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Somos fascinados pela mitologia grega. Desde cedo entramos em contato com os seus mitos e fábulas e, mesmo sem entendê-los perfeitamente, há algo que nos encanta. A cultura pop se apropriou desse fascínio e o fez crescer com a criação de desenhos animados, séries de TV e livros que envolvem essa temática. Entretanto, a mitologia na Grécia Antiga tinha uma função muito distante do entretenimento, como a utilizamos hoje na maioria das vezes. Tão pouco eram vistas como histórias fantasiosas, que nada comunicavam aos homens e mulheres daquele tempo.

Vale lembrar, por exemplo, que grande parte dos mitos gregos que conhecemos vieram da pena de Homero, o grande poeta dos épicos Ilíada e Odisseia, inspirado pelas Musas. Estas, segundo a tradição grega, eram Deusas que ajudavam os artistas a produzirem suas artes, logo, os mitos homéricos teriam vindo através de uma inspiração Divina. Mesmo que você não acredite em Deuses, é interessante analisar o símbolo dessa ideia: a inspiração para criar um mito deve ser Divina, pois esse tipo de narrativa busca revelar traços da Natureza Humana e do Universo, logo, não é uma simples vontade ou criação humana, mas algo além.

Partindo dessas ideias, hoje falaremos de um dos mitos mais conhecidos da mitologia grega: o mito de Orfeu e Eurídice. É muito provável que você já o tenha visto em alguma animação ou mesmo na escola, nas aulas de filosofia. Nosso objetivo aqui será o de contar a história e trazer algumas chaves acerca dos seus símbolos.

Conta o mito que num tempo distante existiu um homem chamado Orfeu. Ele possuía um dom inigualável para as artes, principalmente para a música, e andava sempre com sua lira. Sua habilidade com o instrumento encantava todas as damas da região, assim como qualquer pessoa que encontrasse com o jovem. Diziam que ele era filho de Apolo, o patrono das Artes e Deus do Sol, com Calliope, uma das nove Musas que ajudavam os artistas. 

Eis que um dia Orfeu, ao andar pelos campos, se depara com a mais bela dama e apaixona-se perdidamente por ela. Seu nome era Eurídice, uma ninfa dos bosques que cruzava o caminho do artista. Eurídice, encantada com o talento e beleza de Orfeu também cai de amores pelo jovem, e assim eles se tornam amantes e decidem casar-se.

Tudo corria bem, o casamento estava prestes a ocorrer, porém, o destino reservou um caminho diferente para os jovens apaixonados. Eurídice estava passeando nos campos como de costume e foi perseguida por um admirador chamado Aristeu. Ao tentar fugir, a jovem acabou pisando em uma cobra, que a mordeu e injetou seu veneno na pobre ninfa. Ela não resistiu e morreu pouco depois. 

Orfeu, ao saber do ocorrido, dirigiu-se até o corpo frio de Eurídice e prometeu que a resgataria desse destino terrível. Movido pelo seu Amor, o jovem artista cria um plano para salvar a sua amada: ele decide que irá até o Submundo, ou seja, o mundo dos mortos, e pedirá que a Alma de Eurídice volte para o mundo dos vivos. Entretanto, Orfeu não teria um caminho fácil pela frente.

Ele então começa sua jornada em direção ao Hades – outro nome para o mundo dos mortos e também nome do Deus desse local. Seu primeiro desafio, ao chegar na entrada desse outro mundo, é conseguir passar por Cerberus, o cão de três cabeças que vigia a entrada do Hades. Ao tocar sua lira, Orfeu coloca o grande cão para dormir rapidamente e assim consegue passar por ele. Do mesmo modo o faz com Caronte, o barqueiro, pois o convence a levá-lo até a outra margem do Rio Estige, o rio dos mortos,  mesmo não estando morto.

Superando esses dois momentos iniciais, Orfeu segue sua jornada dentro do Submundo. Ele chega até o palácio de Hades e conta sua triste história para o senhor daquele local. Hades e sua esposa Perséfone não se convencem de início, porém, Orfeu toca mais uma vez sua lira e a beleza de sua canção convence os Seres Divinos. Hades permite que Eurídice retorne para o mundo dos vivos, mas para isso havia uma condição: Orfeu não poderia olhar para sua amada até ambos estarem fora dos domínios de Hades. 

Feliz, Orfeu aceita de bom grado o acordo e, andando na frente e segurando a mão da sua amada, ele começa sua jornada de volta para o mundo dos vivos. Após alguns percalços e uma caminhada exaustiva, Orfeu continuou conduzindo sua amada sem observá-la, até que chegaram no portão de entrada do mundo dos mortos. Ao cruzar o portal, porém, Orfeu cometeu o seu pior erro: virou-se para observar Eurídice. Ela ainda não havia atravessado o limite dos dois mundos, e faltando um passo para fazê-lo, a sua alma desaparece bem em frente ao artista.

Desolado, Orfeu percebe que quebrou o acordo feito com Hades e agora havia perdido para sempre a sua amada. Ele então jurou que jamais se interessaria por outra mulher enquanto fosse vivo e se dedicaria apenas à Arte. Essa promessa, porém, não agradou as mulheres que tanto o admiravam. Algumas delas, conhecidas como Mênades ou Bacantes, se enfureceram ao serem rejeitadas pelo artista e decidiram matar Orfeu. Logo, elas o esquartejaram e espalharam seus pedaços pela Grécia. Assim foi o fim do nosso jovem, que pôde encontrar-se com Eurídice no mundo dos mortos.

