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Um dos grandes problemas da humanidade atual é o esvaziamento de sentido em nossas palavras. De forma habitual, trocamos os seus significados e hoje pouco sabemos sobre conceitos e ideias vividas na antiguidade, pois deturpamos o real sentido das palavras. Um exemplo clássico dessa problemática é a separação dos termos “Ética” e “Moral”, que na antiguidade significava “costumes”. Nos dias atuais, porém, acreditamos que há diferença entre esses dois conceitos. Assim, com o passar do tempo, acabamos dividindo e ressignificando o que, em tese, nunca foi necessário ser feito.

De igual modo, ocorre com o conceito de Daemon vivido pelos antigos Gregos. Graças à tradição cristã, essa ideia foi traduzida como “demônio” e, por séculos, foi vista de maneira negativa. Porém, se voltarmos para sua essência, perceberemos o quão interessante e belo é essa ideia que Sócrates, um dos homens mais sábios da Grécia Antiga, nos legou. Dessa maneira, hoje conheceremos um pouco mais sobre o que os Gregos concebiam como Daemons e sua importância para a cultura dessa civilização.

De maneira geral, os Daemons eram espíritos da natureza que manifestavam diversos aspectos humanos como a alegria, felicidade, raiva, ira, tristeza etc. Eles não eram necessariamente classificados como bons ou maus, mas para os antigos Gregos era notável que a influência desses seres mitológicos poderiam causar efeitos positivos ou negativos nas pessoas. Porém, esse é apenas um dos aspectos em que eles poderiam ser mencionados. Os Daemons também estavam ligados a diversos elementos naturais, tendo para alguns filósofos a percepção de que cada elemento fundamental da criação (o fogo, a água, o ar e a terra) tinham seus próprios Daemons. Assim, as florestas, as montanhas e todos os elementos naturais também seriam regidos por esses seres míticos, como uma forma de encarnação do Divino na matéria. 

Em um sentido mais profundo, por exemplo, o Daemon era tido como um espírito superior humano, como se fosse nossa parte mais profunda. Sócrates foi um dos grandes defensores dessa ideia, visto que afirmava que conversava com o seu Daemon, no sentido de que escutava esse espírito interno que o regia. Desse modo, temos em vista duas perspectivas quando tratamos desse conceito, mas que ambos caminham em uma mesma direção: os Daemons seriam capazes de interagir com os seres humanos, seja no sentido de pertencer ao nosso aspecto mais profundo; ou mesmo como a ideia de serem espíritos da natureza. Considerando ambas perspectivas, a influência deles determinaria parte de nossas condutas e também nossos estados de ânimo. Para alguns filósofos gregos, por exemplo, a Felicidade seria nada mais do que estar sob a influência de um bom Daemon. A própria palavra para “Felicidade”, em Grego, está ligada a esse conceito, uma vez que era chamada de “EuDaemonia'”. Neste sentido, podemos perceber que para os Gregos antigos os Daemons não eram seres que estavam à parte da vida humana, mas sim eram uma parte integrante da natureza.

Refletindo sobre tais ideias, é interessante percebermos como os antigos enxergavam o Ser Humano conectado com os demais elementos que nos circundam, sendo partícipes desse mesmo mistério. Ao longo da nossa história, porém, adotou-se por muito tempo uma cultura de que nós estaríamos afastados dessa vida natural e que todos os elementos da natureza, sejam de origem mineral, vegetal ou animal, estariam habitando a terra para nos servir. Desse modo, as florestas existiriam para nos dar madeira, as árvores nos dariam sombra e frutos, a montanha, os minérios e os animais seriam fonte de alimento. Nota-se, assim, uma mentalidade utilitarista da natureza que foi sendo propagada ao longo de várias gerações.

Frente a isso, quando Sócrates e demais filósofos Gregos falavam que os Daemons estavam em tudo, tanto no Ser Humano e suas emoções, mas também que regiam as diferentes manifestações da vida natural, o que estavam expressando é que toda matéria, da mais complexa até a mais singela das formas, é habitada por um ser Divino, capaz de conectar o espírito do mundo (que hoje chamamos de Deus) conosco. Assim, os Daemons nada mais seriam do que essa expressão do Divino na matéria e, por isso, neles habitava a Felicidade. Quando escutamos nosso Daemon interno, ou seja, a nossa parte Divina e a colocamos em primeiro plano, somos capazes de alcançar um outro patamar de realização, algo que nenhuma alegria passageira é capaz de sustentar.

