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A Compaixão é uma das maiores virtudes Humanas. É através dela que desenvolvemos a Empatia e nos colocamos no lugar do outro, além de estreitar nossos laços quando resolvemos ajudar a quem precisa. Essa qualidade recorrentemente foi Divinizada por algumas Civilizações que reconheceram o seu valor e a associaram aos Deuses Na religião Cristã, por exemplo, Deus é um ser Misericordioso e que tem Compaixão pelos Seres Humanos, não é?

Por outro lado, essa mesma ideia foi vivenciada por outras Civilizações que, em maior ou menor grau, criaram suas formas de compreender essa tão estimada qualidade Humana. Pensando desse modo, é fascinante percebermos como diversas experiências Humanas, em várias partes do Planeta, chegaram à percepções similares sobre a Compaixão. Essa não é, porém, a primeira nem a última “coincidência” quando se trata de comparar as ideias que permeiam as mais distintas Culturas Humanas. Ao fazermos isso, podemos perceber que a Cultura de cada sociedade, à sua maneira, carrega algo em comum. Dessa forma, estudar essas Civilizações e seus mais variados aspectos deve ser encarada não apenas como um desejo intelectual de querer entendê-las, mas sim enxergar que, por trás de cada elemento da sua Cultura, há uma ideia. 

Assim, uma grande Verdade se revela: desejamos chegar às mesmas ideias. O que nos diferencia são apenas os modos com os quais lidamos com essas concepções, que naturalmente se adapta à diferente realidades Humanas. Mas quanto a isso, trataremos mais à frente, neste texto. Por enquanto fiquemos com essa percepção em mente, enquanto mergulhamos em uma das Deusas mais interessantes do Budismo: Kannon, a Deusa da Misericórdia. 

De acordo com a Tradição do Budismo Chinês, Kannon é a Deusa da Compaixão e Misericórdia. Apesar da sua origem, essa Divindade é conhecida por todo o Oriente por diferentes nomes, a depender da região em que se habite. Assim, podemos encontrá-la como Kuan Yin, Guan Yin, Quan Âm e outros tantos nomes que, no fim, têm a mesma representação. Alguns estudiosos, porém, dizem que sua origem está na milenar Tradição do Budismo Indiano, sendo a contraparte do Deus Avalokitesvara, que também representa a suprema Compaixão. 

Além disso, Kannon tem como característica escutar todos os lamentos do Universo, sendo a encarnação da Bondade no cosmos. Com suas preces, ela limpa o sofrimento de todos os seres, sendo assim uma grande mãe que roga por todos nós. Graças a essa característica, seu culto foi amplamente difundido e em praticamente todos os países Asiáticos pode-se encontrar templos e estátuas dessa grande Deusa. 

Como podemos ver, ao longo da História, a troca cultural das diferentes regiões do Oriente fez com que a Deusa Kannon expandisse seu culto para diversas culturas, adaptando-as nas mais distintas formas. Se em algumas Tradições, por exemplo, ela é vista como a esposa de um grande Deus, em outras, ela própria representa a grande mãe, a Divindade que deu a luz aos outros Deuses e cuida de todos nós. Neste sentido, Kannon representa para o Budismo essa força criadora do Universo, capaz de gerar energia e Vida em seus mais distintos aspectos. Similar à deusa Shakti e suas formas na Cultura Hindu, Kannon também emanaria de si toda a potência do cosmos, sendo muito mais do que uma figura Divina, mas a própria energia primordial. 

Mais recentemente, com as grandes navegações e expansão dos impérios Português e Espanhol para a Ásia, a Deusa kannon ganhou, mais uma vez, outras representações e foi comparada à Maria, mãe de Cristo. Em um primeiro momento, essa pode parecer, no mínimo, uma ideia difícil de entendermos. Isso porque quando observamos as duas culturas, notamos rapidamente suas formas, que são bem diferentes. Entretanto, como já explicamos anteriormente, as formas são apenas uma maneira de se alcançar a essência de uma ideia. Frente a isso, os Portugueses e Espanhóis Cristãos, ao se depararem com o culto à Deusa Kannon, associaram-na à figura de Maria. Com o tempo e a expansão do Cristianismo no continente Asiático, os novos fiéis adotaram a imagem de Maria com Kannon, pois enxergavam nas duas a sublime virtude da Compaixão e da Misericórdia.

