De tempos em tempos, a humanidade alça alguns seres humanos à condição de mito. Suas realizações espetaculares são lembradas, contadas e recontadas tantas vezes que já não se reconhecem as fronteiras entre o fantástico e o real. Lembremos da história sobre o pequeno Sidharta Gautama, o Buda, que, logo após nascer, teria dado sete passos na direção de cada ponto cardeal. Ou sobre o grande sábio chinês Confúcio, cujo nascimento teria sido velado por cinco auspiciosos dragões. Inclusive, esses míticos seres alados são parte importante deste texto, porém, com uma outra chave simbólica, a ocidental. 

Para alguns, relatos míticos de grandes heróis são uma estratégia para dar ao homem uma face divina que lhe favoreça o culto. Todavia, para outros, são representações simbólicas, formas de nos ensinar lições importantes sobre nós mesmos e sobre o nosso lugar na vida. O que determina quais das percepções é a verdadeira? O próprio observador! Se tu és um sujeito religioso, que sente no coração que a figura santificada é um grande estímulo para reformar a si mesmo e ser digno de Deus, seja qual for o nome dado em sua crença, então essa divinização dos homens te serviu bem. Por outro lado, se és do tipo racional e precisas compreender mais profundamente a vida, não apenas senti-la, e não buscas nesses relatos uma verdade histórica, mas as chaves simbólicas que te ajudem a entender a ti mesmo, então alegra-te! És um nobre herdeiro da tradição filosófica. Como podes ver, não há caminho errado. O erro é não avançar, não andar na direção da reconstrução de si mesmo.

O dia 23 de abril é dedicado a uma das maiores figuras míticas que a civilização ocidental já conheceu: Jorge da Capadócia, ou Jorge de Lida. Talvez o nome não denuncie o mito, mas estamos falando de São Jorge! Só para se ter uma ideia, a cruz de São Jorge está nas bandeiras da Grécia, da Inglaterra, da Geórgia, do antigo Império Bizantino, das cidades de Barcelona, Londres, Milão, Montreal, Sardenha, Quebec, Genova, Durham… a lista é imensa. Igrejas foram levantadas em seu nome, países o adotaram como padroeiro. Seu mito é tão forte que, quando as pessoas escravizadas no Brasil, foram proibidas de manter sua fé, logo sincretizaram um de seus mais importantes orixás, Ogum, com o santo católico. É como se, ainda que por causa de uma imposição violenta, obrigados que foram, os homens reconhecessem nesse símbolo parte da força que fazia mover seus corações africanos. Esse sincretismo foi tão poderoso que invadiu a cultura popular brasileira e diversas foram as produções em seu nome. Também os artistas renascentistas lhe renderam homenagens. Donatello esculpiu um majestoso São Jorge. Rafael e Paolo Ucello imortalizaram, em belíssimas obras, a sua mais famosa cena: a batalha contra o dragão.

Quem foi essa figura, que influencia a história da nossa civilização até os dias de hoje? Jorge nasceu na região da Capadócia, atualmente parte da Turquia. Filho de pais nobres, ficou órfão ainda criança, quando seu pai morreu em batalha. Mudou-se para Lida na Palestina, atual Lod, cidade de Israel e foi educado fervorosamente na fé cristã. Adolescente, entrou para o exército romano, onde suas qualidades e seu carisma lhe renderam ascensão rápida. Aos 23 anos já fazia parte da corte imperial na Nicomédia. Eram os anos do Imperador Diocleciano e Jorge chegou a ser o responsável pela guarda pessoal do governante. Quando o imperador decidiu perseguir os soldados cristãos e os obrigar a sujeitarem-se aos deuses romanos, Jorge permaneceu fiel à sua fé. O imperador tentou dissuadir o tão destacado guerreiro, oferecendo terras, escravos, títulos, dinheiro… Tudo em vão. Até que terminou por condená-lo à tortura cruel que entraria para a história como seu martírio. Cada um de seus membros foi dilacerado e colocaram sal nas suas feridas abertas. A cada agressão, ele teria sido levado ao imperador para renunciar às suas crenças e ter uma oportunidade de sobreviver. Como sempre negava, no dia 23 de abril, foi decapitado.

Mas, como a história desse santo pode nos inspirar diante dos nossos desafios atuais? Sem desmerecer a força do seu exemplo pessoal de perseverança e fidelidade a seus princípios, focaremos no conto que lhe rendeu a fama. Aquele que foi cantado por milhares de trovadores na Idade Média: a sua vitória sobre o dragão. Conta-se que um dragão vivia num lago próximo a um povoado. Ele matava os habitantes, que, desesperados, enviavam uma donzela por dia ao feroz animal. Naquele ano, a sorteada teria sido a filha do rei. O monarca decidiu acompanhar a filha ao sacrifício. No caminho, os dois encontram Jorge, um perfeito cavaleiro, que, após fazer o sinal da cruz, atirou-se com sua lança contra a fera. A história, como todo conto popular, tem algumas variantes. Em algumas versões, ele enfia sua lança, matando o dragão. Em outras, após o ferimento, o animal fica manso, é acorrentado e levado pela princesa para o reino. Há versões também em que Jorge casa com a princesa.

Esse é um mito com símbolos muito usados pela humanidade. São Jorge encarna o mito cavaleiresco medieval. Um homem, forte o bastante para dominar seus próprios monstros, vivendo e lutando por um ideal sagrado. A princesa, ou a donzela, é o símbolo da pureza em nós. O dragão é nosso animal interno, escravo dos desejos, faminto e violento. Embora tenhamos asas e com elas a potencialidade de alcançar os céus, nosso desejo por carne e por tesouros nos mantêm presos às cavernas, apegados à ilusão de um materialismo que nos desumaniza, nos transforma em consumidores e mão-de-obra apenas. Se nós não lutarmos para dominar esse animal dentro de nós, perderemos a pureza de nossa alma. Não há meio termo possível! É necessário encarar a fera e deixar que a pureza a domestique. São Jorge é a representação de nossa condição humana. Todos nós enfrentamos essa batalha diariamente. Ou pelejamos e vencemos nossos instintos egoístas e sensuais, ou a tragédia, o sofrimento e a morte reinarão sobre nós mesmos, individualmente e coletivamente.

Esse símbolo encarnado por Jorge da Capadócia é tão antigo quanto o próprio ser humano, pois essa batalha interior sempre existiu. E as mais diversas culturas sempre encontraram símbolos para representá-la. Na cultura grega todos conhecem o herói Hércules, que teve como um de seus trabalhos dominar Hidra, um dragão de várias cabeças. No Egito antigo, séculos antes de Cristo, já existia o mito do deus Hórus, que enfrentou o violento deus Seth, muitas vezes representado como um crocodilo. Quando dominado, Seth é colocado para movimentar a barca da deusa mãe Ísis, e assim a sua força é canalizada para servir ao Bem e à Justiça.

 

Hórus vencendo Seth

Como a função dessas histórias nunca foi registrar o passado, mas inspirar o futuro, acendamos uma vela para São Jorge hoje. Se fizer parte da sua crença religiosa, faça isso com uma vela física. Se não for o caso, acenda simbolicamente uma vela na sua memória, para que sempre te lembre de prestar culto a essa força divina que habita dentro de você. O que importa é que, quando nossos dragões aparecerem, lembremos desse santo protetor. Fiquemos em casa armados com as armas de Jorge: uma determinação de ferro para mantermo-nos fiéis aos nossos princípios humanos; uma coragem de cavaleiro para lutar as lutas justas; e a sabedoria para saber que a mais difícil de todas é a que travamos dentro de nós mesmos.

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