Sabia que São Paulo, com mais de 12 milhões de habitantes, é a cidade do mundo com a maior concentração de pessoas falando língua portuguesa por metro quadrado? Por isso mesmo, em 2006, foi inaugurado lá, em um edifício histórico chamado Estação da Luz, o Museu da Língua Portuguesa. Uma obra super moderna, com o acervo todo virtual, representava bem o início de um novo milênio. Entretanto, em 2015 aconteceu uma tragédia durante uma exposição chamada “O Tempo e Eu”, quando um curto-circuito lançou uma faísca de fogo no ambiente e, gradativamente, as chamas começaram a avançar, até se tornar um enorme incêndio que destruiu dois andares. O acervo virtual foi recuperado através dos sistemas de backups. Durante o combate às chamas, um dos bombeiros não resistiu e morreu com uma parada cardiorrespiratória.

Percebe que esse acontecimento é carregado de símbolos? A língua portuguesa, a quinta mais falada de todo o Planeta, hoje sofre uma perda de sentido em suas palavras. É como se estivesse, gradativamente, sendo incendiada. Ela, que nasceu do latim há 2,3 mil anos, e foi sendo construída tal como um edifício histórico, viveu o seu apogeu de sentido durante o Renascimento e o Iluminismo portugueses, período em que a poesia, a literatura e os sermões eram como fontes, onde jorravam palavras que enchiam a Vida de sentido, de tal modo que, até hoje, quando precisamos recorrer a ideias profundas, temos que lançar nossa caneca lá no fundo do poço da história para alcançar alguma coisa de Pe Antônio Vieira, Luiz Vaz de Camões, João de Barros, Fernando Pessoa ou Gregório de Matos Guerra.

O “Amor é fogo que arde sem se ver…”, de Camões, em comparação com as letras esvaziadas de sentido que predominam em nossas composições atuais, dá sinais de que estamos em meio a um incêndio linguístico. É como se estivéssemos apagando as luzes da estação e retornando a uma nova Idade Média. O livro vem se tornando cada vez mais uma mercadoria de prateleira de supermercado. As mesmas regras de marketing aplicadas para vender uma margarina são utilizadas para promover as publicações em formato de livros, com capas chamativas, títulos apelativos, alguns até transformam pornografias em verbos para nomearem seus livros, apelando para a atratividade do público. 

Mas, assim como no incêndio da Estação da Luz, a nossa língua portuguesa será preservada, se tivermos combatentes que possam se sacrificar por ela, como o fez o bombeiro civil Ronaldo Pereira da Cruz, que morreu combatendo aquelas chamas. Precisamos lutar pela riqueza de sentido de nossa língua, resgatando o “backup” de ideias profundas, hoje cada vez mais esquecidas. Como, por exemplo, as profundas mensagens entranhadas nas entrelinhas dos 700 sermões e 200 cartas de Pe Antônio Vieira, que ainda existem, embora estejam esquecidas.

Esse jesuíta do século XVII, que encontrou na língua portuguesa a via de acesso ao humanismo profundo, sem fazer distinção de etnia, sexo, nem classe social, usava a língua como arma para proteger ora os indígenas, ora os judeus, ora os europeus, ora os brasileiros. Seu compromisso era com a Humanidade. Pe Antônio Vieira, em seus sermões, aplicava passagens da Bíblia ao contexto presente. Assim, conseguia transferir, para o momento em que vivia, uma carga de sentido tão profunda que só os textos sagrados possuem. Esse movimento somente é possível graças à linguagem, e é assim que conferimos carga de sentido à interpretação da história. É assim que a Alma Humana se constrói. Sem linguagem não há cultura Humana possível. 

Dia 5 de novembro é o Dia Nacional da Língua Portuguesa, mas, infelizmente, no momento atual estamos presenciando um incêndio na nossa linguagem, que destrói o sentido das palavras e reduz a cultura a cinzas. Hoje vemos isso nas obras chulas, nas oratórias políticas demagógicas e nos livros-mercadorias, que são feitos apenas para vender e não dizem nada para a Alma. Lutar contra este incêndio é o mesmo que lutar pela Humanidade. Os limites da nossa linguagem são os limites da nossa Humanidade. Quanto mais estreitos na língua, mais minguados e raquíticos nos tornamos enquanto Seres Humanos. 

Se quisermos expandir, evoluir, crescer e alcançar os cumes mais altos do conhecimento, teremos que lutar pela nossa língua, resgatar obras profundas, torná-las acessíveis aos mais jovens e carregar a Vida de cultura e sentido. Ouça boas músicas, leia bons livros, escreva bons textos e propague isso enquanto viver, pois com isso você estará contribuindo, de alguma forma, para a evolução de toda a Humanidade. 

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