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O Mito de Jasão: o Valor de enfrentar as provas – Parte II

Tempo de leitura: aproximadamente 6 minutos

Seguindo com a nossa saga épica junto com Jasão e seus argonautas, vamos contar como foi o momento de chegada até a Cólquida. Porém, a aventura estava apenas começando. Eetes, o rei da longínqua região da Ásia Menor, não pretendia se desfazer do seu velocino de ouro, ainda mais deixá-lo sob o comando de um estrangeiro como Jasão. Além disso, havia uma antiga profecia também para esse rei de que ele seria morto por um estrangeiro. Por isso, o temor de Eetes aumentava com a chegada dos argonautas. 

Procurando se livrar dos heróis, o rei da Cólquida resolve desafiá-lo. Para conseguir o velocino de ouro, seria preciso realizar quatro grandes provas: primeiro, Jasão deveria domar os touros indomáveis e cuspidores de fogo que existiam na região e colocar neles uma charrua de diamantes; após isso, o herói deveria arar a terra onde estavam os touros e semear dentes de dragões que estavam sob a posse do rei; ao fazer isso, brotaria da terra um exército no qual Jasão deveria derrotar; por fim, caso ainda estivesse vivo, precisaria enfrentar um dragão imortal na floresta do Deus Ares, pois era esse temível monstro que protegia o velocino.

Um detalhe importante é que, para a realização dessas provas, Jasão não poderia contar com a ajuda dos seus companheiros, que, até então, lhe auxiliaram em todas as suas demandas. Seria, portanto, a primeira vez que o herói precisaria vencer sozinho os seus desafios. Mas, o destino sempre anda ao lado dos semideuses, em suas jornadas. No entanto, a visita de Jasão à corte de Eetes gerou outras situações. Isso porque Medeia, filha de Eetes, apaixonou-se perdidamente pelo nosso herói e, ao saber das provas que este enfrentaria, percebeu rapidamente o plano do seu pai.

Levada pela paixão, Medeia estava disposta a não deixar Jasão morrer na busca pelo velocino de ouro. Sendo a princesa uma grande feiticeira, ela ajudou seu amado a suportar todas as provas, dando-lhe uma grande ajuda. A primeira delas foi passando no comandante da Argos um óleo especial, para que ele não fosse queimado pelos touros que cuspiam fogo. Com essa proteção especial, Jasão conseguiu suportar o desafio e prender os temíveis animais. Após arar a terra, Jasão a semeou com os dentes de dragão, como ordenado pelo rei Eetes. Da terra, brotaram guerreiros de uma enorme estatura e Jasão, sozinho, precisaria vencê-los. Utilizando a Inteligência, o herói se escondeu atrás de uma árvore e jogou uma pedra no meio do poderoso exército, fazendo com que os guerreiros começassem uma confusão entre si. Por estarem tão ocupados, acertando uns aos outros, não perceberam Jasão passando por entre as árvores para chegar até a floresta de Ares, local no qual seu último desafio o aguardava.

Lá, encontrava-se não só o velocino de ouro, pendurado em uma árvore sagrada, mas também um grande dragão. A poderosa criatura era tida como imortal e vencê-la era um feito impossível mesmo para os grandes heróis. Mais uma vez, a princesa Medeia interfere nas provas de Jasão e o salva, dessa vez, lançando um feitiço para adormecer o dragão. Com a fera fora de combate, o precioso velocino foi tomado pelo comandante do Argos. Porém, o que significam todas essas provas? Além disso, o fato de Jasão ter recebido tantas ajudas o diminui do ponto de vista heróico?

Vamos por partes. Primeiramente, entendemos que as provas vividas por Jasão na Cólquida estavam todas ligadas à matéria. Domar os touros é um símbolo da necessidade Humana de domar seus próprios instintos, e não deixá-los descontrolados. Já os guerreiros que foram semeados representam nossas falhas, que, tal qual os poderosos guerreiros, são o resultado do que plantamos, pois ninguém nasce com defeitos, mas os cultiva ao longo da existência. O combate a esses aspectos humanos é próprio da nossa existência, sempre conflitando entre seguir o caminho que leva à virtude ou às nossas debilidades.

