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As mitologias são encantadoras. Talvez existam pessoas que não se encantem com essas narrativas “antigas”, mas o fato é que elas permeiam nossa vida e, mesmo advindas do passado, são tão presentes que seus símbolos mantêm-se atuais. Apesar de serem histórias atrativas, um mito só pode ser compreendido por quem tem “olhos para ver”, ou seja, quem consegue enxergar os significados e símbolos por trás dos fatos narrados.

Para compreendê-los, portanto, necessitamos desenvolver uma linguagem simbólica, que possa decifrar e revelar as ideias escondidas por trás do mito. Mas como fazer isso? Bem, há alguns caminhos. Um deles é buscar entrar em contato com o maior número de símbolos e relacionar-se com eles, criando pontes e comparando-os para enxergar as semelhanças entre as mais diversas histórias.

Junto a isso, buscar compreender o papel da mitologia nessas sociedades antigas é uma ótima dica para direcionar nosso olhar para os símbolos que lá se encontram. Logo, um ótimo treino é buscar conhecer Divindades de diferentes civilizações e tentar relacioná-las. 

Hoje, portanto, teremos mais uma oportunidade de treinar nosso olhar simbólico. Conheceremos mais uma Divindade egípcia: Nefertum, o Deus do renascimento, da cura e dos perfumes.

Sim, Nefertum é responsável por tudo isso e muito mais, como veremos. É importante observar que nas antigas civilizações os Deuses possuem diversos atributos e isso não é por acaso. A ideia por trás disso é mostrar que a Divindade tem diferentes formas de estar no mundo, ou seja, ela pode assumir diferentes características e se expressar a partir desses pontos. Se em algumas religiões falamos, por exemplo, “que Deus está em tudo”, para os antigos isso também era válido, pois haviam diferentes Deuses atuando em diferentes aspectos da Vida.

Mas quem é Nefertum?

Talvez você nunca tenha ouvido falar dele, e se esse for o caso, está tudo bem. O mito conta que ele era filho de Ptá, o Deus Oleiro que foi o criador do mundo, com Sekhmet, a Deusa-leoa que garantia o cumprimento da Ordem Cósmica. Em outros mitos, porém, Nefertum está diretamente associado à Atum, o Deus Sol e por isso também é conhecido como “filho do sol”.

Nas versões em que Nefertum está associado a Atum, ele teria nascido a partir das águas primordiais do Deus Nun, tal como os primeiros raios de sol que surgem acima do Oceano ao amanhecer. Segundo o mito, Nefertum emergiu das águas em uma flor de lótus azul, símbolo que o Deus carrega em sua cabeça. Desde então ele é conhecido como um Deus primaveril, pois está associado aos ciclos de renascimento. Ele carrega consigo o cetro real, indicando sua linhagem Divina e a chave Ankh, a Chave da Vida para os egípcios. Esses dois objetos atribuem uma posição importante para Nefertum dentro do panteão egípcio, sendo uma das principais Divindades em diferentes momentos históricos do Egito.

Porém, para entendermos os símbolos que Nefertum carrega se faz necessário compreendermos um pouco sobre a flor de lótus. Essa planta é muito conhecida na Índia, a qual se atribui um valor Sagrado, mas ela também cumpre um importante papel dentro da simbologia egípcia. A lótus é uma planta aquática que emerge dos lagos para abrir-se ao Sol. Tal qual no mito de Nefertum, ela nasce da água e mostra-se quando despertada pela luz solar. Para os antigos egípcios esse era um símbolo de Purificação e Renascimento, além de representar um caminho para a Vida Espiritual.

Renascer, nesse sentido, estaria ligado ao fato da lótus abrir suas pétalas todos os dias à procura do Sol. Já a purificação seria pelo fato da planta nascer das águas, mas ao mesmo tempo encontrar-se acima do lago, não contaminando suas pétalas. Ademais, nas antigas tradições a água representa a vida material, cheia de turbulências e movimento, enquanto o Sol representa a Divindade, que ilumina a tudo e possibilita a Vida. Por esse símbolo, o Sol também está ligado à ideia de uma Vida Espiritual. Logo, a lótus é tida como Sagrada por superar a matéria, a água, e abrir-se para a Vida Espiritual. 

