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A história humana está repleta de capítulos. Se hoje caminhamos no século XXI em uma sociedade científica, cada vez mais focada em valores materiais, é importante entendermos que não chegamos a esse ponto “por acaso” e que, entre as experiências humanas, ao longo do tempo existiram milhares de formas e sociedades com valores e princípios distintos da atual. Assim, a história humana não é uma linha progressiva projetada ao futuro, da qual as sociedades antigas são um tenebroso e falho momento de nossa existência, mas sim podemos pensar em uma história cíclica, a qual acompanha diversos auges e declínios e que, à sua maneira, nos impulsionou – e ainda impulsiona – a olharmos o futuro com mais consciência de quem somos e para onde devemos ir.

Dito isso, estudar as diferentes civilizações que já passaram pelo mundo não é apenas um exercício de curiosidade intelectual, mas principalmente um resgate da história humana e de seus aprendizados para que, mais uma vez, possamos vislumbrar ideias e ideais vividos há tanto tempo. Assim, hoje mergulharemos em uma civilização que há 1.000 anos, na região onde hoje é a Colômbia, o Chile e a Argentina, desenvolvia-se de modo completamente diferente do que hoje entendemos como tal. Com cerca de dez milhões de habitantes, falando cerca de trinta línguas diferentes, e mais de quarenta mil quilômetros de estradas, a misteriosa civilização inca é um enigma a ser decifrado pelos arqueólogos, mitólogos e historiadores contemporâneos. Um mundo de mitos, símbolos, formas religiosas e sistemas de governo que nasceu, se desenvolveu e atingiu o seu apogeu em uma região tão próxima de todos nós, e em um tempo não tão distante assim, mas que conhecemos tão pouco. 

Quando os espanhóis chegaram naquela região no Século XVI, com o objetivo de colonizar e explorar o território, depararam-se com essa civilização, que já se encontrava em decadência, mas o modo como se organizava politicamente demonstrava uma sofisticada forma de governo, desconhecida para a cultura europeia. A nível de comparação, a civilização inca, mesmo em sua decadência, demonstrava conhecimentos que ainda não haviam sido desenvolvidos na Europa, como um calendário mais preciso, técnicas de construção e uma agricultura capaz de alimentar milhões de pessoas sem destruir o solo. Assim, por mais que pensemos nesses povos como “primitivos” e que o contato com os europeus marca a “chegada da civilização” no continente americano, devemos reconhecer que, na verdade, já existiam civilizações avançadas no Novo Mundo ao ponto de ensinarem aos navegantes europeus, e não o contrário. 

O que permitiu o surgimento de um Império dessa magnitude foi a reunião desses povos em torno de um centro. Mas como conseguiram fazer isso? Como povos tão diversos, habitando uma região de climas e relevos tão disformes, falando tantas línguas diferentes conseguem se reunir em torno de um centro e desencadear um processo civilizatório? A resposta para essas perguntas pode estar na mitologia. Os mitos, muito longe de serem mentiras, são alegorias que trazem em si ideias, intuições e descobertas muito profundas sobre o Universo e a Natureza Humana. O mito é o recurso do qual os humanos se valem quando precisam ter contato com ideias tão sublimes e tão sutis, que a linguagem concreta, imediata e informativa não tem capacidade de expressar.

Um desses mitos conta que o Sol gerou um filho e o colocou entre os homens para governá-los. Assim, o governante, a quem chamavam de Sapa Inca, era o filho direto da estrela solar. Se olharmos para isso com as lentes da nossa contemporaneidade, de imediato é possível que achemos uma ideia absurda, mas é preciso permitir se deslocar um pouco para entender o mito dentro do contexto dos Incas e perceber a riqueza simbólica dessa linguagem. Vale lembrar que no Egito Antigo essa ideia também era válida, visto que o faraó não era apenas um representante da divindade, mas considerado um deus encarnado, um pontífice entre os homens e os deuses. Frente a isso, é preciso refletir sobre o que de fato significam esses mitos e ideias por trás dos governantes.