De fato, quando fazemos um paralelo entre a mãe de Cristo e a Deusa da Compaixão, notamos diversas similaridades: ambas representam uma grande mãe capaz de amar incondicionalmente a todos. Também são conhecidas por sua Misericórdia, o que faz com que sejam um símbolo de Pureza e Perdão. Desse modo, nada mais natural para as pessoas associarem as duas, uma vez que ambas são representantes de uma mesma ideia. De maneira muito parecida, isso também ocorreu no nosso país com o sincretismo religioso entre a Orixá Iemanjá, das religiões Africanas, com Maria. No nosso calendário litúrgico, por exemplo, uma das principais festas religiosas é a Nossa Senhora dos Navegantes, que nada mais é do que uma representação cristã da Orixá das águas salgadas.

Partindo dessas concepções, podemos refletir sobre como é natural, quando estamos vivendo conscientemente essas ideias, buscarmos compreendê-las em outras representações. Assim, nosso olhar frente às diferentes religiões e Deuses, sejam atuais ou das antigas Civilizações, passa a ser o de integração e jamais de exclusão. Podemos observar essas distintas formas com o que realmente são: pontos de vista. Infelizmente, quando olhamos para a História, seja a nossa ou a de outras regiões do Mundo, percebemos que muitas vezes nos apegamos apenas à nossa própria maneira de enxergar essas ideias e não permitimos a livre expressão das outras culturas, sejam elas religiosas ou não. Desse modo, caímos em um grande problema que nos aflige até hoje: a intolerância. 

Como sabemos, durante a colonização nosso país, o culto aos Orixás foram impedidos e assim, o sincretismo religioso com a imagem de Maria tornou-se uma necessidade. De igual modo, do outro lado do Mundo, os Cristãos Asiáticos também tiveram seu culto perseguido, precisando fazer com que a imagem de Kannon fosse associada a Maria para poder continuar exercendo sua religião. Assim, quando observamos as estátuas da Deusa da Misericórdia, podemos encontrar uma série de similaridades com a figura de Maria. Porém, essa necessidade de “adaptar” as formas é um sinal de que não estamos conseguindo enxergar as ideias por trás de cada uma dessas representações. Desse modo, cresce a nossa intolerância religiosa, pautada por um cego dogmatismo de que somente a nossa crença é a correta. Quando essa ideia é levada às últimas consequências, ela acaba motivando guerras, confrontos e perseguições dos mais variados tipos. 

Frente a isso, entendemos que é nosso dever expandir nossas fronteiras e compreender o que verdadeiramente se esconde por trás de cada uma dessas culturas e representações. Sempre que nos fechamos em uma concepção, seja ela qual for, estamos, de certo modo, perdendo a essência do mais valioso dos ensinamentos: o de amar a todos. Quando buscamos amar, no seu sentido mais profundo, buscamos pontos de conexão e não de separatividade. De igual modo, não nos permitimos ser reféns de nossas próprias ideias, fechando-se nelas e não aceitando nenhuma outra maneira de viver. 

E isso serve para tudo: desde o culto à uma Divindade, até uma maneira de expressão que não consideramos válida. Lembremos, afinal, que toda forma é a expressão de uma crença, logo, não podemos nos prender a apenas uma maneira de viver, mas sim entender que cabe a cada um de nós o papel de, cotidianamente, expandir nossas fronteiras para aceitar todas as formas de se viver uma mesma ideia. Esse é, sem sombra de dúvidas, um grande desafio e, para alguns, essa é uma maneira impossível de ser vivida. Porém, lembremos de Kannon e sua Compaixão por todos os seres do Universo: ao nos inspirarmos nessa Divina forma de Amor e Empatia, e buscarmos, a cada dia, crescer um pouco mais nessas virtudes, será mesmo que não poderemos criar um Mundo melhor, com mais Amor e União? Nós acreditamos nisso e por isso buscamos viver tais ideias, portanto, sejamos nós o elo de União e Compaixão que queremos no Mundo, e assim viveremos conscientemente os ensinamentos de Kannon.

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