Você já ouviu a expressão “cair nos braços de Morfeu”? Ela remete à ideia de alguém que está em um sono profundo e sonhando, sendo assim agraciada por um dos Deuses do sono da Mitologia Grega. Hoje conheceremos um pouco mais sobre essa Antiga Divindade. Vale ressaltar, antes de iniciarmos nossas reflexões, que a Mitologia está envolta de uma linguagem simbólica e por isso, jamais poderemos levá-la ao pé da letra. Então nos cabe não só a interpretação das suas ideias, como também, devemos compreender que existem outras interpretações e possibilidades para a compreensão do mito. Sobre esse assunto, recomendamos o nosso Texto sobre Mitologia, que se encontra em nosso portal. Lá, o leitor que ainda não está habituado com o estudo dos mitos e as ideias gerais que o compõem, pode aprofundar-se um pouco mais nessas percepções.

Dito isso, vamos conhecer Morfeu. Na verdade, há poucas fontes que tratam sobre o Deus do Sono. Algumas, inclusive, se contradizem em alguns pontos, no entanto, isso ocorre, provavelmente, pelo fato de ser uma Divindade cultuada em ritos mais fechados, o que não o tornou um Deus tão popular. Assim, tem-se, em geral, que Morfeu seria um Deus com grandes asas e teria a capacidade de atravessar a Terra rapidamente. Além disso, ele também podia se transformar em qualquer ser, assumindo assim formas variadas e aparecendo em nossos Sonhos. Além disso, ele seria filho de Hipnos, o grande Deus do Sono, sendo Morfeu mais um aspecto dessa Divindade. No caso, Morfeu seria o responsável pelos Sonhos. 

Em outras fontes, porém, Morfeu assume um papel mais relevante em suas atribuições. Na Eneida de Virgílio, por exemplo, a Divindade é um dos hóspedes do palácio de Hades e transita pelos campos Elísios, o local mais sagrado, de acordo com a Mitologia Grega. Neste sentido, o poeta Romano quis mostrar a íntima relação da morte com o sono, mas que ambas não têm, necessariamente, uma conotação ruim nos Mitos. Morfeu seria um dos mais Divinos habitantes do submundo, responsável pelo despertar das almas que tentavam entrar nos sagrados campos.

Mas vamos por partes para podermos entender melhor. Primeiro, vamos compreender essa relação entre a morte e o sono. Se nos basearmos no senso comum, teremos a apresentação dessa relação de maneira muito natural, uma vez que o sono é chamado de “pequena morte”. Isso porque entramos em um estado de suspensão quase total de nossas funções biológicas para que o corpo possa se recuperar. Na Grécia Antiga, porém, essa relação era ainda mais profunda, pois o estágio logo após o sono é o despertar, sendo essa relação, para os Antigos Gregos, uma analogia com a morte.

Para os Gregos, após a morte, nossa alma entraria em uma nova dimensão, que se chamava Hade, o Submundo. Porém, após um período de “estadia” nessa região, as almas que ainda não eram completamente puras beberiam da água do rio Letes, o rio do esquecimento, e voltariam a viver em uma nova experiência. Essa ideia, nos dias atuais, pode ser traduzida como reencarnação. Dessa maneira, a morte não seria eterna e nossa alma voltaria a despertar para a Vida, assim como acordamos após dormirmos. Não por acaso, quando buscamos a origem dos Deuses do Sono e da Morte, na Mitologia Grega, percebemos que eles são gêmeos, filhos de Nix, a Deusa da Noite.

Porém, as relações de Morfeu e o sono não acabam por aí. Em um sentido mais profundo, o sono está relacionado a um estado espiritual do Ser Humano, indicando que ele não está desperto, ou seja, inconsciente da sua parte mais Divina. Morfeu, portanto, mesmo sendo o Deus do Sono e dos Sonhos também tem como característica o despertar para a Vida espiritual. Em algumas correntes filosóficas da Grécia Antiga, como por exemplo o Orfismo, acreditava-se que Morfeu não seria filho de Hipnos, mas sim do próprio Orfeu e ajudaria o seu pai a despertar as almas humanas do grande sono da ignorância. 

Essa ideia de Morfeu, como uma Divindade que auxilia no nosso despertar, foi muito bem traduzida no filme Matrix, em que o personagem que se chama Morfeu ajuda no despertar de diversas pessoas que pretendem sair dessa ilusão, resgatando-os desse estado de sono forçado. Desse modo, as Tradições mais fechadas da Grécia cultuavam Morfeu por esse estreito significado com o acordar para a verdadeira realidade.

Ainda assim, quando observarmos as diversas Mitologias existentes no mundo, perceberemos que a relação sono-despertar está intimamente ligada ao início do caminho espiritual no qual todos nós devemos seguir. De igual modo, a relação morte-Vida também mostra esse mesmo sentido, no qual devemos morrer para a matéria, se quisermos viver plenamente a Vida espiritual. Como podemos perceber, não é por acaso que Hipnos e Tânatos, as Divindades do Sono e da Morte, respectivamente, são gêmeos e ambos habitam o Hades, local que representa o mistério por si só.

Frente a essas ideias, devemos nos perguntar: o que estamos tentando despertar? Será que, ao analisar nossas Vidas, poderemos enxergar momentos em que estamos desenvolvendo esse desejo pela Vida espiritual, ou estamos, como a expressão popular fala, deitados nos braços de Morfeu?

Esse questionamento é fundamental para quem pretende dar passos nesta trilha. Os Gregos, em seus mais diferentes aspectos, acreditavam fortemente na decisão acerca desse despertar espiritual. Sócrates, por exemplo, em um dos livros de Platão faz uma anedota que explica muito bem isso. De acordo com Sócrates, sua mãe era a maior parteira de toda a Hélade, tendo feito milhares de partos ao longo da Vida. Porém, mesmo com tanta experiência e capacidade, existia um tipo de parto que ela jamais conseguiria fazer: o de uma mulher que não estivesse grávida. Do mesmo modo, Sócrates também se considerava um parteiro, pois fazia nascer nas pessoas o Amor pela Sabedoria. Porém, tal qual sua mãe, para ele, era impossível fazer dar à luz a uma pessoa que não estivesse preparado para esse despertar espiritual.

Para a nossa realidade, isso também se torna válido. Enquanto não estivermos dispostos a nos tornarmos conscientes desse processo, de olharmos para a Vida e seus símbolos de maneira a enxergar essa espiritualidade presente, jamais poderemos alcançar novos patamares nesta trilha. Neste sentido, seguiremos dormindo nos braços de Morfeu que, tal qual um mestre paciente, nos resguarda até o momento em que estivermos prontos para o despertar. 

Considerando tais aspectos, Morfeu guarda o nosso sono inconsciente, mas anseia pelo nosso despertar. Assim, não deixemos o Deus a esperar por mais tempo e façamos da nossa Vida um verdadeiro aprendizado na trilha espiritual.

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