Se pensarmos de maneira literal, esse mito, assim como todos os outros, não fará o menor sentido. Entretanto, como já falado, devemos observar os símbolos que estão contidos nessa história e retirar seus ensinamentos. O primeiro deles refere-se à própria jornada de Orfeu, que nada mais é do que a jornada do Ser Humano buscando encontrar-se com sua parte mais amada: a sua Alma. O Amor de Orfeu e Eurídice os une, é a força de união dos dois, porém, o destino acaba por separá-los. Do mesmo modo, segundo as antigas tradições, o Ser Humano precisa unir-se à sua melhor parte, o seu Eu Divino, para realizar-se. Por isso que Orfeu precisa descer ao Hades, pois sabe que não poderá ser feliz se não tiver a sua Alma. Assim somos nós: precisamos descer até o fundo de nós mesmos, no interior dos nossos corações, para encontrar ali o que nos faz feliz, o que nos realiza. Logo, o mundo dos mortos é na verdade uma jornada para o mundo do autoconhecimento, aquele que não está visível e que, mesmo assim, devemos conhecer.

Como bem sabemos, conhecer-se não é uma tarefa simples. Por isso Orfeu enfrenta diversos obstáculos: Cerberus, Caronte e os próprios Deuses que dificultam a sua missão. Eles simbolizam, no mito, as dificuldades que existem ao buscar esse encontro consigo mesmo, são as forças internas que nos limitam: nossos defeitos, debilidades, crenças limitantes. Tudo que nos impede de chegar até a nossa Alma e que precisamos superar. Uma vez superadas essas provas, há ainda uma a se vencer: a volta para o mundo dos vivos.

Esse talvez seja o ponto mais enigmático, mas igualmente belo. Orfeu precisa caminhar sem olhar para trás, sem observar Eurídice. Porém, quando o faz, ele acaba por perdê-la. A perda de Orfeu simboliza o apego, pois mesmo o apego a nossa Alma ainda é, gostemos ou não, uma maneira de estarmos presos ao tempo. Orfeu precisa caminhar sem olhar, pois deve fazer sua missão sem esperar recompensas, ou seja, sem olhar o fruto que lhe motivou. Trazendo para nossa vida cotidiana, pensemos nas nossas ações do dia a dia: quantas vezes fazemos algo sem esperar nada em troca? Sem olhar para trás, para o benefício que ganharemos com aquilo?

É possível que quase todas as nossas ações estejam imersas em segundas intenções. Seja receber um salário, ganhar um voto de confiança ou mesmo impressionar alguém. Sempre que escolhemos fazer ações dessa maneira, estamos nos afastando do sentido de sermos Seres Humanos. Não viemos ao mundo para ganhar dinheiro ou favores, apenas para evoluir. Por isso, sempre que agimos assim somos como Orfeu, estamos perdendo a Alma de Eurídice, pois estamos apegados ao fruto de nossas ações.

Por isso, ao perder sua amada, Orfeu fica desolado, pois sabe que não poderá ser feliz naquela existência. Entrega-se à música e rejeita as mulheres que o matam. Esse é outro símbolo importante para entendermos e refletirmos. Orfeu encontra a sua saída, e então caminha para a sua redenção através da Arte. A Arte, como falado no começo desse texto, era uma inspiração das Musas e aproximava os artistas dos Deuses. Para Orfeu, que tinha perdido a sua Alma, a única maneira de encontrar tamanha felicidade era servindo aos Deuses, ao Divino. Ele rejeita a vida dos prazeres sensíveis, mundanos, e passa a viver em busca do que é Real, do que é Divino. Sua origem Divina, filho de dois Deuses, garante essa condição. E esse modo de vida é o que permite que, após a morte, ele reencontre-se com Eurídice. 

O símbolo que podemos carregar para a nossa vida, a partir dessa passagem, é o de que ao encontrar-se consigo mesmo, ou seja, sair do submundo, nosso Ser deve dirigir-se ao mais elevado, ao Divino. Não falamos aqui de uma forma necessariamente religiosa, mas do fato de enxergarmos que há um Mistério e uma força muito além da nossa, que nos cerca a todo momento. Está no vento, na chuva, nas experiências cotidianas, em tudo. De igual modo, é preciso perceber que os prazeres sensíveis, aqueles relacionados aos sentidos, o comer, o beber, o sexo, eles podem até nos garantir uma parcela pequena de alegria, mas nada comparado a verdadeira Felicidade de encontrar a nossa Alma.

Assim como Orfeu dedica sua vida para a Arte, deveríamos nos dedicar um pouco ao que nos é Divino. Algo que nos aproxima de nossa essência, da nossa amada Eurídice, e que possamos refletir no mundo todo o esplendor de uma Vida realizada. Já entendemos que não nos realizaremos nos pequenos desejos cotidianos, aqueles que logo após realizá-los já não queremos mais. Eles são tão efêmeros que não resistem ao passar do tempo. Entretanto, se servimos a uma Ideia, a um Princípio que acreditamos ou mesmo agimos em nome do Bom, do Belo e do Justo, podemos, sem dúvida, alcançar um patamar de Felicidade Atemporal, ou seja, aquele que nunca será “demais”. 

Que possamos carregar o mito de Orfeu e Eurídice em nossas vidas. Aprendermos com ele e não nos deixarmos levar pelo apego ao fruto de nossas ações, sejamos apenas o que devemos ser: Seres Humanos. Assim seremos, acima de tudo, pessoas caminhando rumo à evolução, conhecendo um pouco mais do Mistério que habita dentro e fora de nós.

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