Mas o que Jasão faz? Ao invés de combater os defeitos, ele os confunde. Não os derrota, apenas tira a atenção deles para passar. Neste sentido, o herói começa a perder seus desafios, pois tecnicamente não os venceu, apenas os ludibriou. De igual modo, será que não fazemos isso com nossos defeitos? Ao invés de derrotá-los no campo de batalha, que é a nossa consciência, muitas vezes, apenas os colocamos de lado, fingindo que eles não existem e que não nos controlam em boa parte do tempo. Desse modo, não evoluímos ao escolher a virtude, pois acabamos apenas evitando o confronto.

Além disso, ao se encontrar na última prova, ele também não a supera. Ao contrário, é preciso a ajuda de Medeia para que ele possa superar o desafio e assim conquistar o velocino de ouro. Mais uma vez, o herói então falha em sua proposta, pois não é através de suas forças que o resultado é alcançado. O dragão, simbolizando todo aspecto temporal que envolve nosso Ser, precisa ser morto e não o é, apenas adormece. Logo, o caminho de Jasão não é completo, pois tudo que o prende ao mundo material, do ponto de vista simbólico, ainda não foi superado. Diferentemente de Hércules e Teseu, que superaram seus mais diferentes aspectos instintivos.

O preço que Jasão “paga” por não superar suas provas é terrível. Ele desposa Medeia e foge com ela da Cólquida junto com o velocino de ouro. No trajeto de volta, alguns dos seus homens o abandonam, ficando em outras ilhas. Ainda assim, o príncipe de Lolco chega a sua cidade cumprindo com a sua missão. Ele então mata Pélias, que mesmo recebendo o velocino não quis abrir mão do trono. Seu filho, Acasto, porém, é quem se torna o rei. Jasão, após dez anos com Medeia e filhos, a rejeita e se casa novamente, agora com Creusa. Mas Medeia não aceita tamanha desonra e em um acesso de loucura acaba planejando e executando a morte da esposa e filhos de Jasão. Os filhos, porém, também eram seus. 

Jasão, sem descendentes, sem coroa, sem esposa e sem honra, perde tudo. Por fim, de acordo com uma versão do mito, ele é morto com um pedaço de madeira do Argo, o navio que o levou até o “fim do mundo” para viver suas aventuras. O final melancólico de Jasão é um símbolo importante para todos os seres humanos, trazendo assim o valor moral do mito. Mostra que as provas que não enfrentamos, às quais nos escondemos, voltam para nos “assombrar”. Uma hora, nossos defeitos nos pegam, mesmo que por hora os deixemos adormecidos. 

Jasão, portanto, é o herói que falha nas provas e, por isso, sofre tão terrível fim. Perde tudo que deveria ser seu: trono, filhos, amores. Medeia, que ao longo da história sempre foi vista como uma feiticeira, simplesmente é uma agente do destino, salvando Jasão de suas provas em um momento e sendo sua algoz em outro. Neste sentido, não devemos criar julgamentos morais dos personagens, mas perceber que todos são símbolos nesse grande épico e cumprem, em maior ou menor grau, um papel.

Por fim, o que podemos compreender com esse grande épico Grego é que a saga humana está em se lançar ao desafio de descobrir a si mesmo. Assim como tantos outros mitos, Jasão é o herói que tem habilidades Divinas, mas também tem em si uma parte humana e que precisa ser canalizada. Como não o faz, o capitão do Argos acaba falhando em seu mais importante objetivo: o de vencer a si mesmo. A grande lição, portanto, é perceber que não importa se capturamos o velocino de ouro, esse prêmio sagrado pelo qual tanto desejamos, mas sim, observarmos como superamos as provas que nos são colocadas ao longo do caminho. 

No final das contas, o processo se torna mais importante que o resultado em si, pois, se nada aprendemos ao longo da jornada, nenhuma vitória será para sempre e brevemente podemos ser pegos por aquilo que evitamos enfrentar. Sejamos, portanto, capazes de vencer o maior de todos os dragões: aqueles que nos atacam cotidianamente. Só assim, poderemos, após nossa jornada épica, subir ao trono e nos auto proclamar o verdadeiro rei de nós mesmos.

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