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Você já ouviu falar na Mitologia Nórdica? Nos três reinos Midgard, Asgard e Niflheim? Cada um deles representava uma morada onde habitavam diferentes seres como Deuses, Gigantes e nós, os Seres Humanos. Hoje vamos aprender um pouco sobre o simbolismo e as principais ideias que cercam estes mundos, trazendo reflexões que possam nos ajudar a entender mais sobre essa antiga cultura.

Porém, antes de tudo é fundamental entendermos o que significa um mito e como essas histórias, que a priori parecem não ter nenhuma lógica, são importantes para compreendermos as principais ideias que foram vividas por esses homens e mulheres do passado.

Você Conhece os 9 Mundos Nórdicos? | Mitologia Pt/BR Amino

Atualmente associamos a palavra “mito” a uma mentira, algo que não existe no mundo real. Do mesmo modo, chamamos de “mitologia” as histórias e lendas que fazem parte de uma civilização e que, em geral, se levarmos ao “pé da letra”, nunca ocorreram. Tais histórias costumam apresentar Deuses, heróis, criaturas mágicas e locais que jamais existiram no mundo real, porém, isso não significa que eles não existam simbolicamente. Ou seja, os mitos nunca devem ser encarados como realidades objetivas, mas como uma realidade subjetiva, que carrega símbolos e ideias que nos ajudam a explicar e a entender questões profundas da nossa existência. 

Foi dessa maneira que muitas culturas antigas conseguiram responder, cada uma ao seu modo, as perguntas que todos nós fazemos: “Qual o nosso papel no mundo? Como o Universo existe? O que é o Ser Humano?” Essas são as famosas perguntas existenciais, próprias da natureza humana e, sendo assim, também somos os únicos seres do Universo a procurar respostas para tais perguntas. 

Por isso os mitos e a mitologia são tão importantes para conhecermos um povo, pois é uma maneira de entender um pouco como uma civilização pensava e buscava viver. Agora que esclarecemos tais pontos, podemos refletir sobre o papel desses mundos para os nórdicos e seus símbolos.

Para a tradição nórdica, o Universo estava dividido em nove reinos, sendo todos eles sustentados pela lendária árvore Yggdrasil. Poderíamos tratar de todos esses mundos, cada um com sua geografia, símbolos e histórias próprias, mas neste momento iremos focar em apenas dois destes nove mundos:  Midgard e Asgard. Segundo a mitologia, Midgard, também conhecida como terra média, localizava-se no centro da Yggdrasil, sendo representada como o seu tronco. Ela estaria entre Asgard, o reino celeste dos Deuses, e Niflheim, um mundo sombrio no qual residiam os demônios.  

Midgard teria surgido após a morte do gigante Ymir, que com sua carne e sangue teria formado a terra e a água que circunda o mundo. Midgard também é a terra dos Seres Humanos, na qual todos nós habitamos. Seu formato não seria esférico, como sabemos atualmente, mas sim plano, sendo o Oceano um limite intransponível pois este era cercado pela serpente Jormungard. A mítica serpente formaria um anel ao redor de Midgard e manteria o Oceano represado. Segundo a Mitologia Nórdica, durante o Ragnarok – o “fim do mundo” para esta civilização – Jormungard jogaria o Oceano sobre a terra de Midgard, inundando assim o mundo dos Homens.

Como falamos anteriormente, essa descrição não deve ser entendida de modo literal. Devemos, portanto, entender os símbolos e ideias que a compõem. O primeiro aspecto que chama atenção é justamente a posição em que Midgard encontra-se: entre o mundo dos Deuses e dos demônios. Essa não é, como bem sabemos, uma ideia estranha para nós. Diversas tradições nos falam sobre o Ser Humano ser esse meio termo entre os Deuses e os animais. Quando analisamos, por exemplo, nosso modo de agir, percebemos que muitas vezes somos guiados pelos nossos instintos, tal qual os animais. Porém, diferentemente do animal que só pode agir pelo instinto, somos capazes de decidir como agir frente a qualquer situação. Podemos, como diriam os antigos gregos, agir conforme manda a razão, ou seja, não somos definidos apenas pelo instinto. Por esse aspecto, é comum apresentar o Ser Humano como um ser dividido: razão e instinto, ou mente e emoções, as palavras são muitas para representar essa ideia. E assim como essa ideia aparece em diversas tradições, também a vemos no Mundo Nórdico.

Outro aspecto interessante e que reforça o símbolo de Midgard é a sua própria constituição. Segundo o mito, a terra média foi formada pela carne e sangue de Ymir, um gigante. Na cultura nórdica os gigantes também são Divindades, logo, a terra dos homens foi construída a partir do corpo de um Deus. Apesar disso, sua forma ainda é material (carne e sangue), apresentando assim um duplo aspecto: atemporal, relacionado com o que é Divino e temporal, relacionado com a matéria. Por isso que esse é um mundo que pode ser destruído, pois ainda carrega elementos mutáveis. 

