Todos nós buscamos por respostas. É próprio da natureza humana investigar, utilizando todos os seus atributos, o que lhe cerca. Graças a esse impulso pelo saber passamos a explorar novos territórios, criar novas ferramentas para nos ajudar a viver melhor e, consequentemente, conhecer de forma profunda os Mistérios do Universo. Nos dias atuais, por exemplo, utilizamos a ciência e seus métodos para trazer à luz o saber sobre o nosso Cosmos, porém, nem sempre foi assim.

Ao longo da nossa história outros meios foram utilizados para se chegar à Verdade. Um deles foram as religiões, que tratam, desde os tempos antigos, as escrituras e seus dogmas como meio de explicação do mundo. Outro método conhecido e que guarda proximidade com a religião são os mitos. Utilizados em todas as culturas humanas, eles são úteis para transmitir ideias e símbolos acerca do Ser Humano, da Natureza e do papel de cada um de nós no Universo. Frente a isso, não podemos observar suas histórias como inverdades ou meras fantasias de homens e mulheres que “nada sabiam”, pois cada vez mais demonstra-se que o conhecimento obtido nessas civilizações atesta sobre o profundo saber que dominavam.

A mitologia, antes de tudo, nos serve de aporte para compreender como cada civilização pensava e enxergava as ideias de seu tempo. Para além disso, ela é uma ferramenta importante para entendermos a mentalidade e o espírito dessas pessoas e como, com as condições que tinham, conseguiram chegar às suas percepções. Visto isso, devemos deixar claro que não podemos tratar tais histórias como invenções ou mesmo ingenuidades, mas sim como uma maneira eficaz de preservar ideias e símbolos que ultrapassam a barreira do tempo.

Dito isso, hoje falaremos um pouco mais sobre a Mitologia Grega. Abordaremos uma de suas Divindades primordiais, pouco relembrada quando se fala dos mitos dessa civilização, mas que para os antigos gregos era celebrada como uma das principais formas de ver a Deus no mundo. Estamos falando de Gaia, a Deusa-Mãe da Grécia.

Para entendermos um pouco melhor sobre os atributos e representação de Gaia, é fundamental compreendermos seu mito de origem. Segundo Hesíodo, um dos principais autores dos mitos gregos, Gaia teve origem no Caos primordial, ou seja, no vazio do Universo, sendo a primeira criação a existir. É a partir de Gaia que os outros elementos que compõem o Universo irão surgir, como o Céu (Urano), o Mar (Ponto) e as montanhas (Óreas). Quando estudamos outros mitos de criação, como o egípcio, mostra-se que antes da Terra existem outros elementos, porém, na cultura grega não é assim. A explicação está em um dos principais símbolos de Gaia, que é a fertilidade. Sendo uma Divindade geradora, ela é quem faz nascer os outros elementos. 

Para além disso, a união de Gaia com os outros Deuses, principalmente Urano, faz com que nasça a segunda geração de Deuses, também conhecidos como Titãs. Dentre eles, o mais famoso certamente é Cronos, o Titã do tempo. Porém, além destes, Gaia também será mãe dos Ciclopes e dos Hecatônquiros, que, segundo a mitologia, são criaturas gigantes com cem braços e cinquenta olhos, verdadeiros monstros que aterrorizam os humanos e lutam contra os Deuses olimpianos. Gaia ainda seria responsável por ser a mãe de Divindades marinhas, sendo estas fruto de sua união com Ponto, a Divindade do Mar. 

Todas essas uniões, afinal, representam o aspecto da fertilidade da Terra, porém, há um aspecto mais profundo que devemos entender sobre esse símbolo. Gaia é uma Deusa primordial, expressão própria do aspecto mais puro do Divino. Seus filhos, que são, a grosso modo, toda a existência, compartilham desse elemento sagrado que habita nela. Sendo uma representação da própria terra, não é por acaso entendermos que Gaia era o símbolo da terra Divinizada para os gregos. Em poucas palavras, para os antigos habitantes da Hélade tudo que vinha da terra estava, direta ou indiretamente, conectacada com o Sagrado. Por isso, algumas festividades e templos relacionavam diretamente Gaia com Deméter, a Deusa da agricultura e da colheita. 

Gaia também habitaria nos bosques, cavernas e montanhas e seria também a mãe da Humanidade. Por sua capacidade de geração de diferentes criaturas e, acima disso, pelo Amor e Cuidado que ela tinha por seus filhos, ela era adorada como a Deusa-mãe. Sobre isso, há um aspecto interessante de Gaia ao analisarmos o seu mito. Como sabemos, ela gerou as mais belas Divindades, como Urano e Reia, mas também foi responsável por dar à luz aos mais horrendos Titãs e criaturas do mundo, como os Gigantes e Tifón, uma besta nascida da união da Deusa-mãe com Tártaro, o Deus do mundo inferior.

A primeira vista parece-nos contraditório que uma Divindade capaz de gerar Seres Divinos seja igualmente responsável por dar vida a bestas e monstros, não é? Porém, aqui há um símbolo que provavelmente muitos de nós entenderemos com certa facilidade. Como uma mãe, Gaia ama e acolhe todas as suas crias, sem fazer distinção dos seus aspectos positivos ou negativos. Aceita-os tal como são, sejam Deuses ou monstros, pois ambos saíram de suas entranhas e correspondem a uma parte do Mistério do Universo. 

