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A guerra é uma realidade humana. Infelizmente, os conflitos nascem quando interesses distintos buscam se sobrepor, e dessa batalha haverá, necessariamente, um lado vencedor e outro que sucumbirá. Essa realidade humana foi apresentada a nós de diversas formas: desde histórias mitológicas como a guerra de Troia e o Bhagavad Gita, até mesmo nos fatos históricos que recorrentemente insistimos em repetir. Além dos conflitos externos, é notável que dentro de cada um de nós também ocorre diversas batalhas, que geralmente chamamos de dilemas morais. Eles acontecem quando não sabemos como agir perante uma situação e internamente ficamos divididos entre duas ou mais opções. Esse tipo de conflito – que em algum grau é uma guerra em nossa consciência – reflete um pouco da questão humana que envolve uma série de interesses particulares e coletivos.

Entretanto, do mesmo modo que os dilemas morais que vivemos cotidianamente podem nos trazer chaves para o crescimento interior, aprendendo a discernir atitudes éticas e antiéticas, é possível que os conflitos externos que a humanidade já experimentou também nos dê grandes lições de virtude, hombridade e coragem. Por isso, hoje resolvemos falar um pouco sobre uma das batalhas que ajudaram a mudar o mundo Ocidental, mais precisamente a região que conhecemos como Grécia.

Estamos falando da conhecida batalha das Termópilas que não só inspirou a história em quadrinhos e o famoso filme “Os 300 de Esparta”, mas ainda hoje inspira a todos que olham para esse fato histórico, perplexos diante da lendária coragem dos guerreiros espartanos e do seu rei Leônidas. Esses guerreiros protagonizaram a resistência contra o maior exército da Terra naquele momento: os Persas. Como nos conta a História, graças ao sacrifício desses nobres soldados, a Grécia conseguiu organizar suas forças e combater seus inimigos de forma a repelir a invasão do Império Persa. 

Há historiadores que afirmam que a atuação dos espartanos muito contribuiu para o que conhecemos hoje como cultura Ocidental. Isso se dá não somente pelo fato de sermos herdeiros da cultura greco-romana, mas pela própria geografia que impediu uma invasão do Império Persa, advindo da Ásia Menor, à Europa. Com isso, podemos dizer que os 300 de Esparta foram fundamentais para garantir à Grécia sua hegemonia e estabelecer um limite entre o que chamamos de Oriente e Ocidente.

Ou seja, caro leitor, a Batalha das Termópilas influenciou a sua história. Essa batalha não foi somente um marco para gregos e persas, mas sim um dos conflitos mais importantes da História Antiga. Ela foi marcada pela presença de heróis, mártires, estratégias militares, alianças políticas e lutas por territórios que envolveram as cidades-estado gregas e os persas durante quase todo século V a.C.. Este choque de civilizações aconteceu na região do Mediterrâneo Oriental. Chamamos esses conflitos de Guerra Médicas e para entender a Batalha das Termópilas é preciso compreender quais os fatos originaram esses conflitos.

Hoplita grego e guerreiro persa se enfrentando.

As Guerras Médicas tinham como principal objetivo a luta pela independência das cidades jônicas, colônias gregas que correspondem atualmente ao território da Turquia. Essas colônias foram anexadas pelos persas em seu projeto de expansão territorial, comprometendo dessa forma o comércio grego no Oriente e gerando uma luta acirrada entre os dois povos que iria perdurar durante anos.

Geralmente, os historiadores dividem os conflitos em duas fases: a 1ª Guerra Médica, em 490 a.C. e a 2ª Guerra Médica entre 480 e 479 a.C., e é nessa segunda fase que acontece a Batalha das Termópilas. Batalha esta que, apesar de ser apenas um momento dentre os vários conflitos greco-persas, é um dos eventos que mais teve importância na História Antiga cujos impactos material, cultural e moral ainda repercutem na História de todo Ocidente, quiçá de toda humanidade.

Esta batalha aconteceu devido à ameaça da invasão do Império Persa ao território helênico, sob o comando de Xerxes (filho de Dario I). Isso resultou numa aliança política entre todas as cidades-estado gregas, coordenada pela cidade de Esparta. Segundo o historiador Heródoto, o rei Leônidas demonstrou ser um grande estrategista e líder militar, pois diante do desafio de proteger as cidades gregas da invasão, fez um estudo sobre o terreno mais propício e escolheu as Termópilas como o lugar ideal para um combate frontal contra o extenso exército inimigo. A batalha seria travada entre os 300 espartanos, apoiados por 6.000 gregos de outras cidades, contra um exército persa de mais de 300 mil homens.

