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Ao longo da história da Humanidade diferentes grupos humanos se espalharam pela Terra e criaram suas cidades, leis e culturas. Cada um deles, à sua maneira, buscou guardar o conhecimento adquirido ao longo do tempo em histórias, mitos e lendas que, para nossa sociedade atual, parecem sem sentido. Esse é o caso dos mitos que, para a maior parte das pessoas, não passam de histórias contadas por esses homens e mulheres do passado.

Entretanto, ao estudar sobre mitologia, percebemos que os mitos guardam ideias preciosas para aquela cultura e que, por serem ideias, podem nos inspirar e iluminar as experiências que vivemos em nosso dia a dia. Os mitos, portanto, não são apenas um traço cultural de uma civilização, mas, em última instância, guardam em si símbolos atemporais que ajudam a nortear a Humanidade. 

Hoje falaremos de um Deus muito conhecido pela cultura pop, mas que ainda, talvez, seja pouco compreendido em seu aspecto mais profundo: Odin. 

Segundo a tradição nórdica, Odin é a principal Divindade de sua cultura. Seu nome pode ser traduzido como “chefe” ou “pai de todos” e teria sido esse Deus que teria criado o Universo. Odin, porém, teria sido gerado a partir da união de outras duas Divindades chamadas Borr e Bestla, mas não sabemos mais nada a respeito deles a não ser isso. O Deus dos Deuses para os antigos escandinavos era representado como um homem velho, de barbas longas e também teria tido alguns irmãos, Vili e Vé, que o auxiliaram na criação da Humanidade. 

Antes disso, porém, devemos compreender alguns aspectos da mitologia nórdica. O primeiro deles é que as Divindades dessa cultura são separadas em classes. Existem os Aesir, que seriam os Deuses mais importantes para os nórdicos e que vivem em Asgard; Existem ainda os Jotuns, uma raça de gigantes que rivaliza com os Aesir pela disputa do Universo. E além destes, havia também outras classes como os Vanirs, os Nornas, mas que não vamos detalhar necessariamente. Essa distinção entre as Divindades é importante para entendermos o contexto em que Odin torna-se o Deus dos Deuses, pois sua autoridade passa a ser sobre os Aesir e outras classes, mas não é soberana, uma vez que os gigantes buscam incessantemente tirá-lo do seu posto.

Voltando ao mito, Odin e seus irmãos derrotam uma criatura ancestral chamada Ymir e com seus restos mortais ele dá vida à Terra, sendo assim o criador da Humanidade. Seus irmãos o auxiliam também na criação dos homens, dando-lhes emoções e sentimentos, além dos sentidos. Assim, o Deus criador não é visto apenas como o chefe dos Deuses, mas também responsável por toda a Humanidade.

Esses aspectos iniciais do mito de Odin o colocam como uma figura central para a cultura nórdica, porém, seus símbolos vão muito além destes. Uma das histórias mais emblemáticas de Odin se refere a perda do seu olho para adquirir todo o conhecimento sobre o Universo. Conta-se que o Deus, mesmo após criada a Humanidade, não conhecia todos os mistérios do mundo e isso o inquietava. Sendo assim, ofereceu o seu olho esquerdo como sacrifício para a obtenção desse conhecimento e, graças a isso, ele adquiriu a habilidade de vigiar e saber tudo que acontece no Universo – A onisciência -.

Para conseguir observar todo o Universo Odin contaria com dois corvos, pousados em seus ombros, de nomes Hugin e Munin. Seus nomes na língua dos antigos Vikings significam “pensamento” e “memória”. De forma direta, percebemos aqui dois atributos necessários para ter uma consciência plena, que é a memória, ou seja, capacidade de lembrar e fixar experiências, e o pensamento, que capta e processa ideias. Em termos práticos, se não construirmos novos pensamentos e não tivermos memória, provavelmente não desenvolveremos uma maior consciência sobre nossa vida. Vale lembrar que pensamento não é apenas pensar, mas sim a capacidade de chegar a uma ideia, e memória não é necessariamente a repetição do passado, mas é saber sintetizar o que já foi aprendido. Assim, o pensamento se projeta para o futuro, em novas ideias que nortearão o nosso caminho, enquanto a memória garante o aprendizado do que já foi vivido.

