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Conhecemos o mundo a partir de dualidades. Nosso cérebro, em geral, cria relações de contraste e é dessa diferenciação que passamos a compreender melhor a Vida, ao nosso redor. Assim, a dualidade está muito mais presente na maneira que enxergamos o universo do que, necessariamente, na natureza. Porém, de acordo com um dos princípios naturais do Caibalion,  a polaridade é apenas a diferença de graus de um mesmo fenômeno, ou seja, o que entendemos como formas distintas e opostas são, de fato, momentos diferentes de um mesmo aspecto da natureza.

Coloquemos em exemplos para melhor entendermos: vamos pensar no calor e no frio, que são, a priori, duas maneiras de sentirmos a temperatura. O que determina se algo está quente ou frio? Aprofundando um pouco mais nessa ideia, podemos entender que frio e quente não existem em si, mas que são graus distintos da energia, em formato de temperatura, e nós interpretamos o frio como a perda de energia e o calor como o aumento dessa energia.

Sabendo dessa lei da natureza, muitas Civilizações antigas a vivenciaram em suas Religiões e Mitos. Podemos enxergar essa distinção de polaridades, por exemplo, nas Divindades masculinas e femininas dos panteões, constituídos por Deuses irmãos e filhos de uma Divindade maior, muitas vezes representada como o Absoluto, e outras como um grande Pai ou Mãe. Considerando isso, nota-se que, para além da polaridade, há uma ideia unificadora da qual todas as formas nascem e se expandem. E é considerando tais perspectivas que hoje conheceremos um pouco mais sobre uma das principais Deusas do Hinduísmo, adorada tanto quanto o próprio Brahma por alguns grupos Hindus. Estamos falando de Shakti, a grande mãe do Hinduísmo.

De acordo com a Tradição Hindu, a Deusa Shakti não tem uma forma específica, uma vez que representa muito mais uma ideia do que, necessariamente, uma Divindade. Também chamada de Devi (Deusa) ou MahaDevi (grande Deusa), Shakti seria representada por três Divindades femininas, as quais demonstrariam não apenas sua grandeza por serem esposas dos principais Deuses do Hinduísmo, mas por sua própria natureza e atributos. Assim, as Deusas Sarasvati, Parvati e Lakshmi representavam a Shakti e a polaridade feminina dentro da formação Divina do Cosmos, sendo elas as contrapartes ou oposições da trindade Hindu, que são os Deuses Brahma, Vishnu e Shiva. 

A adoração a Shakti, entretanto, tornou-se um fenômeno entre os Hindus, ao ponto de formarem um culto chamado Shaktismo. Nele, os fiéis adoram e cultuam a Deusa Suprema, considerando essa energia primordial como um meio de Evolução para se alcançar um estado em relação a essa força Divina.

Dentro do Shaktismo, entende-se que essa força da natureza é a realidade absoluta, estando acima, inclusive, da trindade que se manifesta no cosmos. Assim, Shakti está para além de Brahma, Vishnu e Shiva, não participando do jogo de criação, manutenção e destruição do Universo. Shakti, portanto, não seria apenas uma força da natureza na qual se manifesta como as esposas das Divindades, mas sim a energia criadora por excelência, estando para além do tempo e do espaço.

Essa é uma ideia por si só bem complexa, mas que na doutrina Hindu também se apresenta como Brahman, a força suprema da natureza que criou tudo a partir de si próprio. O que podemos compreender, para além dos mitos, é uma clara percepção na Religião Hindu da percepção de transcendência, ou seja, de que existe, de fato, uma força muito além da matéria e que, para nós, ela se mostra quase inacessível. Apesar de derivar do Hinduísmo, o culto à Deusa mãe não é algo novo, mas remonta à era pré-histórica. Desse modo, os nossos antepassados já entendiam a natureza e criavam relações simbólicas entre o papel feminino com a energia criadora, aquela que dá a luz. 

Fazendo uma rápida comparação com outras Divindades consideradas “grandes mães”, como Gaia, por exemplo, podemos ver que diversos grupos relacionaram o feminino não apenas com a capacidade de dar a luz a outro ser, mas sim de nutrir e conseguir desenvolver, a partir do seu próprio ventre, uma nova Vida. Ao interpretarem esse símbolo e relacionarem com a criação do Cosmos, esses antigos grupos Humanos, que viriam a formar verdadeiras Civilizações, fundamentaram a polaridade feminina como a geradora da Vida e, portanto, uma força da natureza tão importante e suprema quanto a masculina. 