Colocando em exemplos práticos, pensemos em como obtemos a Felicidade. Em muitos casos, a perseguimos através de bens materiais, ou seja, quando compramos um carro, um celular ou um objeto de valor, nos sentimos alegres e, em algum grau, felizes. Entretanto, rapidamente essa Felicidade passa e, em algumas vezes, a sensação se transforma em tristeza. Quando perdemos o celular ou batemos o carro, por exemplo, ficamos tristes. Então é possível entendermos que aqueles objetos não nos causavam uma Felicidade plena, pois eles também foram a causa da nossa tristeza em outro momento.

Por outro lado, quando ajudamos um amigo, quando praticamos um ato de bondade, esses momentos nos preenchem de forma completa. A sensação de ajudar, ser útil aos demais e de  dever cumprido frente a nossa natureza humana nos preenche de maneira absoluta. Nesses momentos, não temos dúvida de que fomos felizes, pois realizamos aquilo que nossa parte Divina mais deseja, que é ser demonstrada na vida. Ou seja, quando Sócrates nos diz que ser feliz é escutar e seguir o seu Daemon, o sábio está querendo nos falar que ao exercitarmos nossas virtudes, ao qual representam nossa verdadeira natureza humana, poderemos ser felizes pois estaremos em contato direto com esse mistério Divino. Mesmo que não saibamos exatamente o que ele significa, ainda assim estaremos compartilhando desse momento único.

Frente a isso, é impossível não nos importarmos com a beleza dessa ideia. No fundo, o que todos nós desejamos é reconhecer a voz desse espírito interno, que em outras tradições, foi chamado de Eu superior ou de centelha Divina. Infelizmente, porém, esse conceito foi sendo deturpado e, hoje em dia, o senso comum pouco ou nada sabe sobre o sentido da palavra Daemon. Em verdade, traduzida para o Português, essa palavra foi entendida como “demônio”, o que na cultura Cristã é sinônimo de algo malévolo. Neste sentido, para a mentalidade atual falar que está escutando o seu Daemon significa muito mais afirmar que está sendo possuído por uma entidade maligna do que estar em contato com nossa essência Divina. 

Essa distorção de conceitos é causada, basicamente, pela imposição de uma cultura sobre a outra, na qual transformou toda a Filosofia Clássica em uma forma errada de buscar o Divino. Nessa perspectiva, o Cristianismo acabou adotando, ao longo do tempo, uma forma de expressar sua visão de mundo dogmática, ou seja, em que nada deve divergir das ideias pregadas por ele, pois não há espaço para dialogar. Assim, quando se afirma que devemos estar em Harmonia com os seres da natureza e conceber essa percepção de unidade frente à vida, há aqueles que enxergam essa percepção como fantasiosa e mesmo herética, pois é uma expressão diferente da que a cultura vigente prega.

Sendo assim, um primeiro passo importante é reconhecermos o valor das civilizações da antiguidade, que, por mais que estejam afastadas do nosso tempo histórico, ainda continuam a nos ensinar valiosas lições. Devemos reconhecer a capacidade desses homens e mulheres do passado de conseguir conjugar tantos conceitos distintos em uma única direção, mostrando um sentido profundo da vida que, infelizmente, deixamos que se perdesse ao longo da nossa caminhada. Se hoje não cultuamos os Deuses antigos e muito menos definimos nosso mundo por essa visão, que possamos considerar essa maneira de pensar e refletir, afinal, a Vida, em seu sentido mais profundo, continua sendo a mesma e é regida pelas mesmas leis há mais de 2 mil anos.

Falamos isso porque é bastante comum considerarmos que nossa sociedade representa o auge moral e civilizatório da nossa espécie e que, por tabela, entendemos mais a vida do que os nossos antepassados. Entretanto, basta olharmos de maneira mais aprofundada sobre os aspectos das mais diferentes civilizações que existiram ao longo da História, e perceberemos que sua conduta moral está muito à frente do que apreciamos nos dias atuais. É verdade que temos mais tecnologia, mais informação e, provavelmente, muito mais capacidade de atuação no mundo do que os antigos, porém, de que valem todas essas ferramentas sem saber o modo justo de atuar com cada uma delas? 

Dito isso, fica claro a necessidade fundamental de sermos capazes de olharmos para nossa vida através de diferentes ângulos, considerando uma série de possibilidades. Assim, de maneira una, poderemos caminhar a um entendimento mais elevado sobre nossa finalidade no mundo e o papel da humanidade frente a ordem natural da existência. Quem sabe, ao seguirmos esse objetivo, não possamos escutar nosso próprio Daemon, essa voz silenciosa que sussurra para nós os seus ensinamentos, mas que não nos permitimos ouvir devido o barulho dos nossos desejos e instintos. 

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