18 de março é o dia nacional da imigração judaica no Brasil. Essa data foi escolhida em razão de ser a data de reinauguração da primeira sinagoga das américas, a sinagoga Kahal Zur Israel, localizada na Rua do Bom Jesus em Recife, fundada no período do Brasil Holandês em 1630.

A presença dos judeus no Brasil é uma história de 500 anos, ou seja, tem a mesma idade do nosso país. A formação do povo brasileiro, a gênese de nossa cultura, contém uma parcela significativa da cultura judaica. Trazemos os judeus em nossa linguagem, em nossa culinária, em nossa religiosidade, em nosso jeito de se vestir e em costumes que às vezes nem nos damos conta. Lavar o corpo do morto, envolvê-lo em uma mortalha e não enterrá-lo em caixão é um exemplo de costume judaico que acontecia, e ainda acontece, na região nordeste.

Fomos Colônia, Império e República, vivemos ciclos econômicos de extrativismos, monoculturas, do açúcar ao café; mineração; revolução industrial tardia; revolução midiática no Século XX, e não teve um período histórico sequer que não houvesse a presença massiva dos judeus. Por exemplo, o pau-brasil era chamado de “madeira judaica”, pois um dos maiores exploradores dessa planta era um judeu, o Fernão de Noronha que dá hoje o nome a uma das ilhas mais belas do país. Já o surgimento da imprensa e da TV aberta é marcado por judeus como Samuel Weiner, Adolpho Bloch, Sílvio Santos, entre outros. Isso mostra que a cultura brasileira é costurada desde o início até hoje pela influência da cultura judaica. Se quisermos entender a nossa mentalidade, nossas inclinações religiosas, ideológicas e morais, precisamos refletir sobre os judeus. Eles estão em nosso sangue, mais do que imaginamos.

Quando tratamos de sua cultura, por exemplo, percebemos que os costumes judaicos estão fortemente presentes em nosso cotidiano. O modo que varremos a casa, por exemplo, retrata bem isso: costuma-se varrer a moradia começando pela porta da frente e finalizando na porta de trás, esse é um costume judaico que foi difundido por todo o Brasil. Dizem que se passarmos a varrer do modo contrário, ou seja, da porta de trás para a da frente, significa que estamos expulsando as pessoas do nosso lar. Do mesmo modo, o hábito de contar as estrelas à noite veio da cultura judaica, uma vez que a primeira estrela a aparecer no céu marca o início de um novo dia para os judeus.

Os judeus também têm festividades próprias como o Bar Mitzvah, por exemplo, que celebra a chegada do jovem como membro da comunidade judaica. É um dia marcante para os judeus, pois celebram as boas-vindas de mais um integrante no grupo. Para além disso, outras festividades marcam e celebram momentos da vida cotidiana: desde a Chumash, que é a comemoração devido a aquisição de sua primeira Torá (livro sagrado dos Judeus), até a dança de casamento, chamada de mitzvah tantz, em que o avô e o pai da noiva dançam com a mesma segurando uma corda.

Essas festividades demonstram uma vida cerimonial em que os momentos que, num primeiro olhar parecem “comuns”, tornam-se únicos. Uma vida feita de celebrações e conquistas, talvez seja algo que nos falte enquanto Indivíduos: comemorar as pequenas vitórias do mesmo modo que costumamos comemorar os grandes feitos. Uma vida com marcos nos impulsiona adiante, nos ajuda a criar identidade e reconhecer que cada momento tem sua validade e importância. Celebrar, acima de tudo, a vida mostra-se um traço da cultura judaica que deveríamos nos inspirar e carregar conosco.

Falando ainda da cultura judaica, um outro traço marcante está na sua capacidade de gerar recursos, seja através de negócios ou de uma boa educação financeira. É comum falarmos que os judeus são, de modo geral, um povo rico por saberem administrar seus bens. Aliado a isso, podemos perceber uma fé e uma resiliência distintas desse povo que em vários momentos de sua história foram perseguidos e massacrados. Essas características são, sem dúvida, fontes de inspiração que podemos levar para nossa vida, uma vez que ajudaria a nos fortalecer, seja a nível psicológico ou mesmo em nossa capacidade de gerir melhor nossos recursos.