A pequena passagem existente entre o desfiladeiro de montanhas, pelo qual os persas eram obrigados a passar em pequenos grupos e enfrentar os poderosos guerreiros espartanos, possibilitou que a diferença numérica não fosse tão determinante quanto a diferença de qualidade e valor militar e, nesse quesito, os espartanos eram infinitamente superiores. Um espartano, desde o nascimento era treinado física e psicologicamente para ser um guerreiro protetor da Hélade (Grécia). Por outro lado, os soldados de Xerxes eram, em sua maioria, homens simples arregimentados por conta de sua condição de escravos. Já os espartanos sabiam que podiam segurar as tropas do rei persa pelo tempo necessário, tempo esse que possibilitaria as outras cidades gregas a se organizarem para as futuras batalhas e, consequentemente, a derrota persa.

Esboço de como seria a passagem das Termópilas em 480.a.C.

Nem Leônidas e nenhum dos 300 guerreiros espartanos marcharam para o combate com alguma esperança de voltarem vivos. A missão deles não era vencer todo o exército persa, mas sim atrasá-los o suficiente para garantir a sobrevivência de seus compatriotas e do ideal filosófico e espiritual que era o Espírito do povo grego. E assim aconteceu, os gregos resistiram por 5 dias, barrando o exército persa naquele local.

Apesar de todos os esforços dos guerreiros de Esparta, um morador grego da região, chamado Ephialtes, traiu o seu povo e mostrou aos soldados de Xerxes um caminho que os levaria até a retaguarda das tropas gregas. Já no quinto dia de resistência, ao perceber que seriam cercados, Leônidas dispensou todos que não eram espartanos, para que pudessem se salvar. Ficariam ali para encontrar a morte apenas os espartanos e o seu rei.

Sabemos que o fim trágico de Leônidas e seus guerreiros espartanos não é apenas um fato triste da história das guerras. Mais do que perdas em combate, os 300 de Esparta nos inspiram como exemplos de guerreiros virtuosos, ou seja, que combateram por seus ideais de maneira honrada e por um grande propósito. Salvaguardando as diferenças, o exemplo de pessoas que cumprem com seus deveres nos lembra de quão belo é se entregar aos ideais em que acredita, desde que estes sejam reflexos do bem. Ou seja, não basta pensarmos apenas em ideais, mas, acima de tudo, é preciso defendê-los desde que estes tenham um propósito de harmonia e unidade para com o Todo.

Podemos pensar, por exemplo, em uma pessoa comum que tem como ideal de vida ajudar o próximo. Mesmo cansada, com dificuldades financeiras, emocionais e até mesmo confusa em algumas ideias, a ideia de ajudar os demais pode ser um motor de ação suficientemente forte para que ela faça grandes ações. Desde ajudar alguém a atravessar a rua, a ensinar algo para alguém que não tenha aquele conhecimento e até mesmo entregar sua própria vida para salvar outras pessoas, são exemplos de que os seres humanos podem – e devem – ser movidos por ideias e não apenas por interesses egoístas. Nesse sentido, o sacrifício (físico ou em todos os sentidos possíveis) passa a ser uma ação nobre que sempre tem como finalidade o outro e não o prazer individual. Desse modo, mesmo com as limitações que a vida física nos imponha, é sempre possível escolher agir em prol de um ideal. 

No caso espartano, esse ideal se mostra evidente, uma vez que o sacrifício destes soldados estavam voltados a garantir apenas o atraso das tropas inimigas, dando tempo para que todas as outras cidades-estado gregas pudessem se organizar e garantir o futuro da Cultura Helenística. Mesmo com grandes diferenças entre os espartanos e outros povos gregos, como os atenienses, por exemplo, a clara percepção de que era necessário lutar por uma identidade cultural grega, ou seja, de se unir contra os invasores persas, motivou e levou Leônidas a entregar sua vida em nome desse propósito.