Refletindo sobre isso, podemos compreender a associação de Gaia como a maior de todas as mães, que ama seus filhos, porém, de igual modo, não é tão simples entendermos a razão pela qual seu aspecto Divino está expressado em criações “do bem” e “do mal”, ou seja, em Deuses e monstros. Para entendermos essa ideia é preciso compreender que o Universo é composto, invariavelmente, pela dualidade. Pensando sobre isso, podemos notar que em tudo expressa-se essa Lei do Universo: existe a luz e a escuridão, o bem e o mal, o frio e o calor, e assim por diante. Assim, o que  estamos considerando como “bem” ou “mal” é a expressão desta Lei no Universo, sendo que em ambos os pólos habita um aspecto sublime do Divino.  Por isso que Gaia, como geradora dessas formas, reconhece que há nelas não só a maldade ou o terrível, mas também uma parte do Mistério do Universo.

Assim, em seu coração abre-se espaço para o Amor em todas as suas expressões. Nos mitos que Gaia aparece, sempre que há um duelo entre Deuses ou guerras entre a humanidade e outras formas de vida, a Deusa-mãe entristece-se, uma vez que tudo que vê são seus filhos se degladiando. Um dos exemplos dessa tristeza de Gaia está no mito que envolve sua prole com o Deus Urano. Conta-se que a Divindade dos céus gerou doze filhos com Gaia, sendo seis deles as criaturas que já citamos: os Ciclopes e os Hecatônquiros, sendo três de cada tipo. Urano fica horrorizado com seus filhos e decide os prender no Tártaro, o mundo inferior que fica nas profundezas da Terra.

Gaia, ao ver que seus filhos foram condenados à prisão pelo próprio pai, caiu em melancolia, mas ainda assim Urano novamente deitou-se com a Deusa e gerou outros seis filhos, os Titãs. Dentre eles, apenas Cronos não foi preso no Tártaro e, a pedido de Gaia, o titã do tempo colocou fim ao reinado do pai. Castrando-o durante o sono, o sangue de Urano ainda gerou outros seres Divinos, além da própria Afrodite, a Deusa do Amor.

Esse, talvez, seja um dos mitos mais conhecidos ao lembrarmos da Mitologia Grega. Para compreendê-lo, devemos enxergar os seus símbolos e traduzi-los. Apesar de diversos, hoje iremos focar apenas no aspecto de Gaia. Em primeiro lugar, destaca-se, mais uma vez, a fertilidade da Deusa, que permeia todas as partes do mito, inclusive nos seus momentos mais dramáticos. Mostra-se que apesar dos Ciclos da Natureza, dos seus verões e invernos, a Terra continua a gerar “filhos”, ou seja, perpetuar-se. A vida jorra por ela, e mesmo que alguns elementos tenham um aspecto “negativo”, ainda assim apresenta-se como uma forma de vida nova e Divina.

Se observarmos o nosso planeta e sua diversidade perceberemos que essa ideia de Gaia como uma mãe fértil não parece ser fruto de uma fantasia. Pensemos nos mais diversos ambientes em que se prolifera vida na Terra, desde os desertos até as grandes selvas. Ecossistemas inteiros nascem, morrem e dão lugar a novas formas o tempo inteiro. Se formos mais afundo nessa perspectiva, pensemos na quantidade de eras geológicas e transformações vividas em nosso “pequeno ponto azul” e nas formas de vida, extintas ou vivas atualmente, que já caminharam ou cresceram nesse solo.

Partindo desse ponto de vista, é inegável a capacidade do nosso planeta de gerar diferentes formas de vida, com sua Beleza única e, em maior ou menor grau, cumprindo seu papel na Natureza. De igual modo podemos pensar na Humanidade, sendo os Seres Humanos uma das espécies que vivem e se nutrem da terra, tal qual um recém-nascido precisa nutrir-se dos recursos da mãe. Se observássemos com um pouco mais de profundidade as expressões da Natureza ao nosso redor, o mito de Gaia, a Deusa-mãe grega, não deveria ser encarado como uma “história fantasiosa criada por homens e mulheres do passado”, mas sim como uma prova intrínseca da Sabedoria atingida por essa civilização, pois conseguiu conjugar grandes ideias na figura da Deusa.

Por fim, Gaia ainda é responsável por um simbolismo sutil, mas que denota um enorme sentido para a percepção do que seria a Vida para os gregos. Do mesmo modo que a Deusa-mãe era o símbolo máximo da vida e da fertilidade, sendo essa expressa nas mais diferentes formas, Gaia também era lembrada em ritos funerários dos antigos gregos. Isso ocorria devido ao fato dos próprios gregos compreenderem que vida e morte são aspectos da Natureza que não estão separados, afinal, tudo que é vivo um dia estará morto. Porém, como a mitologia nos mostra, os antigos gregos não acreditavam que a morte seria o fim da existência, mas sim um novo ciclo a ser trilhado. Assim, como Gaia era a responsável por dar à luz a toda Vida, ela também seria responsável por garantir a passagem dos mortos para o outro mundo, o Hades.

Todos esses atributos, como podemos perceber, não são fruto do acaso. Podemos afirmar, com uma boa margem de certeza, que os gregos concebiam essa percepção Sagrada quanto à Terra, não por ser o planeta em que vivemos, mas principalmente pelas dádivas que ele nos fornece. A gratidão e devoção a Gaia, portanto, nada mais era do que a conclusão óbvia de que a Vida, em todos os níveis, só existe por causa da própria Terra. Entendemos, assim, que essa é a mais valiosa das lições que podemos retirar do mito de Gaia e seus símbolos, pois carecemos de um novo olhar para o nosso planeta. Não pensemos que esse é apenas o lugar que habitamos no Universo, mas que somos filhos da Terra, um dos incontáveis milagres da Vida. Talvez, sob essa nova perspectiva, sejamos mais gratos e menos destrutivos com a Natureza, achando o nosso lugar nesse imenso ecossistema Divino chamado Gaia.

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