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Certo dia, na Grécia Antiga, um discípulo de Sócrates se aproximou do mestre para lhe contar a mais nova “fofoca” da cidade. Sócrates, antes que o jovem começasse a lhe contar o ocorrido, o interrompeu e lhe propôs que antes de falar fizesse o teste dos três filtros. O discípulo então colocou sua notícia à prova dos filtros. Sócrates, primeiramente, perguntou se o que ele iria dizer era Verdadeiro. O jovem hesitou por alguns segundos e depois confessou que não sabia, visto que não tinha provas. O segundo filtro era o da Bondade, assim, o mestre perguntou ao seu discípulo se aquela informação seria boa para quem estivesse recebendo-a. Mais uma vez, o jovem hesitou e disse que não, que certamente nada de bom existia na notícia em que carregava. Em seguida, Sócrates colocou-o diante do último filtro, o da Utilidade, perguntando ao jovem se a informação que ele estava prestes a contar seria útil. O discípulo simplesmente baixou a cabeça e disse que não, que nada de útil vinha daquela notícia. Assim, o Sábio Grego disse que, como a informação não havia passado pelos seus filtros, era melhor que não fosse dita e o discípulo então calou-se diante do ensinamento. 

Essa pequena anedota socrática revela muito mais para nós do que uma cômica história de como Sócrates evitou uma fofoca. Além disso, ela nos ensina como diferenciarmos tudo que escutamos ao longo dos nossos dias e hoje isso se faz fundamental em nossa sociedade. Se pararmos para refletir, em nosso mundo atual, somos bombardeados de informações a todo momento. Há um estudo que confirma esse fato, dizendo que uma pessoa que mora em uma metrópole, recebe mais informações em um dia do que alguém que viveu toda sua vida na mesma cidade há 300 anos. E não é para menos, pois com a facilidade que possuímos em nos comunicarmos através de computadores, celulares e compartilhamentos de nossas experiências, por meio das redes sociais,  faz com que, a todo momento, estejamos processando algum tipo de informação.

Junto a isso, temos as mais diversas propagandas, outdoors e campanhas publicitárias que nos são apresentadas pela TV ou em praticamente qualquer ambiente que estejamos. Visto isso, como podemos refletir sobre tantas coisas, ao mesmo tempo, e saber diferenciá-las do que são Boas e Verdadeiras ou mesmo úteis?

Neste sentido, os filtros de Sócrates são para nós uma grande ajuda. É certo, porém, que eles não impedirão que os veículos de propaganda continuem a nos bombardear. No entanto, em nossa vida mais íntima, com familiares, amigos e demais pessoas de nossa convivência, poderemos nos fazer valer desse valioso aprendizado. Vamos, portanto, refletir um pouco acerca disso?

Primeiramente, pensemos a partir das duas perspectivas: tanto a de quem vem dar uma informação quanto aquele que receberá a notícia. Do ponto de vista do noticiador, um correto uso dos filtros socráticos o impediria de propagar notícias falsas, que atualmente tornou-se um problema social em nossas convivências. Além disso, os filtros nos poupam de espalhar críticas e histórias que, por mais que sejam verdadeiras, não nos acrescentam em nada. Assim, para quem busca propagar qualquer informação, os filtros socráticos nos servem para gerar consciência quanto à nossa responsabilidade frente aos fatos, uma vez que uma história pode arruinar a vida de alguém. 

Investigando um pouco mais a fundo tal questão, pensemos juntos: qual a utilidade de sabermos detalhes sobre a vida de outra pessoa, principalmente se forem a respeito de algo ruim? Alguns podem pensar, por exemplo, que ao sabermos de certas “fofocas”, isso irá nos ajudar a nos “prevenirmos” quanto a outra pessoa, mas será mesmo verdade isso? Na maior parte do tempo, ao espalharmos aspectos negativos de alguém, acabamos simplesmente “manchando” a imagem dessa pessoa para os demais, que, a partir desse momento, irão observá-la com julgamento. Desse modo, tiramos a oportunidade das pessoas de conhecerem umas às outras por si mesmas, pois lançamos preconceitos e estereótipos sobre suas vidas.