Ao longo desses cinco séculos, as imigrações judaicas no Brasil sempre decorreram de dois movimentos: perseguição na Europa e acolhida no Brasil. Eles foram expulsos de lá, e aqui era um refúgio secreto. Sempre foi assim ao longo de quinhentos anos. Mas os dois períodos migratórios mais significativos foram os primeiros duzentos anos do Brasil (1500 – 1700), que trouxeram os judeus sefarditas, ou ibéricos, e depois o final do Século XIX e começo do século XX, que trouxeram os judeus asquenazes, provenientes do leste europeu e da Europa oriental. O que ocorreu nesses dois períodos? Em 1492, os reis católicos da Espanha promulgaram o que ficou conhecido como o Decreto de Alhambra, que obrigava os judeus a se converterem ao catolicismo sob pena de expulsão. Esse decreto foi a consolidação oficial de um processo histórico que já se arrastava a séculos na Espanha, marcado pelos “pogroms” que era uma espécie de linchamento público de judeus levado a cabo pela população sob a aprovação cúmplice do próprio Estado, em que judeus eram torturados por multidões nas ruas. Em 1496, o novo Rei de Portugal, Dom Manuel I, forçado pela Espanha, também edita um decreto de expulsão dos judeus não convertidos ao catolicismo. É nesse contexto que a esquadra de Cabral chega ao Brasil e não para menos já trazia imigrantes judeus, a exemplo do médico Mestre João e do intérprete Gaspar da Gama que conduzia a nau que traziam os mantimentos, ambos eram judeus e talvez os primeiros a pisarem em solo brasileiro. Com a formação da colônia, milhares de judeus sefarditas vieram para o Brasil fugindo desse contexto tão adverso.

O segundo período marcante de imigrações judaicas no Brasil ocorreu no final do Século XIX e começo do Século XX, pois na Europa, apesar dos ideais de liberdade da Revolução Francesa, havia uma mentalidade de muito repúdio aos judeus pelo fato deles não terem um Estado e serem vistos como invasores e exploradores econômicos. É essa mesma mentalidade que serviu de terreno para o ódio nazista aos judeus no contexto da II Guerra Mundial. Esse período foi muito adverso para os judeus na Europa, não só na Alemanha, mas na Rússia, na Polônia e em todo o leste Europeu. Para se ter uma ideia, no período nazista foram mortos cerca de seis milhões de judeus. Consequentemente recebemos muitos do povo judáico nessa época no Brasil. Esses judeus eram chamados de asquenazes. Algumas figuras ilustres provenientes dessa migração se destacam até hoje, como a escritora Clarice Lispector, cuja família morou em Recife no começo do Século XX, em uma casa situada em frente à Praça Maciel Pinheiro no centro da cidade.

Hoje, o Brasil, com a segunda maior comunidade judaica na América Latina e com um histórico de tanta acolhida a esse povo tão repudiado ao longo da história, com tantas expulsões, torturas e mortes, demonstra historicamente que é um país acolhedor. É da nossa cultura receber povos estrangeiros com um ânimo de acolhida e não de repúdio. Não tivemos os problemas humanitários da Europa como nazismos, fascismos, etc. O que acontece hoje em nosso país é uma crise de Identidade Nacional. Não sabemos quem somos, em geral não refletimos sobre nossa gênese cultural, não percebemos o quanto fomos ao longo de nossa história um refúgio para povos forasteiros, e por não termos essa consciência coletiva, por vezes, somos influenciados por ideologias importadas de outros países como “neo-nazismos”, extremismos raciais, etc. Mas no fundo não somos isso, não é da nossa cultura. A imigração judaica no Brasil ao longo de todos esses séculos é uma prova irrefutável da Cultura de paz, de hospitalidade e de amizade entre os povos, inerente ao nosso país.

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