Em tempos de intolerâncias, conflitos de ideias e defesas apaixonadas de argumentos a qualquer custo, nunca se foi tão urgente refletirmos sobre a importância de termos ideias próprias, para não nos deixarmos aprisionar pelas grandes ondas de opiniões que têm banhado as nossas relações. Para isso, vale resgatar o velho mito de Eco e dar uma olhada em uma recente palestra ministrada pela professora de filosofia Lúcia Helena Galvão, que tem como título “Voz ou Eco? Ideias próprias ou Opiniões?”. Tanto o mito como a palestra nos trazem elementos suficientes para que, se quisermos, possamos ampliar o nosso olhar e pensar além das caixinhas pré-estabelecidas pela massificação das ideias atuais.

Intuitivamente, todos nós temos uma ideia sobre o que significa um “Eco”, para além do significado científico: quem não lembra das brincadeiras de criança em que se adorava subir em algum ponto alto para gritar o seu nome e ouvir o som se reverberar através de suas ondas no espaço/ambiente? Entretanto, o Eco representa muito mais do que uma brincadeira infantil, visto através da filosofia Grega, esse termo traz consigo condições profundas da nossa condição humana já bem conhecidas pela antiguidade. Aqui mesmo, neste portal, o mito Grego de Eco já foi até tema de artigo. As várias histórias sobre Eco nos conta sobre quão perigoso é quando se perde a própria voz, pois a pessoa perde a si mesma, e sem voz e sem a si mesmo, o indivíduo se torna um mero reprodutor dos ecos infantis da coletividade e da sociedade em que vive.

Fala-se que Eco era uma jovem ninfa que acompanhou a Deusa Hera quando esta se casou com o grande Zeus. Reconhecida por sua beleza e juventude, tinha um poder de encantar a todos que cruzavam o seu caminho, mas, por apoiar Zeus em suas aventuras amorosas com outras Deusas e mortais, acabou sendo castigada por Hera, que lhe retirou a voz e fez-lhe repetir sempre a última sílaba das palavras que eram faladas diante de si. Para o poeta Romano Ovídio, Eco foi a ninfa que “não sabia falar, não sabia calar-se quando se falava com ela e que repetia incansavelmente os últimos sons da voz que lhe chegava”. Em suma, Eco foi amaldiçoada pela Deusa Hera a perder eternamente o domínio de sua voz interna, viveu a ecoar as vozes externas até se definhar sozinha e triste numa gruta.

Na sociedade de hoje, há ecos de todas as partes, há repetições de preconceitos e ideias, senão equivocadas, maliciosas, das quais repetimos até que elas nos silenciam, nos emudecem e nos fazem romper com todos à nossa volta. Mas, por que e como isso acontece? Esse é um dos pontos que mais pode iluminar o processo de comunicação atual da maioria de nós e é justamente sobre esse processo que a palestra “Voz ou Eco? Ideias próprias ou Opiniões?”, da professora Lúcia Helena pode nos elucidar. Vale muito a pena assistir a essa palestra!

Em linhas gerais, a professora Lúcia Helena faz um resgate das ideias de Platão e nos relembra sobre a possibilidade de que todas as coisas têm uma origem comum: a mente cósmica. Essas coisas nascem primeiro no mundo das ideias, no plano mental da natureza e depois se manifestam no mundo da matéria e é, ao se manifestar na matéria, que sofre algumas alterações. Assim, cada coisa, ou cada ser que existe tem como grande missão existencial buscar se parecer com a sua matriz que lhe deu origem, com a sua ideia perfeita. Platão acreditava que cada ser vivo que aqui existe e, nisso se inclui o humano, tem como realização máxima, buscar a sua própria natureza e a sua própria identidade. Por exemplo, ao reino mineral cumpre se realizar enquanto pedra, ao reino vegetal, fazendo fotossíntese, aos animais lhe é próprio a plenitude através das sensações, das emoções e dos instintos, e, por fim, ao ser humano cumpre realizar a sua natureza quando passa a compreender e viver virtudes, sabedorias e valores.

Essa perspectiva nos abre duas chaves de interpretação: primeiro, todas as coisas que existem fazem parte de uma unidade, a mente humana; e segundo, na manifestação cada coisa tem sua identidade de acordo com a sua função na natureza. Se nada está em duplicidade, se cada um ocupa o seu lugar dentro do plano da natureza, por que, então, haveríamos de sermos iguais na forma de pensar e de aprender as ideias? Cada ser humano é único, tem a sua própria identidade, sua própria forma de aprender, compreender e contribuir para o mundo. Mas, para que isso se torne real, cada um necessita reconhecer-se a si mesmo como tal, consciente de seu papel, deve levar suas contribuições a toda a sociedade. Qualquer postura ou posicionamento que passe à revelia da apropriação da nossa identidade, corre-se o risco de ir de encontro com a natureza humana e provocar conflitos e desarmonias intrapessoais e interpessoais.

Quem tem identidade e se conhece, tem ideias claras e não sai reproduzindo o que todo mundo fala porque tem consciência de que é um ser único e que tem um pensamento único. Só as ideias claras, num momento como o nosso, com tantas discórdias, conflitos e intolerâncias pode nos livrar das vozes que representam ecos e emudecem qualquer possibilidade de autenticidade. E, se cada um é único nessa existência, não seria rico e maravilhoso se pudéssemos conhecer cada indivíduo como se é, como essência que carrega consigo? Poderíamos juntar todos num grande quebra-cabeça humano, em que cada mensagem individual nos abriria uma fresta dos grandes mistérios da vida.

Todo e qualquer processo que tente nos igualar, nos tornar semelhantes ou que vise moldar as nossas ideias, os nossos pensamentos, os nossos sentimentos e as nossas atitudes vão de encontro à própria natureza humana. Vale lembrar, que a harmonia não se dá pelos elementos iguais, mas por elementos diferentes que compõem o todo. Enquanto não houver consciência disso, vamos continuar nos espelhando e refletindo apenas coisas externas, não conseguiremos pronunciar uma só palavra interna porque não vamos nos ouvir diante dos tantos ecos que ressoam e nos emudecem. Onde não há identidade e não há diálogo, só se escuta ecos confusos, dispersos e emaranhados nos ambientes.

Portanto, para que possamos não padecer como a ninfa numa gruta sozinhos e mudos na grande selva que a sociedade atual nos apresenta, é preciso que reconheçamos que tudo começa com o processo de identidade, ou seja, necessitamos descobrir quem somos diante das várias vozes que nos ressoam o tempo todo e nos fazem repetir ideias que nunca foram nossas. Só o autoconhecimento, o desenvolvimento humano e a conquista da identidade, ou seja, possuir a si mesmo, pode nos ajudar a nos livrarmos das opiniões alheias que tentam nos deformar e nos igualar aos demais. Sem sombra de dúvidas, todos os movimentos de ódio, intolerâncias e desrespeito ao outro começa pela ignorância e desrespeito com a nossa própria essência.

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