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A mitologia grega carrega em si muitos simbolismos e mistérios. Talvez grande parte de nós conheça suas histórias apenas pelo seu valor lúdico, afinal, quem nunca se entreteu assistindo as aventuras de Hércules? Ou mesmo desejou se aventurar pelo mar com os desafios de Odisseu? Talvez até mesmo perseguir a glória eterna se tornando o maior guerreiro do mundo como Aquiles? Essas grandes narrativas, repleta de histórias, de batalhas, mortes e renascimentos nos atraem não apenas pelo seu valor externo, ou seja, pela história em si, mas também pelos símbolos e ideias que estão encerradas nelas. Os mitos gregos, assim como toda mitologia, podem nos parecer confusos no início; entretanto, por trás da aparente irracionalidade atribuída a essas histórias “fantasiosas”, há um mundo simbólico e profundo nos esperando.

O mito de Dioniso é, certamente, um exemplo claro disso. Talvez não estejamos acostumados a ouvir falar desse deus, afinal, apesar de popular entre os antigos gregos e romanos, em nosso tempo atual, ele está diretamente associado a aspectos negativos como a embriaguez, o vinho e as festas de modo geral. Esse descontrole causado pelo excesso não é positivo, e todos que já passaram do limite tomando algum tipo de bebida alcoólica sabem bem disso. Então, como podemos enxergar uma divindade até mesmo nesses aspectos tão baixos de nossa vida? Será que não há algum símbolo ou mistério por detrás desse deus que os antigos gregos tanto cultuavam? 

Começando por suas características, Dioniso é geralmente representado como um jovem de extrema beleza, carregando uvas e uma taça em suas mãos. Ele está associado ao vinho, à alegria e, eventualmente, aos excessos. Geralmente, quando lembramos desse deus, o associamos a festas e à bebedeira. Na Roma Antiga, seu nome foi relacionado ao deus Baco, e as mulheres (o culto era reservado apenas a elas) que praticavam seu culto eram chamadas de bacantes. É daí também que deriva a palavra “bacanal”, porém, nas suas origens, nada tinha a ver com orgias, como se entende hoje em dia. Visto tais questões, geralmente associamos Dioniso e Baco a relações sexuais e à promiscuidade. Como podemos perceber, a falta de entendimento acerca dos símbolos e dos mitos causa, ao longo do tempo, uma distorção do seu significado, o que nos leva a erros de interpretação e de conduta para com o que está sendo representado. Assim, uma divindade como Dioniso acabou sendo deturpada ao ponto do seu culto ser reduzido a uma série de práticas que pouco se aproxima da divindade.

Mas o que existe por trás desse aspecto mais superficial? 

Vamos conhecer, primeiramente, o mito: Tudo começa com Perséfone e Zeus. O deus dos deuses (Zeus), sob a aparência de uma serpente, teria engravidado Perséfone, antes que ela fosse raptada por Hades. Dessa relação nasceria Zagreu, um ser completamente divino (uma vez que foi concebido por duas divindades). Entretanto, Hera, esposa de Zeus, não aceitou o nascimento da criança e ordenou aos titãs que ela fosse morta. Os titãs despedaçaram, então, o pequeno Zagreu e comeram todas as suas partes, exceto o coração.

Atena, a deusa da sabedoria, levou o coração de Zagreu até seu pai. Zeus, apiedado da situação do filho, pegou o coração do infante e dele fez uma poção. Em seguida foi até o mundo dos homens e pediu a Sêmele, uma mortal, que a tomasse. Desse modo, ela engravidou de Zeus e o resultado dessa união foi Dioniso. 

Mas nem tudo são flores. Durante a gestação, Sêmele pediu a Zeus que se apresentasse na sua verdadeira forma para ela, sem véus. Zeus, coagido através de um juramento, atendeu o pedido da mortal. A imagem verdadeira dele acabou por transformar Sêmele em cinzas, matando-a. O pequeno Dioniso, ainda na gestação, iria morrer. Zeus, entretanto, não admitiria perder outro filho e, assim, implantou Dioniso em sua coxa, carregando-o por mais alguns meses até sua gestação. Dioniso, portanto, nasce da coxa de Zeus.

Antes de continuarmos o mito, já temos elementos suficientes para compreender um pouco do simbolismo de Dioniso. O primeiro deles é compreender sua natureza: Dioniso nasce de Sêmele, uma humana. Deveria, portanto, ser considerado um semideus. Mas sua essência advém de Zagreu, o que lhe concerne uma parte divina. Dioniso se mostra, então, com um aspecto mortal, terrestre, temporal; e, em contrapartida, com um aspecto profundo, divino, atemporal. Ele precisa passar por provas para se tornar um ser completamente divino, mas já carrega em si a semente da divindade. Não por acaso, ele será associado, na Grécia e na Roma Antiga, a cerimônias espirituais iniciáticas, por esse caráter de transcendência. 