Considerando só esse fato, entre tantos outros, já podemos perceber que a fofoca, como costumamos falar, certamente não era, e nem seria aprovada por Sócrates e seus filtros, pois mesmo que a notícia fosse verdadeira, certamente seu resultado não seria bom e nem mesmo útil. Neste sentido, o que nos cabe enquanto emissores de informações? Sempre verificar, internamente, não somente o teste dos filtros socráticos, mas, em um aspecto mais profundo, também perceber quais as minhas verdadeiras motivações para desejar veicular certas notícias.

Visto essa necessidade, um dos grandes sucessos do ensinamento de Sócrates faz ponte com nossas causas internas, pois, à medida que aplicamos os filtros do sábio Grego, podemos identificar as verdadeiras motivações pelas quais estamos tentando passar tal informação. Uma vez que percebemos que uma notícia não é verdadeira ou boa ou ainda útil, o que nos faz desejar transmiti-la? Essa é a pergunta fundamental que precisaremos responder. 

Agora, pensemos sobre as causas. Muitas vezes, nossa principal motivação é simplesmente um hábito. Por fazermos isso de modo recorrente, acabamos agindo sem perceber e, inconscientemente, machucamos os demais. Nestes casos, é preciso mais atenção em nossa conduta, pois reproduzir um hábito de maneira tão natural nunca trará a nós um verdadeiro ganho em nossas vidas. 

Por outro lado, outros fatores internos que nos levam a veicular informações, seja sobre outras pessoas ou boatos em geral, estão relacionados com a carência. Por desejarmos a atenção de alguém (ou de várias pessoas), buscamos, a todo momento, comunicar algo, logo, não nos preocupamos se as informações são verdadeiras, boas ou mesmo úteis. Pensando nisso, grande parte das correntes que recebemos em nossas redes sociais, assim como as notícias falsas que são espalhadas aos quatro ventos e constantemente são reenviadas tem, por parte dos seus divulgadores, a raiz na carência e necessidade de estar no centro das atenções. 

E como agir quando somos os receptores de tais notícias? Ou seja, quando um amigo, familiar ou mesmo colega de trabalho para ao nosso lado para contar as “novidades”? Bom, esse sempre é um momento delicado, pois não desejamos ser rudes com tais pessoas. Então, na grande maioria das vezes, escutamos fofocas por “educação”, não é mesmo? Nesses casos, a própria atitude de Sócrates na história já demonstra um pouco de como podemos proceder. Evidentemente que talvez precisemos ajustar nossa linguagem, mas o ideal é sempre ter discernimento e cortesia, para não machucar o nosso noticiador e também não nos contaminarmos com as suas informações.

Em ambos os casos, seja como receptores ou emissores, é nosso dever sempre estarmos conscientes que qualquer informação, por menor e mais corriqueira que seja, pode machucar e agredir, tanto quem escuta quanto o alvo de nossas histórias. Sabemos também que a comunicação é inerente ao Ser Humano e talvez por isso seja tão inconsciente o nosso hábito de espalhar notícias, a ponto de não verificarmos se são verdadeiras, boas ou úteis. Frente a isso, os filtros socráticos não respondem apenas a uma demanda social, baseada na cortesia e numa boa prática de convivência, mas também é uma excelente ferramenta para desenvolvermos nossa consciência, uma vez que nos fazem refletir sobre como somos levados por impulsos e acabamos cometendo pequenas (ou grandes) injustiças.

Frente a isso, não podemos deixar de notar o quão atual o ensinamento de Sócrates se faz, mesmo passados vinte e cinco séculos desde que foi proferido. Portanto, que saibamos aplicá-lo corretamente em nosso dia a dia, pois em um mundo que se comunica de forma tão rápida quanto o nosso, é preciso muito mais do que uma filtragem de assuntos e palavras, mas principalmente de um filtro moral, capaz de nos (re)alinharmos com nossos princípios e valores. 

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