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O Antigo Egito possui uma cultura fascinante. Dificilmente, quando estudamos sobre sua civilização e monumentos, não nos encantamos. Desde as pirâmides até os misteriosos mitos que rondam os mais de 3 mil anos de sua história, não há quem não considere, no mínimo, curiosa as façanhas desse antigo povo do norte da África. Não por acaso, os gregos ficaram perplexos com a Sabedoria e a forma de viver dos egípcios, como relatou Heródoto em seus escritos. Segundo o pai da História, “os gregos quando comparados aos egípcios são como crianças perto de anciãos.”

A magnitude e grandeza dessa civilização foi preservada ao longo dos milênios, em maior ou menor grau, graças aos seus monumentos e mitos. Obras “faraônicas”, literalmente, como a Esfinge e as pirâmides de Gizé sobrevivem ao tempo e, ao que tudo indica, seguirão existindo por muito tempo, sendo uma prova indelével da capacidade dos antigos egípcios de construírem para durar a eternidade. Por outro lado, agora tratando de um aspecto mais simbólico, seus mitos e ideias também perpassam o tempo, tornando-se conhecidos até os dias atuais. Narrativas como a “contenda de Osíris, Ísis e Seth” são passadas de geração em geração, se imortalizando em livros, filmes e outras formas de Arte.

Desse modo, seja no campo material ou no das ideias, a presença egípcia continua fortemente vinculada ao nosso momento histórico. Visto isso, podemos aprender bastante a partir dos seus mitos e Deuses, que foram maneiras que os antigos encontraram de eternizar e viver ideias elevadas e profundas. Hoje conheceremos mais um Deus do panteão egípcio: Geb, o Deus da terra.

Geb (ou Gebe) está na terceira geração das Divindades egípcias.  Ele é um Deus primordial dentro da visão de mundo egípcia, isso significa dizer que ele representa um Princípio da Natureza, nesse caso a terra. É ele quem sustenta a vida e fornece as bases para que sua multiplicidade exista. Entretanto, para compreender melhor essa ideia precisamos saber  como os antigos egípcios explicavam o surgimento do Universo, ou seja, sua cosmogonia. Dentro da lógica mitológica, existiria antes de tudo um princípio criador chamado Atum (a primeira geração). Esse Deus primordial teria gerado dois Deuses, de nomes Shu e Tefnut (a segunda geração). A partir da união deles nasceriam Geb e Nut, respectivamente a terra e o céu. Assim, Geb, Nut, Shu e Tefnut compõem os elementos primordiais para a existência do mundo, sendo Geb e Nut uma dualidade: céu e terra.  

A representação de Geb mostra-o como um homem de pele verde, segurando o cajado real e com um ganso em sua cabeça, sendo este o animal que o representa. É interessante notar que alguns Deuses da mitologia egípcia possuem a cor verde, o que associamos à Vida. Um outro Deus com essa característica é Osíris, que é filho de Geb e é tido como o senhor da duat, o mundo dos mortos egípcio. Podemos notar, portanto, uma relação próxima entre a ideia de vida e morte no Antigo Egito.

Em diversas mitologias o Deus da terra está associado à Vida. Naturalmente, se observarmos, por exemplo, uma plantação, perceberemos que a terra nos “dá” alimentos que sustentam nossa forma de existir e, consequentemente, é dela que “brota” a vida. Por causa dessa característica, em muitas culturas a divindade que representa esse aspecto da Natureza é associada ao feminino, ou seja, uma Deusa, associando assim a fertilidade da terra com a capacidade das mulheres de gerarem uma vida dentro de si. Olhando para outras mitologias, temos Gaia na Grécia, Durga no Hinduísmo como símbolo dessa terra fértil e outras Deusas que representam esse mesmo apecto. Porém, na mitologia egípcia esse padrão inverte-se, sendo Geb uma Divindade masculina. Para entendermos essa relação é necessário compreendermos os demais atributos de Geb.

