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O mito do dilúvio: o que podemos aprender com ele?

Você sabia que a história da arca de Noé não está apenas na Bíblia? A mesma história é contada por diversas culturas: sumérios, babilônios, hindu, gregos, astecas e muitas outras. Todos os relatos sempre giram em torno de três elementos principais: a destruição de uma civilização com água, ordenada por uma ou várias divindades; um homem que constrói uma arca ou um navio para garantir a perpetuidade dos seres; e um novo recomeço.

Por que isso se repete em tantas culturas? Os astecas, por exemplo, que viveram na atual região do México e deixaram uma mitologia riquíssima, com inumeráveis símbolos sagrados, falavam de um dilúvio ordenado por uma deusa chamada Chalchiuhtlicue. Já de acordo com os sumérios, após o dilúvio, todo o planeta teria sido inundado e apenas um ser humano com seu navio teria sobrevivido. Esse ser humano seria Utnapishtim,  que, graças ao seu feito, teria conseguido o dom da imortalidade. Poderíamos passar dezenas de páginas apenas contando as diferentes versões desse mesmo mito, porém, cabe investigarmos o que há de tão especial nessa narrativa para que diferentes povos a tenham contado. Será que, para além dos aspectos mitológicos que conhecemos, o dilúvio realmente tenha ocorrido? 

Chalchiuhtlicue

Como nós ocidentais temos um espírito muito científico, costumamos nos aproximar desses relatos buscando evidências concretas. Há quem relacione com um aumento do nível do mar depois da era do gelo; há quem acredite que alguma espécie de meteoro gigante caiu no oceano há milhares de anos, gerando uma espécie de inundação de grandes proporções, destruindo as civilizações costeiras. Vale destacar que todas as causas que a ciência aponta são plausíveis e algumas, como a questão do nível do mar, são fatos dentro do aspecto geológico da Terra. Sabemos que ao longo do processo de formação dos continentes, por exemplo, naturalmente grandes regiões foram submersas devido ao aumento do nível do mar. Não por acaso, é comum, em momentos de recuo deste nível, novas “ilhas” surgirem ao passo que o mar diminui. 

Além disso, as evidências vão se multiplicando à medida que descobrimos mais fenômenos naturais que ocorrem em nosso planeta. As erupções vulcânicas, por exemplo, não ocorrem apenas nas formações montanhosas que vemos na superfície. No fundo dos oceanos, há centenas de vulcões que também causam explosões e liberam uma força tremenda advinda do manto terrestre para a crosta, criando assim tsunamis e outras alterações no mar. Também já houve descobertas de conchas e fósseis de peixes com milhares de anos de existência, descobertas de restos de arcas antigas em cima de montanhas, etc.

Talvez estejamos fazendo as perguntas erradas em torno desses relatos. Talvez a riqueza dessas histórias não esteja nas evidências materiais da ocorrência nem nas evidências do fato. Talvez precisemos descobrir o que está nas entrelinhas desse tesouro mítico que herdamos de tantas civilizações. É como entender um sonho para chegar a seus significados. O que se faz com um sonho? Tenta provar se foi real ou não? Ou é mais produtivo entendê-lo como uma expressão do inconsciente?

Nesse sentido, será que essa história da arca de Noé, tão repetida em tantas culturas, não seria uma espécie de sonho da humanidade, que guarda profundas verdades inconscientes? Se assim o for, o melhor é fazer com a história da arca de Noé o que fazemos com os nossos sonhos. Não cogitamos sobre a possibilidade de terem sido reais ou não, aceitamos como sonho e tentamos entender o porquê dele. Por que esse sonho se estrutura assim? Não devemos buscar nessas narrativas a mesma lógica que buscamos na descrição de um fato, devemos buscar na estrutura desses relatos algo que tem a ver com o inconsciente coletivo. 

Um sonho pode parecer uma história sem nexo, fantasiosa e às vezes absurda, mas os estudos na área da psicologia de Freud e de Jung apontam para a riqueza dessas construções, consideradas como reveladoras de aspectos inconscientes, que todos nós temos e que repercutem significativamente em nossa existência o tempo todo.

