Uma lenda é um recurso utilizado na cultura humana para falar de verdades sutis e profundas. A narrativa em si, às vezes, pode ser muito imaginativa, beirando a irracionalidade, no entanto, por mais absurda que uma lenda possa parecer, um jeito inteligente de lidar com ela é não se perder nos detalhes, visualizando-a com uma certa distância, tentando captar o sentido que está nas entrelinhas. 

Durante a Alta Idade Média, por volta do Século XI, surge uma história na Europa de que um dos seguidores de Jesus, o José de Arimatéia, aparou o sangue do Cristo com a taça utilizada na última ceia, no momento em que foi atingido por uma lança na altura do coração. Em seguida, teria fugido com a taça e o sangue para a Europa e se escondido em algum lugar seguro. Isso deu ensejo a uma busca por esse tesouro chamado Santo Graal, que significaria sangreal ou Sangue Real. Mas essa era apenas uma versão da lenda. Entre as muitas outras versões, havia uma que dizia ter sido o Santo Graal uma pedra esmeralda, que teria caído da testa de Lúcifer quando ele foi expulso do Céu. Havia outra que dizia que o Santo Graal não era nem o cálice, nem a pedra, mas uma pessoa, a Maria Madalena. Foi com base nessa última versão que o escritor Dan Brown se baseou para escrever o livro “O Código Da Vinci”. 

Os pesquisadores dessa lenda dizem que muito antes de Cristo, já havia uma lenda parecida entre os celtas que buscavam um recipiente mágico, uma espécie de Santo Graal, que tinha poderes de trazer à vida os corpos que eram jogados dentro dele. Logo, o Santo Graal medieval teria sido uma cristianização do mito celta. Já em relação à versão da esmeralda que caíra da testa de Lúcifer, existem diversas narrativas antigas que falam de um terceiro olho que nós tínhamos, o qual conseguia ver os planos sutis, mas ao longo da evolução humana esse olho teria se internalizado no corpo do homem e hoje seria a glândula pineal.

Todo esse emaranhado de mitos e lendas não estão na cultura humana por acaso. Olhando de forma panorâmica, guardando uma certa distância dos detalhes, percebemos que a lenda fala da busca por algo muito precioso que está perdido. E essa preciosidade tem a ver com a Espiritualidade, com o Poder, com o Divino e com a capacidade de visão profunda da realidade. Veja que muita coisa começa a fazer sentido quando interpretamos assim.

A Idade Média surge da destruição do mundo clássico, a visão de mundo greco-romana. Quando o Imperador Constantino começou a oficializar o Cristianismo em Roma, ele precisou varrer do território romano todo movimento filosófico, religioso ou cultural que não tivesse correlação com a fé cristã. Assim, muitas bibliotecas contendo pergaminhos com escritos filosóficos foram incendiadas, templos iniciáticos foram fechados, muitas obras de arte foram destruídas. O filme espanhol Ágora, de 2009, que na versão brasileira é chamado de Alexandria, ilustra bem esse período. Conta a história de uma jovem chamada Hipátia que era professora de filosofia em Alexandria, e foi condenada à morte por apedrejamento sob acusação de praticar bruxaria, pois era assim que era entendida a busca pelo conhecimento filosófico. Então a Idade Média surge dos escombros da filosofia, a queda de Roma não é só a queda de um Império é o desabamento de uma visão de mundo, de um paradigma.

Assim, é compreensível durante a Idade Média, a sensação de perda de algo muito precioso, perda de uma visão profunda da realidade, perda de algo que é tão vital para a Alma Humana, quanto é o sangue para o corpo físico. Essa busca por esse estado de consciência precisava encontrar um jeito de se expressar, porque era uma busca muito intensa no inconsciente medieval. É assim que as histórias vão se costurando para forjar a lenda do Graal, como uma espécie de expressão mítica desse movimento profundo da Alma em busca das grandes Ideias.

Desta forma, a melhor chave para entender o Santo Graal é vê-lo como um conhecimento perdido que tenta se reencontrar. Hoje, depois de mil anos da lenda, você acha que reencontramos todo o conhecimento antigo perdido? Lembrando que não está no campo da informação intelectual, mas da visão, está na capacidade de ver para além do imediato, do concreto. O mundo em que vivemos hoje dá sinais de que ainda estamos muito aquém da visão de mundo antiga. Imagine a profundidade dos mitos gregos, o quanto aquelas narrativas são tão cheias de sínteses avançadas da psique humana. Imagine os textos antigos de Platão, Aristóteles e os estóicos como Sêneca, Epíteto e Marco Aurélio. Veja como estamos distantes desses paradigmas. Vivemos em um mundo de corrupção generalizada, crises migratórias, crises climáticas, muitas guerras e uma recessão econômica global. Avançamos muito em tecnologia, mas não entendemos de Alma, nem do futuro, nem de Espiritualidade e Eternidade, como entendiam os antigos. Este é o nosso Santo Graal: a busca por uma visão de mundo que se perdeu. 

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