Outro símbolo importante é o de Atena, que representa a sabedoria: ela que vai até Zeus com o coração do infante Zagreu. Nesse caso, o coração representa o que há de divino dentro do ser humano. Os gregos acreditavam que a sabedoria era a maneira de se ligar ao que é mais elevado em nós. Ser sábio era reconhecer Deus dentro de si, no outro e na Natureza. Aprender a ver o sagrado na vida. Nada mais simbólico do que ser Atena que conduza essa essência até Zeus. O deus dos deuses, então, transmite esse elemento divino para dentro de Sêmele como uma semente.

Quando Sêmele pede a Zeus para se mostrar por inteiro, ela se transforma em pó ao ficar diante da verdadeira forma do deus. Simbolicamente, podemos compreender que nosso corpo é, antes de tudo, mortal. Não temos capacidade de reconhecer o divino em sua mais profunda essência, pois não estamos preparados para isso. Tal passagem se assemelha ao mito hindu do Bhagavad Gita, em que o herói Arjuna pede a Krishna para se revelar por completo. Arjuna, tal qual Sêmele, não resiste e recua de seu desejo. O que isso pode nos ensinar? Existem coisas que não compreenderemos, pois nossa condição humana não permite. Em última instância, a Vida e a Divindade continuarão sempre sendo um Mistério. Desejamos fortemente conhecer tudo, entender como todos os processos da Natureza acontecem, mas não temos a força suficiente para entendê-los. Talvez a resposta para esse problema esteja no próprio mito de Dioniso: só poderemos nos elevar a uma condição divina se trilharmos um caminho em direção aos Mistérios.

Em seu mito, Dioniso também é conhecido como um viajante que passou em diversas colônias gregas ensinando aos seres humanos o cultivo do vinho. Assim como em outros mitos em que uma divindade ensina os humanos um tipo de habilidade, Dioniso também o faz e, por isso, é visto em alguns cultos como um mestre. No Egito, por exemplo, Osíris ensina os seres humanos a plantarem trigo; já Toth, o deus da escrita, ensina o mistério dos hieróglifos aos escribas. Nas culturas pré-colombianas, a serpente emplumada Quetzalcoatl ensina aos primeiros homens a cultivar o milho. Todas essas divindades estão diretamente ligadas à evolução da civilização em que são cultuadas, sendo símbolos do divino em sua piedade ao ajudar os seres menos evoluídos, que nesse caso somos nós. Desse modo, Dioniso cumpre o papel de educador e, assim como Prometeu, de ser um verdadeiro aliado da humanidade em sua evolução.

Outro ponto importante é que Dioniso é um deus sempre associado à felicidade, mas em um sentido de “entusiasmo”. Quando entendemos a origem dessa palavra (in + theos = “dentro” + “Deus”), podemos entender que isso se refere à luz, ao amor e à beleza que todo ser humano possui dentro de si; ou seja, é Deus dentro de nós, por isso é entusiasmo. A sua relação com o vinho também vem daí, pois nas cerimônias dessas antigas tradições, ao beber o vinho, o calor que se sentia dentro do corpo deveria lembrar a pessoa da Divindade que habita dentro dela. Quando analisamos o mito, Dioniso sempre é a parte interna: o coração, a poção que foi bebida, o feto na barriga da mãe e, por fim, a criança dentro da coxa de Zeus, e então percebemos que a ideia de “In Theos” faz todo sentido.

Tanto Dioniso quanto Atena são deuses que nascem diretamente de Zeus. Dioniso, da coxa; e Atena, da cabeça. Ela já nasce adulta e armada, pronta para o combate, pois a sabedoria é uma virtude prática. Talvez esse mito esteja nos dizendo que Dioniso representa uma etapa inferior a Atena, ele representa um estado de consciência que ainda precisa trilhar um caminho, até se elevar ao topo, à cabeça de Zeus, à sabedoria. É também graças a essa parte do mito que Dioniso é associado, muitas vezes, aos instintos, uma vez que nasce da parte inferior de Zeus, e não de sua parte superior. Para os gregos, os instintos estavam diretamente ligados à parte inferior do corpo, enquanto nossa melhor parte, Nous, estava associada anatomicamente à cabeça. Assim, com o passar do tempo foi comum relacionar os cultos a Dioniso com uma série de excessos levados pelos instintos. 

Visto isso, podemos entender como o símbolo de Dioniso foi sendo modificado à medida que a humanidade se afastava do pensamento simbólico que permeia o seu mito. Porém, se nos esforçarmos, poderemos resgatar as ideias principais que estão ligadas a essa divindade, que está muito além da satisfação dos instintos. Torna-se, assim, evidente que Dioniso não é apenas um deus fanfarrão, que embriaga os homens e se diverte com a bebedeira de seus seguidores.

Infelizmente, os estereótipos que o circundam não fazem jus aos seus símbolos. Tal qual acontece conosco, quando nos recusamos a compreender mais profundamente a nós mesmos, tendemos a ficar na superficialidade objetiva do mundo. Mais uma vez,  Dioniso e seu duplo aspecto nos revelam uma faceta simbólica do ser humano. Que possamos viver esse mito e buscar ascender ao Olimpo, encontrando dentro de nós o Coração Divino que nos liga aos Céus.

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