Nefertum, portanto, simboliza não apenas uma Divindade, mas o caminho para uma vida voltada ao Sagrado. Ele é o filho do Sol, ou seja, aquele que tem uma Natureza Espiritual. Sua jovialidade também ganha destaque por assimilar-se a ideia de discípulo, aquele que está disposto a seguir uma trilha espiritual, superando as dificuldades da matéria em prol do Divino.

Considerando esses pontos, podemos aprender muito sobre como nos colocarmos em nossa vida cotidiana a partir dos símbolos de Nefertum. Um desses ensinamentos é sobre aprender a renascer, ou seja, acordar todos os dias e desabrochar, tal qual a flor de lótus, em direção ao Sol. Por vezes nossa vida cai em um modo de produção mecânico, quase um “piloto automático”. Olhamos nossa agenda e cumprimos nossas obrigações, mas o que realmente extraímos dessas experiências?

Quando os dias passam a ser uma série de obrigações, algumas, inclusive, sem sentido, parece que estamos parados diante da vida, apenas observando-a passar. O eterno renascimento da lótus nos mostra que todos os dias podemos renovar nossos compromissos, votos e princípios. Assim como nosso corpo precisa se purificar todos os dias, através de banhos e higiene pessoal, também nossas emoções, pensamentos e ideias precisam estar puros para seguirmos melhorando enquanto Seres Humanos.

Tratando sobre higiene e purificação, um outro aspecto interessante de Nefertum é o fato dele ter como atributo os perfumes e a cura. No Antigo Egito a flor de lótus também era vista como uma planta curativa, tanto pelo seu cheiro, como também por alguns remédios feitos a partir dela. Ela também era usada para fabricação de perfumes, para melhorar o odor e limpar os corpos para a mumificação. Nesse ponto, o aspecto transcendental fortemente presente na cultura do Antigo Egito mistura-se com uma necessidade da vida prática, uma vez que alguns rituais funerários utilizavam a flor de lótus como uma fórmula de purificação do ambiente, garantindo assim que a Alma do morto chegasse ao mundo dos mortos. 

Por essas questões, Nefertum é citado em algumas passagens do livro dos mortos egípcio e carrega a Chave da Vida, uma vez que contribui para a passagem até o outro mundo. Entretanto, tal qual o Sol que sempre nasce após se pôr, Nefertum mostra que podemos sempre renascer após uma morte. 

Não estamos falando apenas de uma morte física, em verdade, morremos muitas vezes ao longo de uma existência: ideias e valores, por exemplo, normalmente são ressignificados com o tempo; uma mágoa por algo ou alguém que limpamos de nosso coração, assim como algumas companhias e atitudes que já não condizem com a nossa vida. Tudo isso são mortes, uma vez que deixam de existir para nós. Além disso, todas elas são fundamentais para seguirmos nossa caminhada. 

É preciso, portanto, aprender a Renascer. Deixar o que já não faz parte de nós e renovar o que não podemos jamais esquecer: nossa Alma. Alimentar-se do que nos ajuda nessa trilha rumo ao Espiritual, curar nossas feridas e manter-se firme em nossa jornada. Assim caminha um verdadeiro discípulo, purificando a matéria e abrindo-se ao Espiritual. Que Nefertum, por fim, seja um símbolo para carregarmos em nossa memória. Falamos isso porque haverão momentos de agonia em nossas vidas, em que renascer será dar um passo com medo no escuro e nesses momentos precisaremos lembrar que a Lótus só exibe sua Beleza após emergir das águas. Lembremos disso e poderemos enfrentar, com Honra e Coragem, as nossas batalhas cotidianas.

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