Considerando a narrativa do Gênesis, que é o relato mais próximo que temos de nossa cultura, observamos que a história se estrutura perceptivelmente em cinco momentos. No primeiro momento, homens e deuses partilham a vida, multiplicam-se entre si, ou seja, há algo divino interpenetrado no humano, mas essa fase entra em um processo de degeneração. Uma decadência moral antecede o cataclisma, esse é o segundo momento da narrativa, marcado pela corrupção generalizada, por um abismo entre homens e deuses, e essa fissura se traduz em imoralidades. É como se os deuses estivessem associados às leis morais, e não pudessem estar presentes onde existe a vulgaridade e a injustiça. No terceiro momento, surge Noé, como um tipo de homem que constrói uma arca a fim de preservar a semente de uma nova humanidade. O quarto momento é o clímax da história, o cataclisma, a inundação inevitável, destruidora de todo o sistema ambiental e humano, como uma espécie de purificação geral de tudo. Em uma imagem mais simplista, seria como alguém que está escrevendo uma história e, em dado momento, vê que não está indo bem, então resolve deletar tudo e jogar na lixeira para iniciar novamente. O quinto momento é o novo começo, o pós-dilúvio, que só será possível graças àquilo que foi preservado por Noé.

Por mais fantasiosa e deslocada dos limites da realidade que essa narrativa possa parecer, os pontos principais da história, curiosamente, estão muito presentes em nossa existência o tempo todo. Peguemos como exemplo a ideia de corrupção generalizada. Se entendermos “corrupção” como todo e qualquer ato que macule nossa moral, nossos valores e princípios, poderemos entender que em diversos momentos somos corruptos, desde os atos mais banais até aqueles que atentam diretamente contra os nossos mais sublimes valores. Se observamos por esse ponto de vista podemos entender que talvez estejamos vivendo algo similar ao descrito no mito do dilúvio. Quanto ao cataclisma, ele é a consequência desta corrupção. Se observamos o nosso mundo atual, qual é a causa dos nossos problemas? Desde problemas planetários, como o aquecimento global, até as nossas próprias tragédias cotidianas? Em geral, é a “corrupção” dos nossos valores. O mito do dilúvio, portanto, não é somente uma história narrada muitas vezes por diferentes povos. É, de fato, algo muito próximo da nossa realidade cotidiana, seja pela ideia de cataclisma, de destruição planetária, ou por qualquer outra chave que possamos utilizar.

Com isso, podemos afirmar seguramente que por trás da história da arca de Noé, há indícios de aspectos inconscientes da humanidade. E o fato de estar repetida em tantas culturas, no mínimo, nos sinaliza que há uma busca do homem por compreender esses aspectos. As culturas estão nos dizendo que a transgressão às leis morais está correlacionada diretamente à destruição de toda a humanidade. Essa pode ser uma mensagem simbólica, mas também podemos compreendê-la como uma verdade do Universo. Sempre que vamos de encontro a uma lei universal acabamos causando sofrimento a nós mesmos. Quando compreendemos verdadeiramente uma lei, não a transgredimos, pois percebemos o seu valor e que devemos respeitá-la. É por isso que não tentamos ocupar dois corpos em um único espaço e não duvidamos que se soltarmos um copo de nossas mãos, ele irá cair. Por conhecer essas duas leis, as respeitamos e vivemos de acordo com seus ditames.

Seria precipitado, fantasioso e até desonesto construir um prognóstico do tipo “a humanidade será destruída por estar transgredindo as leis morais”. Entretanto, não podemos ignorar a mensagem que todas essas culturas estão nos passando. Inevitavelmente, esses relatos associam a corrupção à destruição da humanidade, não temos como interpretar de outro jeito. Corrupção e destruição estão ligadas como causa e consequência nessas narrativas, assim como um novo recomeço está ligado à preservação de algo essencial que precisa sobreviver à destruição. Se estamos vivendo hoje um desmoronamento civilizatório, devemos com urgência construir uma arca, no sentido alegórico, para guardar, preservar valores, sem os quais não teremos um recomeço. Isso é o que está, em alguma medida, por trás da história do dilúvio. E se você refletiu sobre essa questão, e se concorda com essas ideias, a responsabilidade de construir esta “arca” também é sua.

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