho um saco contendo três coisas: areia, uma galinha de cinco patas e um camaleão. Com esses elementos ele deveria dar Vida a um espaço no Universo onde habitariam as criaturas que ainda iriam existir. Oxalá, obedecendo ao comando do seu pai, encontra no espaço um local banhado de água. Sem perder tempo, o Orixá jogou a areia neste local e em seguida a galinha. Com o ciscar da ave sobre a areia, a terra foi se espalhando sobre a água, gerando as montanhas, os planaltos e as planícies que habitamos e conhecemos tão bem. Em seguida, para garantir que essa seria uma terra firme, Oxalá jogou nela o camaleão, que ao pisar sobre a areia tornou-a forte e resistente, capaz de sustentar o peso de todas as criaturas que passariam a existir a partir daí.

Assim é o mito de criação do nosso planeta para a cultura Iorubá, na qual Oxalá é o principal responsável. Devemos ressaltar, mais uma vez, que não podemos buscar entender os mitos a partir de uma lógica racional, mas sim entender suas chaves simbólicas. Partindo disso, há nesse mito ideias interessantes para entendermos. Primeiramente, por tratar-se de um mito de criação, ou seja, de formação do Universo – nesse caso específico, formação da Terra – é preciso refletirmos sobre os elementos que compõem essa criação.

O que nos chama atenção é principalmente o elemento Divino, representado por Oxalá, sendo o criador do nosso planeta. A água, que em diversas tradições representa a matéria, quando entra em contato com a Sabedoria Divina, que ordena os elementos para a criação, faz com que o que antes era apenas água molde-se na forma de um planeta. A ideia do mito, em essência, é mostrar que tudo que existe é regido por uma Inteligência (no sentido de colocar cada elemento em seu lugar) que dá as formas e permite as mais distintas expressões de Vida no nosso planeta.

Não por acaso, Oxalá é associado como o Orixá da Sabedoria, aquele que cria e coloca tudo em seu devido lugar. Não basta apenas criar os elementos, pois caso não houvesse Discernimento – colocar cada coisa em seu lugar – de nada adiantaria a sua capacidade criativa. Sabedoria, nesse sentido, nada mais é do que a Inteligência de conseguir diferenciar cada elemento e colocar cada um em seu lugar adequado, trazendo equilíbrio para o mundo. 

Levando essa ideia para a nossa vida podemos refletir sobre o quanto usamos de Sabedoria em nosso cotidiano. Em geral, somos pessoas com uma boa capacidade de criar: temos ideias das mais distintas, desde viagens até planos pessoais de melhoramento. Porém, o quanto dessas ideias colocamos em prática? Além disso, sabemos fazer com que esses pensamentos cheguem a se tornar algo concreto?

Pouco entendemos sobre isso. Por isso que, a rigor, a grande maioria das pessoas não são sábias, afinal, não conseguimos ainda discernir o que devemos ou não fazer para ver as ideias que queremos no mundo. Consequentemente, isso se reflete em uma vida cheia de teorias e discursos, mas com pouca ação. A Sabedoria, portanto, não nos chega através dos livros e do acúmulo de ideias, mas sim de nossa capacidade de viver algumas destas, trazendo Paz e Harmonia para nós e o mundo ao nosso redor.

Sendo assim, o fato do pai dos Orixás discernir e movimentar-se nos mostra nossa necessidade de ação. Além disso, Oxalá também é responsável pela criação de outro Ser do Universo: O Ser Humano. Isso mesmo, segundo a mitologia Iorubá, Oxalá recebeu uma segunda missão: a de moldar, a partir do barro, uma criatura que pudesse receber o sopro de vida de Olodumaré. Imbuído dessa missão, o Deus criador nos fez e permitiu que tivéssemos vida a partir do mais Divino dos Orixás.

Esse outro mito faz uma referência a uma ideia que em diversas culturas se é propagada: o aspecto Divino do Ser Humano. Se na mitologia grega, a partir do Mito de Er, dizia-se que a Alma Humana descia a Terra para viver experiências e voltar a ser Divina, no mito Iorubá o que mantém o homem vivo, ou seja, “animado”, é justamente o sopro Divino. Em outras religiões, como o Cristianismo, também fala-se de Deus soprando a vida para Adão, assim como em outras culturas. 

O que podemos refletir sobre isso é como cada cultura humana, à sua maneira, busca mostrar essa evidência interior: de que o Ser Humano é muito mais do que carne e osso. Há em nós um aspecto Atemporal, Divino e que se liga ao mundo mais sutil. Podemos chamar de Ideias, Deuses ou Orixás, pois a nomenclatura não se faz importante, mas sim a essência desse ensinamento transmitido em diversas línguas, costumes e tempos.

Pensando nisso, no Brasil, Oxalá foi associado ao senhor do Bonfim, que é a figuração da ascensão de Cristo após ser crucificado. Esse aspecto de elevação ao Divino, associado ao Orixá, revela a importância e o poder de Oxalá dentro da mitologia africana. Graças a essa associação, é comum os devotos de Oxalá não consumirem carne em certas épocas do ano, com exceção do peixe. Na tradição cristã, como bem sabemos, durante a semana santa também deve-se evitar o consumo de carne, sendo essa substituída, em geral, pelo pescado.

As ideias, das mais sutis e difíceis, até as práticas do cotidiano, revelam o sincretismo de Oxalá e a figura do Senhor do Bonfim. Isso nos mostra, além da grandiosidade das ideias representadas por tais elementos, que as culturas – e nesse caso, religiões – partem de uma base comum, ou seja, ideias-chaves que devem nortear a conduta de seus devotos. Por isso, não devemos segregar, muito menos batalhar contra uma forma religiosa que seja diferente da nossa, pois, ao aprofundarmos nossos conhecimentos, entenderemos que queremos chegar a uma mesma Verdade. Se aprendermos isso, poderemos cultuar e compreender qualquer Divindade, mito ou cultura, pois acima disso estaremos buscando uma compreensão Humana sobre os Mistérios.

Isso, enfim, é a missão da Sabedoria: nos tornar aptos a enxergar o Divino em todas as experiências da Vida. Que Oxalá, em suas mais distintas formas de ser chamado, possa iluminar nossas vidas e nos tornar capazes de discernir entre o certo e o errado, o bem e o mal para que, acima de todas as escolhas, prevaleça o nosso Espírito Humano.

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