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O Simbolismo do Coração

Tempo de leitura: aproximadamente 6 minutos

O coração é um dos órgãos mais importantes do nosso corpo. Podemos afirmar, sem sombra de dúvidas, que ao lado do cérebro, ele é um dos responsáveis por tornar nosso sistema vivo. Muitos estudos atuais comprovam que, além da função “padrão” do coração, ou seja, a distribuição de sangue pelo nosso corpo, ele também cumpre funções neurais, ao ponto de ser visto como um segundo cérebro devido aos mais de 40 mil neurônios que estão ligados a esse órgão. Entretanto, a importância do coração para o nosso corpo não é de conhecimento apenas da civilização moderna, visto que desde a antiguidade, e em todas as civilizações, encontramos um forte simbolismo deste órgão com a vida humana. Vamos conhecê-los?

Todos nós já escutamos frases como “Agir com o Coração”, “Colocar o Coração em tudo que fizermos”, “Estamos unidos de Coração”, não é verdade? Essas são frases que fazem parte do nosso dia a dia e que ainda guardam algum resquício da profundidade e da importância do simbolismo deste órgão tão importante do nosso corpo. Porém, muito mais do que um órgão físico, o coração nos leva a enxergar uma tônica de Vida pautada em um grau de sensibilidade e bondade. Comumente, falamos – e sentimos – um “alívio” no peito quando fazemos um ato de generosidade, assim como é comum sentirmos um aperto nesse mesmo local quando ficamos angustiados. Essas reações físicas estão diretamente ligadas às emoções e são expressas no coração, o que fez os povos antigos as relacionarem. Em nossa tradição ocidental, por exemplo, quando queremos falar sobre o amor, dizemos que estamos amando “de todo coração”. Além disso, criamos uma oposição entre o coração e o cérebro, um representando as emoções; e outro, a razão. Apesar dessas relações serem justas devido à maneira que sentimos, para a filosofia ocidental, o coração (ou melhor, os sentimentos) participa da correta razão e, portanto, podemos falar que, quando agimos com o coração, estamos, igualmente, agindo de forma racional, em seu melhor sentido. 

Visto isso, se para nós, no mundo contemporâneo, o coração é uma espécie de sede das emoções, em diferentes povos esse órgão tinha uma função ainda mais profunda. Em diversas tradições da Humanidade, encontramos registros de que o coração era visto como sendo a nossa essência espiritual, aquilo que há de mais nobre em nós.

No Antigo Egito, por exemplo, acreditava-se que, ao morrer, o coração do morto, que é a sede da Alma, seria pesado no Salão do Juízo, e deveria ser mais leve do que uma pena, a pena de Maat, Deusa da Justiça e da Verdade. Isso significa que somente aquele cujo coração é limpo e não carrega o peso das injustiças e das mentiras tem o direito de entrar no mundo dos Deuses. Devido a essa tradição, o coração era o único órgão que não era retirado no processo de mumificação, pois ele seria averiguado pelos deuses no outro mundo. Isso não apenas mostra a relevância desse órgão para os antigos egípcios, mas também que era um símbolo importante daquilo que permanece no ser humano, o que não é transitório e, por isso, é a sede de nossa alma imortal. 

Outros exemplos interessantes acerca do simbolismo do coração estão na mitologia grega. Em um dos seus mitos, os antigos gregos contavam que Zeus, o deus dos deuses, para preservar o que restou do seu filho Zagreu, que fora devorado pelos titãs, resgata o seu coração e pede para Sêmele, uma mortal, comê-lo. A partir desse ato Sêmele passa a gestar Dionísio, o deus do vinho. Mais uma vez podemos ver o coração como aquilo que permanece, que não é devorado. Além disso, é nesse órgão que reside a alma imortal e, por isso, é possível gerar outra vida a partir dele. Assim, um outro símbolo importante do coração é o do princípio da Vida. Até hoje essa relação é profunda, visto que consideramos que uma pessoa deixou de viver quando seu coração para de bater. Se biologicamente essa relação é correta, simbolicamente também está correta, visto que, quando perdemos nossa essência, estamos, de certo modo, “mortos” para o mundo espiritual. Não por acaso, fala-se constantemente nos livros sagrados sobre “encontrar o seu coração”, que nada mais é do que conhecer sua essência divina.