Um deles está ligado à morte. Como já apontamos, Geb é pai de Osíris, o senhor do mundo dos mortos. Assim, quando um indivíduo morria e era sepultado Geb tinha o papel de umidificar seu túmulo para garantir uma passagem segura até o outro mundo. Além disso, para os egípcios a morte nada mais era do que uma outra face da vida, uma maneira de existir em outro plano. Logo, a terra seria um terreno fértil para garantir que a alma do morto fosse ao outro mundo, morrendo fisicamente, mas tendo uma nova forma de vida à sua espera.

Essa pode nos parecer uma ideia incomum, pois não faz parte da nossa cultura tal percepção da vida e da morte. Porém, ao observarmos a Natureza é relativamente fácil enxergar os caminhos que conectam esses dois extremos. Bem sabemos, por exemplo, que uma terra para ser fertilizada precisa de muita matéria que não está mais “viva”, assim seu solo torna-se um terreno fértil para novas plantações e árvores. Do mesmo modo, um corpo sem “vida”, ou seja, sem vitalidade e energia, ainda assim é fonte de alimento – e vida – para outros seres da natureza. Portanto, a vida e a morte estão intimamente ligados, atados em um nó que não pode ser desfeito. A terra, no meio desses dois aspectos da natureza, é o local onde transitam, portanto, de um plano para o outro. Geb é quem garante a “passagem” dessas almas, como um protetor dos Seres Vivos até seu próximo passo na caminhada. Por essas características de proteção e de transição entre os dois planos é que os antigos egípcios o representaram como um aspecto masculino, que para aquela civilização compreendia tais atributos.

Dentro da mitologia egípcia, Geb ainda cumpre um outro papel fundamental, que é o de ser Pai dos quatro Deuses que irão governar o Egito. Dentro do mito de criação, Osíris foi coroado Rei do chamado “Baixo Egito”, tendo Ísis como sua esposa. Já Seth e Néftis seriam os governantes do “Egito Vermelho” ou “Alto Egito”, região que na antiguidade era um grande deserto praticamente sem vida. As quatro divindades teriam feito o Egito florescer em uma época remota e que, ainda hoje, não há comprovação de que tenha de fato existido. Porém, de acordo com o mito, Geb e Nut foram os responsáveis por garantir que os Deuses encarnassem na terra, sendo esse um passo fundamental para a glória do Antigo Egito.

Simbolicamente, Geb representa muito mais do que a terra física com seus relevos, rios e montanhas. Para além disso, ele representa o Espírito Divino, chamemos assim, sendo plasmado no mundo material, ou seja, ele e sua esposa Nut são a ponte que se faz entre os Deuses e os homens. Para além disso, ele gera Deuses que estariam em contato diretamente com os homens e mulheres da antiguidade, sendo estes um símbolo de como a relação com os Deuses era algo fundamental dentro da sociedade egípcia. Eles, simbolicamente ou não, sentiam-se próximos às Leis da Natureza e a representavam através das centenas de Deuses do seu panteão. Nos dias atuais achamos, de maneira geral, que sua abundância de Divindades se dava pelo fato de não conhecerem o que era Divino e acharem que qualquer fenômeno da vida fosse uma expressão de um Deus. Porém, é justamente o contrário: por enxergarem o Espírito Divino em tudo, desde o Rio Nilo e suas enchentes até os grãos de areia do deserto, é que atribuía-se aos Deuses todas essas dádivas.

Se hoje não conseguimos sentir a presença desse aspecto Divino da Natureza em nossa vida, não é porque desenvolvemos uma ciência e uma tecnologia que explicam seus fenômenos, mas sim por não enxergarmos mais os Princípios por trás desses elementos da Vida. Desse modo, consideramos a nossa terra física como um planeta dando voltas ao redor do sol, e não como um Princípio regido por uma Lei, um Deus. Ao nos inspirarmos com a percepção egípcia de que a Divindade está expressa na Natureza, talvez possamos nos reencontrar com essa antiga e tão necessária visão de mundo, uma vez que encontraremos não apenas esse aspecto Divino fora, mas principalmente dentro de nós.

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