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O Ser Humano faz parte da Natureza. Essa é uma afirmação um tanto quanto óbvia, convenhamos, porém raramente a percebemos como verdadeira. Se observarmos o nosso comportamento geral com os outros seres vivos e o ambiente que nos cerca, entenderemos que, basicamente, o Ser Humano explora todos os recursos em que vive e, consequentemente, acredita ser o “dono da natureza”, e não seu partícipe.

Essa postura frente a Vida está enraizada em nossa cultura. Constantemente transformamos o meio natural com construções de cidades, barragens e quaisquer outras obras que nos sejam benéficas. Chamamos essas transformações de progresso e certamente são facilidades para nossa sobrevivência enquanto espécie, porém, pouca atenção é dada ao custo ambiental exigido para essas mudanças. Não por acaso, quando os recursos são mal utilizados, acabamos destruindo ecossistemas inteiros e levando espécies de animais e plantas à extinção. 

Um outro ponto que evidencia o modo utilitarista que lidamos com a natureza está na nossa relação com os animais. Não estamos falando dos animais domésticos, que amamos e cuidados com todo o nosso coração, mas sim daqueles que são usados em laboratórios como cobaias de experimentos e novas tecnologias. Frente a isso, o curta “Save Ralph” – “Salve o Ralph” em português – traz uma poderosa mensagem e apelo ao público para não utilizarmos animais em testes de produtos cosméticos.

Escrito e dirigido por Spencer Susser, a animação lançada em 2021 atende a uma causa social que vem ganhando força nos últimos anos: o uso de animais para testes de laboratório. O ponto levantado no curta-metragem mostra o tratamento cruel que os animais são submetidos para que se possa desenvolver produtos estéticos, como batons, desodorantes, maquiagens, perfumes e etc. Isso nos leva a refletir sobre a real necessidade de utilizarmos animais como cobaias e sobre a razão pela qual temos o direito de submeter esses seres a esses procedimentos.

A princípio, a causa dos testes de remédios e produtos em animais têm uma razão “Humana”, pois se usa os animais por não ser ético submeter outros Seres Humanos a esses procedimentos, que muitas vezes deixam graves sequelas nas cobaias. Devemos relembrar que ao longo da História, Seres Humanos já foram usados como cobaias para experimentos científicos. O caso mais famoso desse tipo talvez seja o que ocorreu ao longo do regime Nazista, em que judeus em campos de concentração eram selecionados, devido alguma característica específica, para serem estudados e usados como cobaias. O resultado nefasto dessa prática foi a morte de milhares em mesas de cirurgia e outros tantos com problemas.

Após o fim da II Guerra Mundial foi criada a Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 1948. Dentre seus apontamentos, a declaração garante que utilizar-se de homens e mulheres como cobaias para testes fere o direito à dignidade e a vida das pessoas. Em resumo, se descobriu que essa era uma prática “desumana”. Isso nos leva a indagar, porém, se uma atitude só é desumana quando voltada a outro Ser Humano. Se considerarmos os malefícios causados aos seres expostos à essas condições não estaremos também agindo de maneira desumana?

A lógica por trás do uso de animais, no sentido de não expor outros Seres Humanos, se apresenta como válida, principalmente no que se refere a novos tratamentos médicos e medicamentos. Compreendemos que esse é um uso válido nestes casos, pois estão tratando diretamente com o avanço da medicina e desenvolvendo remédios que podem, em algum grau, beneficiar o próprio tratamento dos animais. Porém, essa relação se torna problemática ao se usar cobaias para testes de produtos que, a priori, não são fundamentais para a Vida Humana, como é apresentado no curta. Muitas vezes, a indústria da “beleza”, focada em produtos cosméticos, tem agido contra a saúde de homens e mulheres, uma vez que vendem um padrão inatingível de beleza e “cuidados” com o corpo, que a maior parte das pessoas não consegue atingir. Essa corrida incessante para estar dentro do padrão pode causar, ao longo dos anos, problemas psicológicos tão debilitantes à saúde quanto uma doença física.  

Será mesmo que criar um novo tom de batom ou outra maquiagem, vale o sofrimento e morte de diversos animais? Constatar que nossa sociedade chegou a esse ponto é perceber que falhamos enquanto civilização. Não aprendemos a conviver com outros seres vivos, mas sim dominamo-nos para nos servir. 

O Ser Humano, que é o único ser vivo capaz de tomar decisões conscientes, deve buscar uma relação justa com os animais, vegetais e até minerais. Observar os maus-tratos e utilização indevida de animais como cobaias é apenas um sintoma, entre vários, de que ainda não mudamos muito. Os males que causamos aos animais, também fazemos na nossa terra, solo, florestas e até minas, rochas, falésias…Toda a natureza em volta do Homem fica ameaçada. Ainda pensamos como uma pessoa do século XVI, que acredita na teoria de que somos o centro do Universo e toda a natureza está para nos servir. Essa mentalidade, consequentemente, nos leva a desprezar outras formas de vida e a usá-las ao nosso bel prazer. Infelizmente ainda não aprendemos que o fato de termos consciência e usarmos a razão não nos faz melhores, mas sim mais responsáveis pelas nossas ações. 

Nossa potencialidade, afinal, não está em podermos oprimir e dominar todas as espécies do planeta, mas sim em conseguirmos nos harmonizar com as mais diferentes criaturas e criar uma conexão verdadeira com elas. Usar animais em testes, sem dúvida, é uma escolha muitas vezes terrível, porém, como vimos, necessária em alguns casos. Cabe a nós elegermos o que vale a pena e o que não vale. No fim, “Salve o Ralph” é um apelo ao mundo para que percebamos que a beleza física não é um valor inestimável ao ponto de exigir tamanho sacrifício. De que vale a beleza da aparência em troca de tamanha injustiça com seres inofensivos? 

A partir dessa tomada de consciência poderemos caminhar, verdadeiramente, rumo à evolução. Enquanto isso não ocorre, apelos como esta animação continuam necessários para nos levar à refletir sobre nossa conduta frente aos outros seres que partilham conosco a Vida na Terra. Sejamos, por fim, aquilo que nos cabe ser: Humanos. Se colocarmos isso à serviço da Harmonia com os animais poderemos, finalmente, descobrir que toda forma de Vida é um pedaço de Deus e que, certamente, é mais importante do que algum produto de beleza.

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