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Rir é um ótimo remédio para a Alma. O que hoje vemos como algo banal, na antiguidade foi visto como uma verdadeira fórmula para melhorar o ânimo e poder expressar a vida. A Alegria, não por acaso, é vista como uma virtude na cultura greco-romana, e isso envolve, naturalmente, o riso. Não precisamos ir longe para entender essa ideia, afinal, quando pensamos em alguém feliz, o imaginamos alegre ou triste? Com um sorriso no rosto ou de cara “fechada”? Todas essas ideias convergem para uma só: a de que a Alegria participa da vida da Alma.

O próprio significado da palavra “alma” remete-se à ideia da alegria, afinal, a sua origem vem do grego anima, que significa “aquilo que está vivo, que se movimenta”. Uma pessoa animada é caracterizada como uma pessoa alegre ou não? Assim, Alegria e Alma estão diretamente associadas, e o riso também faz parte dessa fórmula. 

Para além das virtudes que envolvem a alegria e o riso, os gregos também dedicaram uma de suas musas para a arte de fazer rir, a qual também conhecemos como comédia. Essa é Tália, a musa da qual falaremos no texto de hoje.

Talvez pareça estranho para um leitor pouco familiarizado com a cultura grega, mas desde a antiguidade a comédia é uma das formas mais praticadas de arte. Se hoje temos humoristas, comediantes e outros shows que envolvem esse tipo de arte, no mundo clássico as comédias eram, em sua grande maioria, uma peça de teatro que não tinha um desfecho trágico. Assim, se distinguia dois tipos de dramaturgias: as comédias (com finais felizes) e as tragédias (com finais trágicos). Essas duas formas de arte inspiraram os gregos ao ponto de dedicarem duas musas para diferenciar essas formas: Tália, a musa da comédia e Melpômene, a musa da tragédia. 

Melpomene and Thalia – Giuseppe Mazzei (Italian, 1867-1944)

Mas, antes de tudo, precisamos saber quem eram as musas e quais papéis elas desempenham na cultura grega para assim compreendermos a importância dessas divindades e as ideias que representam. As musas eram filhas de Zeus, o Deus dos Deuses, como Mnemosine, a Titânide da Memória, e elas expressavam as múltiplas manifestações da arte e do conhecimento. Eram nove no total e viviam no Monte Parnasso junto a Apolo, o seu patrono. Dentre as diversas artes expressas pelas musas, Tália representava a comédia e era a responsável pelos risos e alegrias, uma faceta do teatro grego – que, além da comédia, também tinha a tragédia, como já explicamos.

Aprofundando um pouco mais essa temática, é interessante perceber que a dualidade se faz presente nos menores detalhes, o que prova o refinamento e sensibilidade do mundo grego. Falamos isso porque, até mesmo na arte, encontramos essa dualidade; afinal, como tudo na vida, se há a Alegria, também existe a tristeza. Assim, não se pode conceber essas duas expressões separadamente, pois há risos que escondem a tristeza e algumas tristezas que, no fundo, sabemos que valem a pena ser vividas em prol de algo maior. Mas hoje, como é a proposta do texto, devemos nos debruçar sobre a Alegria.

Nos debruçando um pouco mais sobre a musa da comédia, Tália é representada, geralmente, como uma jovem com uma máscara cômica na mão. Ela também possui uma coroa consagrada por Hera e usa um clarim ou uma lira em suas mãos. Os instrumentos representam não apenas a arte, mas também remetem à ideia de leveza e à vida, tais como o som que produzem. O clarim é um instrumento de sopro, geralmente usado para convocar exércitos e colocá-los em marcha. A lira, por sua vez, emite um som suave e calmo. Apesar de parecerem contrários, ambos evocam a vida, a expressão de movimento e energia, e por isso estão associados a Tália. Outro ponto interessante sobre sua representação é o fato de ela usar uma coroa de Hera, a principal deusa da cultura grega. A esposa de Zeus é quem geralmente prova os heróis, assim, as musas também possuíam essa característica de poder provar os artistas, ajudando-os em suas obras ou colocando empecilhos para que eles pudessem se superar. Assim, se apresenta um aspecto distinto das musas, que não apenas inspiram, mas que também forjam os amantes da arte.