Ao longo dos séculos, diversas formas foram criadas e recriadas para contar o feito de Leônidas e seus 300 guerreiros. A primeira e mais antiga delas está em Heródoto, o pai da História, que buscando imortalizar os feitos de gregos e bárbaros legou Leônidas e seus soldados à imortalidade de entrar para a História. Em nosso mundo contemporâneo, porém, os 300 de Esparta foram agraciados através de diversas obras audiovisuais, que sempre elevaram, e elevam, o aspecto de nobreza e altivez desses guerreiros. A obra de Frank Miller, o quadrinho “300”, é um exemplo disso. Em uma das cenas finais, quando os espartanos estão cercados pelos persas, Leônidas olha para o traidor e diz: “Você aí, Ephialtes. Que viva para sempre!”. Isso não é historicamente correto, mas demonstra muito bem que, para um guerreiro, uma vida sem dignidade é a pior coisa que pode acontecer a um ser humano, por isso desejou que o traidor fosse castigado com uma vida eterna para lembrar o quão medíocre ele era. Por outro lado, os espartanos morreriam ali, mas exemplo de honra, coragem e dignidade ficaria eternizado na História.

Páginas da revista em quadrinho “300”, de Frank Miller

Diante desses fatos, podemos afirmar que, ao final, o sacrifício de Leônidas não foi em vão, pois os povos gregos puderam se preparar para enfrentar e obter a vitória sobre os persas. Isso garantiu-lhes o controle comercial da região no Oriente, imortalizou os seus heróis e garantiu a sobrevivência da Grécia não só no sentido geográfico, mas principalmente no sentido cultural.

Em uma outra releitura recente dessa grande batalha, temos o filme “300”. Utilizando diversas técnicas voltadas para o cinema, o longa dirigido por Zack Snyder entrega ao público não apenas a emoção do campo de batalha, mas o arquétipo do guerreiro nobre e que não teme a morte, uma vez que luta pelos seus ideais. O filme, lançado em 2006, é inspirado nos quadrinhos de Frank Miller, mas também guarda a mesma vocação heroica que Heródoto aponta em seus escritos, dando-lhes uma nova vida à batalha, aproximando Leônidas e os espartanos de uma nova geração de pessoas sedentas por encontrar referenciais desse aspecto heroico.  

Não resta dúvida de que a grande vencedora das guerras entre gregos e persas foi a civilização Ocidental, ou seja, nós mesmos. A Grécia é o berço do mundo moderno, de conceitos filosóficos importantes, de sistemas políticos e também de uma cultura marcial que provou que a coragem, a honra e a inteligência têm muito mais valor que a força bruta e a quantidade.

Estátua do Rei Leônidas de Esparta

Do século V a.C. para cá, tivemos muitos outros acontecimentos históricos, e o mais interessante é que a Grécia acabou sendo conquistada por Alexandre, o Grande, e posteriormente pelo Império Romano, que acabou dominando praticamente todo o mundo conhecido nesse período. Porém, apesar de ter sido conquistada a nível geográfico, a cultura grega foi que conquistou todo o mundo, já que tanto Alexandre quanto os romanos assumiram que a filosofia e os valores morais dos gregos eram superiores e deveriam ser espalhados pelo mundo.

Apesar do judaísmo e do cristianismo também terem contribuído como alicerces de nossa sociedade, se a Grécia tivesse sido conquistada pelos persas, a história dessa civilização que criou suas raízes na Europa teria sido outra. Para isso, é importante lembrar que essa vitória passa pela Batalha das Termópilas, que passa inegavelmente pelo heroísmo de um rei chamado Leônidas e seus 300 guerreiros. Ou seja, essa batalha faz parte da sua história.

Considerando tudo isso, não podemos abrir mão de que a História humana é viva e que a todo momento seja construída, influenciando o nosso presente e também o futuro. Nesse aspecto, sempre que contamos os feitos de Leônidas, inspiramos nós mesmos a sermos idealistas e lutarmos em nossos próprios fronts cotidianos para construção – e preservação – da cultura que queremos que exista no mundo. Mesmo que não sejamos gregos ou persas, tais experiências do passado continuam a nos influenciar em direção a nós mesmos. Todos nós, portanto, podemos viver as Termópilas e fazer da nossa vida um grande sacrifício em nome de um ideal. Entretanto, não sejamos tão trágicos: não precisamos dar a nossa vida em prol disso, tal qual Leônidas e seus soldados. Mais do que morrer por uma ideia é viver sob um ideal. Que possamos, portanto, levar o exemplo dos 300 de Esparta em nosso peito e façamos da vida uma verdadeira obra-prima das ideias que gostaríamos que toda a sociedade vivesse.

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