Frente a isso, deixemos claro, antes de prosseguirmos, que ao tratarmos de “feminino” e “masculino” estamos nos referindo a uma dualidade que encontramos na natureza, seja em qualquer espécie. Logo, estamos utilizando seu significado restrito à ideia de polaridades, não abrangendo as  questões acerca do gênero Humano.  Dito isso, há ainda no Shaktismo uma outra dualidade fundamental que permeia não apenas o culto à grande Deusa, mas também as suas manifestações: Purusha e Prakriti, ou Espírito e Matéria.

Assim, essas duas polaridades são formadoras de todo o Universo, uma sendo entendida como uma energia sutil, mas que se liga a todos os corpos que habitam no mundo. Assim, o Shaktismo busca, através dessas duas forças, ligar-se com a grande Deusa, tentando canalizar sua energia. No corpo humano, essa relação energia-matéria está diretamente ligada aos chakras, que são, a grosso modo, pontos-chave no nosso corpo que fazem com que nosso fluxo de energia circule. Advinda principalmente do extremo Oriente, a ideia dessa energia, em contato com o nosso corpo, também é reconhecida na Cultura Hindu e o Shaktismo busca, através de práticas de meditação e concentração, a ativação desse reservatório de energia. 

Considerando essa percepção, o Shaktismo nos mostra que é possível nos conectarmos com essa energia universal, pois ela habita em nós, sendo mais uma dualidade que está manifestada no Universo. Essa energia que podemos sentir quando caminhamos, respiramos e que nos mantém vivos, é uma fonte quase inesgotável e que pode, quando bem canalizada, fazer com que consigamos transcender. 

Explorando o tema, será que é possível compreendermos esses conceitos no nosso mundo atual? Como bem sabemos, os Shaktis existem até hoje na Índia e em diferentes partes do mundo, portanto, essa não é uma crença que se encontra estagnada no tempo, presa a uma Cultura antiga. Assim, pensemos em como podemos compreender e vivenciar essa energia em nosso dia a dia. Muitas práticas Hindus envolvem a meditação e uma busca interior, a partir da Harmonização dos nossos chakras. Desse modo, os momentos de contemplação não são apenas exercícios, mas compõem um estilo de Vida voltado para a reflexão e canalização dessa energia, favorecendo a circulação da mesma e sendo capaz de nos conectar com a grande Deusa, fazendo com que nos sintamos verdadeiros partícipes do Universo.

Para a nossa realidade, podemos constatar que essa energia habita em nós de diferentes formas. Desde a sensação de se sentir renovado, depois de ter contato com a natureza – um banho de mar, caminhar por uma floresta ou usufruir o calor do sol – até quando nos motivamos a construir/criar algo que desejamos. Assim, essa reserva de energia está à nossa disposição para muito mais do que a nossa sobrevivência, mostrando que se a canalizamos corretamente, podemos desfrutar dos seus benefícios, mas principalmente compreendermos um pouco mais da natureza Divina que há dentro e fora de nós.

Dentro do aspecto religioso, a canalização dessa energia está em alcançar Shakti, a Deusa Suprema. Para uma percepção mais prática, quando conseguimos colocar essa vitalidade à tona, somos capazes de realizar grandes obras, como algo que muitas vezes consideramos impossíveis. Não significa, claro, que iremos ganhar super poderes, nem poderemos levitar ou sair voando. Ao contrário, a canalização dessa energia nos dá força e capacidade de atuação, a partir das nossas próprias faculdades criadoras. Assim, do mesmo modo que Shakti cria o Universo e todas as suas formas, a partir da sua energia, ao acessarmos essa energia Divina também nos transformamos em criadores de nossa realidade, exercendo força e poder sobre nosso entorno. Dessa maneira, a lógica Universal acaba sendo expressa nas nossas Vidas individuais, criando um elo inquebrantável entre o Divino e atemporal e o Humano e o temporal.

Por fim, é importante lembrarmos que essa energia não está só, ou seja, ela está ligada à matéria. Logo, quando ela é manifestada, ela o faz a partir de ações e movimentos no plano material, sendo este um reflexo de como estamos manejando nosso aspecto mais sutil. Assim, do mesmo modo que entre as polaridades, a única diferença existente é que são pontos distintos de um mesmo fenômeno, energia e matéria também são complementares de uma mesma força criadora, a qual se expressa no mundo dessa forma. Dito isso, é fundamental transformarmos nossas mudanças internas em ações externas, pois a maior prova de crescimento espiritual está em tornar visível a todos aquilo que antes só poderia ser visto por nós. Portanto, a Deusa Shakti, para nós, é o símbolo da transformação, uma vez que é a partir dessa energia Divina, interna, que, colocada em ação, faz com que mudemos não só a nós mesmos, mas também a nossa realidade. 

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