Tália era a responsável por inspirar os comediantes, saltimbancos, bufões e demais atores que praticavam a arte de fazer rir. Apesar das comédias serem, em sua maioria, sátiras acerca da cultura e da vida política grega – temas que, por vezes, podem até soar ofensivos em determinados casos –, no mundo grego, quando se tratava do riso, era aceitável brincar com esses temas que são, em geral, delicados. É interessante perceber que o riso, essa expressão autêntica da Alegria, era visto na Grécia com um caráter divino e, por isso, praticado nos teatros, garantindo assim não apenas a diversão e entretenimento, mas também uma maneira de se aproximar da religião. Esse sentimento de verdadeira Alegria, talvez, seja um breve instante em que estamos com Deus, em contato com o Sagrado. Assim, por meio do riso se expressam nossas melhores Virtudes. 

Se você alguma vez já gargalhou até faltar ar em seus pulmões ou chorou de tanta risada, sabe que esse é um momento especial.  Dizemos isso porque, quando nos sentimos leves, parece que todas as tensões se esvaem. Mesmo que a vida não esteja assim tão boa, como diz a canção, “um sorriso ajuda a melhorar”. O fato é que rir não é apenas um sinal de alegria, mas também uma maneira de aliviar as tensões do nosso dia a dia, que, muitas vezes, nos causam estresse e diminuem nosso ímpeto perante os problemas. Do ponto de vista social, é fundamental ter esses momentos, pois assim podemos construir um contrarritmo frente aos momentos de seriedade do cotidiano. Não por acaso, uma das políticas romanas mais famosas foi o “Pão e Circo”; afinal, uma população precisa não apenas do alimento físico, mas também desse alimento psicológico, que é a diversão e momentos de entretenimento. Assim, podemos observar que as musas cumprem uma função religiosa, representam uma ideia, mas também cumprem uma necessidade social perante a arte e a comédia, pois a vida se torna mais leve quando colocamos um sorriso no rosto. 

Nesse sentido, ter senso de humor e um bom ânimo é, antes de tudo, uma maneira de se colocar diante da vida. Ela não será mais fácil, certamente, mas se a encararmos com mais leveza e uma atitude positiva frente às dificuldades, essa experiência será muito mais rica. Por vezes, pode parecer bobo aquele que rir de tudo, que não está com as sobrancelhas franzidas de preocupação, porém, talvez o bobo que encontra a Alegria na vida consiga responder melhor às adversidades. Ser Alegre, desse modo, não significa ser irresponsável, mas sim viver de maneira a compreender o doce sabor da vida, tanto nos momentos de alta quanto nos de baixa. Se compreendemos essa lição, perceberemos que a felicidade independe dos nossos estados de ânimo e que nossa Alma, mesmo nos momentos de maior tensão, pode continuar a se alegrar com as experiências. Rir, portanto, passa a ser um sinal de sabedoria perante a vida, mas vale lembrar que nem todo riso – ou uma pessoa que “ri de tudo” – é sinal de sabedoria, pois até um ignorante sabe mostrar seus dentes. Um sábio, porém, compreende profundamente a necessidade de sorrir frente a vida.

Tália, desse modo, nos ensina que a ira e a cólera podem ser usadas pelos viris e fortes, mas o Sábio sempre terá como arma o Bom Humor! Saber rir é, enfim, não somente o melhor remédio, mas o caminho que nos ajuda a entender melhor a vida. Quando se entende as “regras” do jogo da vida, divertir-se na jornada é quase obrigatório! Por isso, que possamos ser inspirados por essa grande  musa para aprender a extrair a Alegria de todas as situações da Vida.

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