Como sabemos, o papel de um governante é reger a sociedade, como um maestro rege uma orquestra. Na antiguidade, muitas civilizações, e dentre elas os Incas, consideravam que o papel do ser humano era religar-se com os seres divinos, representados pela natureza e suas forças. Assim, toda a civilização deveria caminhar rumo aos deuses, mas como fazer isso? O governante era o responsável por pavimentar esse caminho rumo ao transcendente. Assim, a finalidade desses povos não era o acúmulo de riquezas,  nem guerras desnecessárias ou nem mesmo a autoafirmação de seus ideais, mas o refinamento de uma vida moral e a aplicação de práticas que, dentro daquela perspectiva, lhe fariam se aproximar desse aspecto divino. Não por acaso, a religião estava diretamente ligada à política, pois aquela apontava o caminho metafísico, enquanto a política transformava essas ideias em ações práticas.

Visto isso, devemos entender que “o Filho do Sol” era, na verdade, um símbolo de poder, aquele que tem ligação com o divino e que pode guiar outras pessoas para esse caminho. Infelizmente, a interpretação literal desse símbolo fez com que o senso comum acreditasse que os Incas, assim como os demais povos pré-colombianos, fossem “atrasados” por achar que alguém poderia, de fato, ser filho do Astro-rei. 

Hoje temos recursos tecnológicos para observar como funciona o sistema solar: por exemplo, o nosso planeta gira em torno do seu próprio eixo, gerando os dias e as noites, e ao mesmo tempo percorre uma trajetória elíptica em torno do Sol. Todos esses movimentos acontecendo simultaneamente geram as nossas condições de Vida. Graças a essa ordem cósmica, temos os dias, as noites, as estações do ano, as condições de temperatura e de pressão atmosférica. Tais fatores permitem a nossa existência, tudo isso porque no centro desse sistema se encontra o Sol, esse astro poderoso, que gera diuturnamente a Vida, a iluminação, que nos aquece e que o faz com uma precisão matemática impressionante.

Os Incas, de algum modo, conheciam essa ordem inteligente do sistema solar. E não apenas a conheciam, mas queriam trazê-la para si, traduzindo-a em seu sistema político. Eles queriam, assim, um governo que conseguisse ordenar os povos de maneira tão inteligente, tão harmônica e tão eficiente como o Sol conseguia ordenar os planetas em torno de si. Para isso, era preciso encontrar uma narrativa na linguagem humana que permitisse essa conexão entre o seu sistema político e o sistema astrológico. É daí que nasce a narrativa mítica do Sapa Inca, um ser gerado pelo próprio Sol, que encarnou no mundo dos homens para ordená-los de forma tão inteligente e eficaz quanto o seu pai fazia com os planetas em seu entorno. Os Incas acreditavam nesta narrativa, a viviam em seu modo societário e, por isso, conseguiram ordenar povos tão diversos, com línguas tão diferentes, em regiões geográficas tão adversas, construindo assim uma civilização inteligente e poderosa. 

É claro que esta narrativa mítica não tem o mesmo efeito para a nossa civilização, pois o contexto é outro, mas a verdade que podemos extrair dela é a ideia de que as grandes civilizações somente se tornam possíveis quando encontram o caminho que permite a reunião dos povos em torno de um centro, que irradia Ordem e Harmonia. Dentro dessa mesma lógica, um sistema morre à medida que essas relações com o centro são esfaceladas, seja porque os astros se afastam do “Sol”, ou porque este elemento central perde a sua Luz. 

Esse mito também acontece dentro de nós, basta nos observarmos. Nossa individualidade é uma espécie de civilização, as nossas inúmeras facetas e necessidades (físicas, psicológicas, intelectuais etc) representam os numerosos povos nesta civilização interna. Nosso autodomínio representa uma forma de governo, um Sol interior que deve unir, equilibrar e iluminar todas as nossas experiências. Assim, seguindo o exemplo dos Incas, podemos entender que a Harmonia e a Ordem em nossa existência estão diretamente relacionadas ao quanto estamos alinhados com o nosso centro, com o nosso Ideal, com o nosso sentido de Vida. Desta forma, compreendendo um pouco mais essa chave mitológica, que possamos vivê-la e torná-la real e visível para todos, pois só assim, através da mudança interna e gradual de cada ser teremos a chance de um dia construirmos uma civilização baseada nesses Valores e Princípios.

Por fim, deixamos como indicação o vídeo abaixo, no qual aborda-se algumas reflexões feitas no nosso texto, ampliando ainda mais nosso conhecimento acerca dessa tão importante civilização que nos legou tantos aprendizados. Espero que todos assistam a ele e continuem a conhecer ainda mais a história dos povos que marcaram a humanidade.

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