Ainda acerca da mitologia grega, também encontramos o coração relacionado com o deus do Amor, Eros, conhecido também como cupido, que lança flechas no coração das pessoas, e assim faz nascer o Amor entre elas. Nesse sentido, o coração mais uma vez está ligado à relação sentimental, ao amor, a uma forma de união mais profunda do que o dos corpos físicos.

Coração trespassado por uma flecha. Índia há 6.000 anos

Já na Índia, o Coração era símbolo da morada de Brahma, criador do Universo. E também encontramos a imagem de um jovem lançando uma flecha no Coração de Shiva, Deus das Transformações. Além disso, no Bhagavad Gita, um dos principais livros de ensinamentos do hinduísmo, há uma cena em que Krishna, o mestre e a divindade por excelência, revela sua verdadeira essência para Arjuna, o príncipe dos Pandavas e protagonista de toda a história do livro. Para revelar sua essência, Krishna abre o seu peito, mostra o seu Coração, e assim Arjuna conhece o que é, de fato, Deus. O Coração, mais uma vez, é visto como um símbolo do que é divino, do que é atemporal e daquilo que é, que não pode ser alterado. Quando falamos “de Coração” para uma pessoa, estamos transmitindo a ela a nossa verdade, sem pudores ou medos. Assim, o Coração pode ser sinônimo de verdade, de Deus, de essência, e de tudo que esteja ligado com esse aspecto atemporal.

Na América Central, encontramos os ritos do sacrifício do Coração. Para que o Deus Quetzalcoatl, o Deus Sol, pudesse vencer a batalha diária contra a Lua, as 400 estrelas e a escuridão, era necessário que os homens oferecessem seus Corações. Logicamente, o Coração representava uma Vida comprometida com a divindade, porém, com a decadência moral e intelectual, esses povos passaram a interpretar esta cerimônia literalmente, foi quando começaram os sacrifícios humanos. 

Sacrifício Asteca do coração. 

Na tradição Cristã, também encontramos o Coração de Maria e de Jesus, sempre iluminados como uma espécie de Sol Interior, nos lembrando onde está a fonte da Vida, da Fé e da Bondade. Também há o Coração em chamas, representado em várias imagens de Jesus e que simboliza a devoção dos discípulos para com os ensinamentos do mestre. Esse Coração ardente pelo fogo da sabedoria revelada simboliza a imortalidade do ensinamento e a transmissão da sabedoria, que esquenta nossa alma e a faz vibrar.

É notória a importância do simbolismo do Coração em todas as épocas e civilizações. O psicanalista Carl Jung, em sua obra, nos dá uma dica de como poderíamos entender melhor esta importância. Ele nos diz que existe no nosso inconsciente coletivo modelos perfeitos, arquétipos, que são guias que norteiam a nossa Jornada Humana. 

Por exemplo, de alguma forma, sabemos que o Ser Humano deve ser Bom, pois todos nós quando nos deparamos com uma atitude maldosa a chamamos de desumana. Estes arquétipos, estas ideias perfeitas, nós intuímos como válidas e buscamos vivê-las, independente do momento histórico. Seria esse o caso do simbolismo do Coração, aquela parte dentro de nós que nos indica a direção para vivermos a Vida de forma Digna e Humana, ao invés de meramente sobrevivermos.

Atualmente, nossas Vidas são mecânicas, alienadas e inconscientes. Desumanizamos a nossa sociedade. A degeneração das ideias e dos símbolos é um sintoma do quanto nos afastamos da essência das coisas, da essência de nós mesmos. Resgatar a mensagem dos símbolos é ter a oportunidade de olhar para a Vida e compreender a maneira como ela se comunica conosco: Profunda, Bela e Bondosa. 

Colocar realmente o nosso Coração em tudo que fizermos, olhar a Vida por esta lente, sem dúvidas, nos ajudaria a nos realizar mais como Seres Humanos e, desta forma, poderíamos contribuir para um mundo melhor. Que possamos ser “Corações” em nossa sociedade!

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