Esse conjunto de lendas, superstições, danças e brincadeiras tipicamente brasileiras reúne construções imaginárias muito antigas, que se originam a partir do encontro de diversas culturas que coexistem dentro do extenso território brasileiro. Quando os portugueses chegaram aqui, se depararam com a cultura dos indígenas. Erroneamente, muitos pensam que existe UM povo indígena, mas é um engano. Os portugueses encontraram aqui várias nações e culturas indígenas diferentes, com sistemas religiosos, línguas, hábitos, crenças e rituais bem diferentes uns dos outros. 

Todos sabemos que esse encontro não foi muito pacífico, já que se tratava de uma colonização de exploração, inicialmente pelo extrativismo e depois pela monocultura. No período da cana-de-açúcar, os portugueses trouxeram mão de obra escrava da África. Da mesma forma, também imaginamos os escravizados africanos como uma cultura única, mas também estamos  enganados quando pensamos assim. Na verdade, diversas nações, culturas e sistemas míticos diferentes foram trazidos através dos escravizados africanos. Assim, quando falamos que a cultura brasileira é rica por ter elementos nativos, africanos e europeus, não estamos pensando apenas em três elementos culturais, mas sim em centenas de povos que, ao se misturarem dentro de um sistema social colonial, produziu, ao longo de séculos, uma cultura que até hoje é difícil definir.

Basta pensarmos na própria complexidade geográfica do Brasil. Uma pessoa que mora no Rio Grande do Norte, por exemplo, está cercada por uma cultura indígena, desde o nome que se dá aos habitantes dessa região – os potiguares (palavra tupi que significa “comedores de camarão”) até as práticas de dormir de rede e o próprio fenótipo de algumas pessoas. É evidente que esses traços também se misturam com elementos gerais, como a língua, os elementos cívicos e a dinâmica nos grandes centros urbanos. Porém, se pensarmos no outro lado do Brasil, no Rio Grande do Sul, e compararmos com a cultura potiguar, perceberemos que, de fato, parecem ser povos completamente diferentes. O Gaúcho tem outras referências e constrói sua identidade a partir de outros elementos que, em suma, nada tem a ver com a do potiguar.

Esse pequeno exemplo pode ser usado em diferentes partes do Brasil e demonstra a pluralidade cultural de sua origem até os tempos atuais. Não podemos afirmar, desse modo, que há uma identidade nacional bem definida, mas sim que elementos gerais compõem uma parte das diferentes culturas que coexistem em nosso país.

Essa equação se torna ainda mais complexa quando consideramos que ao longo do século XX o Brasil recebeu uma grande leva de imigrantes, advindos de outras regiões do mundo. Assim, hoje também há a influência de holandeses, japoneses, libaneses, espanhóis, italianos, alemães, entre outros. Para se ter uma ideia, no começo do século XX, estima-se que chegaram cerca de quatro milhões de imigrantes no Brasil. Essa quantidade de pessoas equivale a um país inteiro. A população do Panamá, por exemplo, e da Croácia também são de quatro milhões de pessoas cada. 

Considerando todos esses aspectos, é inegável que a cultura brasileira emerge de um intenso processo de miscigenação ao longo dos seus mais de quinhentos e vinte anos. Esse é um tempo curto para a construção de uma cultura, por isso é importante entender que a formação da miscigenação brasileira é recente, mas as culturas presentes nesse processo são milenares. 

Esses elementos culturais são carregados de símbolos, os quais retém sabedorias em relação à natureza, ao cosmos, às leis invisíveis que regem as relações dos homens entre si e dos homens com os outros seres da natureza. Por exemplo, alguns grupos indígenas tinham muito medo de um ser mítico que chamavam de Curupira. Descreviam-no como um anão com os pés invertidos, que protegia a floresta. Diziam que se derrubassem árvores ou matassem os animais, esse anão, que vivia dentro da mata densa, fazia as pessoas esquecerem do caminho de volta e se perderem. Observem que a narrativa é absurda para a nossa racionalidade, mas nas entrelinhas dessa história há uma verdade “inconveniente”: o desmatamento desenfreado e a matança desordenada de animais não levam a sociedade humana a se perder no seu caminho de desenvolvimento?

Outra lenda muito curiosa do folclore brasileiro é a lenda de Iara, um ser que é metade peixe, metade mulher, que vive nas águas amazônicas. Os índios daquela região diziam que, quando os homens ouviam o canto de Iara, perdiam a consciência, ficavam rendidos ou hipnotizados. A Iara então os seduzia para o fundo do rio, levando-os para a morte. Essa história se assemelha ao mito da sereia, presente na mitologia grega. Apesar de estarem em locais distintos do globo, o símbolo desse mito se perpetua de diferentes maneiras, e os nossos indígenas também captaram essa ideia, demonstrando que o folclore dos povos nativos do nosso país em nada deixa a desejar perante as grandes mitologias da antiguidade. É importante mencionar isso, pois é comum acharmos que os deuses e mitos indígenas são “simples” e até mesmo “pobres” em símbolos e ideias, mas essa é uma opinião baseada na superficialidade do conhecimento de quem a profere.

As histórias que permeiam o nosso folclore são tão profundas quanto qualquer mito que possamos estudar. A questão, porém, é que, além de conhecemos apenas o seu aspecto superficial, transformado em lendas e “histórias para crianças”, muitas vezes com o intuito de assustá-las e fazê-las crescerem com medo dessas narrativas, não procuramos conhecer com maior seriedade a mitologia indígena. Desse modo, mesmo que inúmeros elementos culturais estejam ao nosso redor, no nosso modo de falar, nos alimentos que consumimos e nos costumes que herdamos, ainda fechamos os olhos para todo esse universo de conhecimentos tradicionais que julgamos como “primitivo”. Devemos ter em mente que ao fazermos isso estamos não somente dando voz a nossa ignorância, mas renegando uma parte de nossa humanidade que tanto tem a nos ensinar.

Por isso, esse patrimônio imaterial, tecido ao longo de tantos anos, por tantos povos diferentes, é tão rico e tão precioso. Cada lenda, cada dança, cada historinha, cada brincadeira está carregada de aspectos sutis da realidade. Representam um movimento do inconsciente coletivo tentando se expressar. Sejamos mais cautelosos, mais zelosos por esses símbolos, pois eles são verdadeiros tesouros incorpóreos da humanidade.

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