Essas ideias, entretanto, não descrevem apenas o mundo dos Seres Humanos para os nórdicos, mas também nossa própria Essência Humana. Há em nós, necessariamente, aspectos que irão desaparecer ao longo da existência. Afinal, a morte é uma realidade concreta e, cedo ou tarde, todos nós passaremos por ela. Porém, como se apresenta em diversas tradições, há um aspecto Humano que não deixa de existir mesmo após a morte: nossa Alma. Por ser imortal, ela segue sua jornada ao longo da existência, mantendo-se a mesma e vivendo novas experiências. A Mitologia Nórdica também dá suporte a essas ideias a partir do Valhala, o mundo em que as Almas dos guerreiros iriam para continuar suas batalhas. Para além disso, o que verdadeiramente busca-se representar é que a Vida continua a existir, sendo um eterno ciclo de aprendizados e experiências.

Porém, Midgard não é o único reino da Mitologia Nórdica. Acima da terra média existiria Asgard, no topo da Yggdrasil. Habitado pelos Deuses, seria um reino perfeito e belo, em que somente as Divindades teriam acesso. Tal qual o Monte Olimpo Grego, em Asgard as principais Divindades, também chamadas de Aesir, reuniam-se para decidir assuntos importantes e viver. Asgard é, comparativamente, um reino em que não existem lamúrias do tempo, ou seja, os infortúnios que os Seres Humanos costumam passar. 

Simbolicamente, os dois mundos apresentam grandes distinções. Enquanto um é marcado pela dualidade, representando um aspecto muito próprio de nós, o outro é um reino ideal, perfeito, em que reserva-se apenas aos Deuses. Visto essas ideias, será possível a nós, Seres Humanos, chegarmos em Asgard? 

Se em nós habita uma parte Divina, logo, seria possível o acesso a esse mundo. Entretanto, o que nos impede de chegar até Asgard seriam os nossos instintos. Eles representam nosso lado “animal”, por assim dizer, e por nos mantermos focados apenas nele não somos dignos de chegar a esse mundo dos Deuses. Essa é uma ideia que também habita em outras tradições, como a grega. Os Campos Elíseos, local destinado aos Deuses e as Almas Puras, só podem ser acessados por aqueles que conseguiram vencer seu lado instintivo e não se deixaram dominar por ele. No Egito, a Duat, ou mundo dos mortos, só se pode obter acesso após a pesagem do coração do morto com a pena de Maat, a Deusa da Justiça. Se o coração pesar mais do que a pena, as portas do mundo de Osíris fecham-se para a Alma do morto, que retornará para uma nova experiência terrestre.

Assim, a Mitologia Nórdica também separa esses dois mundos. Porém, Asgard e Midgard representam bem mais do que mundos “físicos” ou simbólicos para essa civilização. Estes são, acima de tudo, estados de espírito. Midgard, é o mundo da dualidade, o mundo em que vivemos divididos entre o certo e o errado, o bem e o mal. Vivemos em Midgard quando nossa consciência está dividida e não sabemos atuar no mundo. Quando estamos conflituados, em “prova”, como alguns costumam chamar, e não compreendemos a vida. Quando não compreendemos as experiências que passamos e não temos clareza do nosso papel e do nosso objetivo de vida. Assim, infelizmente, vivemos grande parte de nossa existência nele.

Quando, porém, temos uma clara convicção do caminho que devemos trilhar e dos nossos objetivos, entramos no reino de Asgard. A consciência, elevada a esse patamar Divino, compreende as ideias e principalmente as lições que a vida nos mostra. Deixamos de lutar contra a vida, tentando subjugá-la, e entramos no seu fluxo, vivendo as experiências de maneira mais profunda. Para chegar a esse estado, porém, devemos praticar diariamente o autoconhecimento e, além disso, buscar colocar-se inteiramente nas experiências da Vida.

Pondo em exemplos, quando estivermos realizando um trabalho deveríamos estar concentrados somente naquilo. Porém, como bem sabemos, os problemas, os pensamentos avulsos e as emoções desmedidas passam, por vezes, a habitar em nós enquanto realizamos nossas tarefas. Quando isso ocorre não estamos vivendo com consciência, mas sim brigando internamente. Estamos, nesse momento, em Midgard, com a consciência habitando os problemas, e não os ensinamentos que existem por trás deles.

Por fim, deveríamos sempre nos perguntar, quando nos pegamos em momentos de conflito: Onde desejo habitar, Midgard ou Asgard? Devemos buscar sempre retirar a síntese dessas experiências, por mais duras e complexas que sejam. Assim, estaremos diariamente aprendendo com a Vida, e não reclamando dela. Lembremos que o Ser Humano se destaca dos outros seres pelo uso da Razão, ou seja, podemos compreender as Leis do Universo e atingir um outro patamar, vencendo assim nossas emoções e instintos. Não deixemos, portanto, essa nobre qualidade ser soterrada pelos abalos do nosso humor e dos nossos problemas. Asgard, então, não será apenas um mito contado pelos antigos Nórdicos, mas uma realidade subjetiva, uma evidência interna que caminhará junto conosco por onde quer que passemos. Esse é o valor dos mitos, esse é o valor das ideias. Sejamos, portanto, dignos de habitar no Reino dos Deuses.

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