Em outra versão, porém,  Odin teria adquirido a Sabedoria amarrando-se à árvore sagrada Yggdrasil após se ferir com sua lança. Ao ficar nove dias pendurado na árvore, o Deus teria chegado à condição de conhecer todos os mistérios do mundo e, junto a isso, teria adquirido diversas capacidades como a Arte da Cura, a Adivinhação e a capacidade de  mudar sua aparência.  

Apesar das diferentes versões, nos interessa compreender o símbolo por trás do mito. Partindo disso, uma ideia que vale refletirmos é a do sacrifício para obter algo. Fazendo um paralelo com a mitologia egípcia, essa mesma ideia apresenta-se no mito de Osíris, que sacrifica uma de suas pernas para acessar o mundo dos mortos e conhecer os Mistérios da Vida. Considerando esses símbolos, podemos entender que até mesmo os Deuses, que já são figuras do mundo espiritual, precisam fazer sacrifícios para chegar a um novo patamar, nesse caso, o conhecimento. Logo, nos parece que essa é uma Lei da Natureza, em que não se pode conseguir algo sem oferecer nada em troca. 

Como diria o químico Lavoisier, “nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Trazendo essas ideias para a nossa vida cotidiana, pensemos o quão dispostos estamos a nos sacrificar para chegar em um novo patamar de compreensão da vida. Nossos sacrifícios, de maneira geral, envolvem, ainda, aspectos somente da vida material. Abrimos mão do nosso tempo, por exemplo, em troca de um emprego que nos garante um salário. E se desejamos obter mais recursos, se vão ainda mais horas da nossa vida, da nossa energia e do nosso empenho em atividades distintas. Em algum grau estamos nos relacionando com a ideia de sacrifício, mas ainda é muito pouco, uma vez que estamos trocando algo material (nosso tempo) por outra coisa material (o dinheiro). 

Pensemos, portanto, quantas vezes nos sacrificamos em nome de uma ideia, ou de conhecermos um pouco mais de nós mesmos. É provável que não tenham sido muitas vezes, o que é natural dentro do modo que vivemos atualmente, mas saibamos que é possível sempre fazermos mais e todo esforço é válido quando a recompensa é a Sabedoria.

Ainda sobre isso, na grande maioria das vezes nossa motivação para doar-se vem de fora, ou seja, de um incentivo externo e quando há alguma mudança, consequentemente nossa motivação também muda. Se, por exemplo, trabalhamos apenas por um salário, quando este diminui ou atrasa perdemos nossa razão de exercer nossa função. De igual modo, por vezes cumprimos o nosso dever em troca de reconhecimento, entretanto, se não nos sentimos valorizados logo deixamos de agir conforme o necessário.

Odin - O deus da cura, da vida e da morte na mitologia nórdica

Portanto, de modo geral, entendemos que não estamos dispostos a fazer tantos sacrifícios em nome de uma ideia, porém, para obter os mais altos conhecimentos precisamos nos doar além do nosso tempo e recursos. Osíris e Odin sacrificaram partes do seu corpo, mostrando que para conhecer a fundo os Mistérios é necessário deixar para trás uma parte de si mesmo: nossos medos, egoísmos e gostos. Tudo que, em algum grau, nos faz paralisar diante das adversidades e nos impede de seguir adiante.

Sobre isso, vale ressaltar um aspecto fundamental da antiga religião nórdica. Seus Deuses e mitos não existiam para servir a Humanidade, mas sim para inspirar os homens e mulheres daquela cultura a serem cada vez melhores, dignos de entrarem no mais Sagrado dos templos. Essa mentalidade forjou o espírito dos antigos Vikings para buscarem ser sempre melhores guerreiros e conquistadores, pois sua bravura e ímpeto os aproximaria dos seus Deuses. Esse é também um pensamento interessante, pois impulsionou essa cultura para enfrentar os grandes problemas diários que viviam no norte da Europa. 

Essa postura ativa proporcionou os ensinamentos necessários para superar as adversidades dos mais diferentes tipos, desde a criação de um sistema de navegação para alcançar novas terras até vencer o frio e a fome, causada por más colheitas. Por fim, lembremos que as ideias vividas por essas pessoas sobrevivem ao tempo e seus mitos estão, diariamente, nos ensinando. Que essas ideias, enfim, vibrem em nossos corações e nos coloquem dignamente diante da Vida, nos tornando mais dispostos a sacrificar o necessário para conhecermos mais de nós mesmos e do Universo.

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