Você já se sentiu só? É provável que sim. Quando ficamos sozinhos em nossas casas, ou mesmo ao sentir a necessidade de afastar-se um pouco da convivência com outras pessoas, estamos, de algum modo, alimentando a solidão. Porém,  apesar de na sociedade atual relacionarmos a solidão a ideias negativas, o termo nem sempre foi visto dessa forma. Para alguns povos antigos, por exemplo, a solidão era um ótimo caminho para o autoconhecimento, uma vez que proporcionava momentos que gerava ao indivíduo as reflexões necessárias acerca de si e do mundo que o rodeava. Esses povos acreditavam ainda que era nos momentos solitários que se podia captar, compreender ou maturar ideias para as tomadas de decisões mais importantes, ou mesmo, para elaborar, planejar, rascunhar e avaliar os projetos e metas individuais antes de partir para a execução. Assim, a solidão era para a psique uma espécie de estado de espírito necessário à condição humana, no qual o indivíduo se desenvolvia e trabalhava as suas convicções e só depois passava a compartilhá-las com o mundo exterior.

Vista sob essa ótica, para aquelas sociedades, a solidão tinha uma importante função que era a de impulsionar o indivíduo a se voltar para o seu interior, ficar em sua mais íntima companhia, conversar consigo mesmo, conhecer seus medos, os seus desejos dúbios, analisar os seus pensamentos e os seus sentimentos. Enfim, a solidão era não só importante, mas uma indispensável aliada no caminho do autoconhecimento, ajudando os indivíduos a descobrirem as suas dúvidas e certezas.

Sem dúvida alguma, as grandes respostas humanas dadas aos problemas mais difíceis foram fruto de momentos solitários, de inspiração de quem soube valorizar esse momento de ócio e de afastamento da presença física dos outros. Dizem, por exemplo, que  Leonardo Da Vinci no seu processo criativo passava horas e horas sozinho mergulhado em si, chegando muitas vezes a esquecer até de se alimentar. De igual modo, não nos seria muito estranho imaginar Michelangelo produzindo o “Davi” no meio de conversas e murmúrios da plateia opinando sobre quais os detalhes que mais sobressaltam aos seus olhos, ou ainda, acreditarmos que as grandes descobertas científicas se deram nos grandes salões lotados, regados a fortes barulhos e maciça presença de pessoas? A história nos mostra que o legado Humano do qual possuímos hoje advém de homens e mulheres que mergulharam sozinhos nas suas gélidas certezas, medos de fracasso e solitários momentos de angústias.

É nesses momentos que passamos a nos preencher mais de nós mesmos, onde chegamos a fazer as nossas maiores sínteses e tomamos as nossas maiores decisões na vida. Quem não já experienciou tais estados de espírito? Por isso, deveria ser normal nos sentirmos solitários, não no sentido de querermos viver isolados do mundo a todo momento, mas de termos um momento só nosso, de reflexão e busca de nos autoconhecer. Considerando que todo Ser Humano tem em si um potencial latente, precisamos aprender a extrair do nosso íntimo aquilo que nos é próprio e construir a obra mais importante de todas, que é a nossa própria vida. 

Tal qual os grandes artesãos, devemos nos esforçar e trabalhar ao máximo sobre a nossa obra prima, uma vez que construir a si mesmo exige uma saga digna de Hércules. Como qualquer outro artista, é imprescindível conhecer a sua matéria prima, quais os instrumentos que se têm e quais serão necessários, até achar a forma mais adequada para expressar a obra. Talvez aqui possamos nos reconhecer, pretensiosamente, na saga dos grandes homens que ousaram construir a si mesmos e por isso marcaram o seu tempo. Talvez possamos descobrir a tamanha responsabilidade que é viver para além de existir e experimentar um pouco do poder de criação de um Da Vinci ou Michelangelo canalizado para a nossa própria vida.

Já diziam os mais sábios: viver é uma arte e nessa matéria todos nós devemos ser um artista muito cuidadoso e perito. É importante lembrar que a nossa vida é construída a partir das nossas escolhas e decisões, ou seja, o que somos hoje é fruto do que decidimos ser no passado, independente se estávamos conscientes disso ou não. Entretanto, para se tomar decisões acertadas é preciso se conhecer e, não há melhor forma de autoconhecimento do que nos possibilitar momentos a sós conosco mesmos e para esse fim, a solidão, é seguramente a forma mais indicada.

Mas, por que hoje lidamos tão mal com a solidão? Por que ela se tornou tão indesejada e temerosa pela maioria de nós? É verdade que essas não são respostas fáceis de se dar, mas, ao pensarmos sobre elas vários apontamentos são possíveis e dentre eles se encontram a falta de autoconhecimento, de direcionamento de vida e de perspectivas e crenças no futuro. A desconexão consigo mesmo arrasta os indivíduos para as massivas experiências externas, o que, consequentemente, os fazem utilizar todas as suas energias psíquicas, não sobrando quase nada para as suas elaborações pessoais. 

Nessas condições, o desafio de se viver numa sociedade cada vez mais complexa e dinâmica nos demanda uma alta participação em atividades externas e nos exigem cada vez maiores habilidades para as tomadas de decisões rápidas e práticas. Mas, como tomar decisões mais acertadas de maneira rápida sem pensar, sem voltar-se para dentro? Certamente, não existe uma receita de bolo pronta que resolverá todos os nossos problemas, cada um terá que construir o seu caminho e reconhecer a necessidade de trilhá-lo. Entretanto, todos estaremos unidos no entendimento sobre a importância de escolhermos com naturalidade a vivência de nossos estados solitários ao longo da vida. Sem eles é possível que corramos o risco de apenas reproduzir o nosso externo e nos diluirmos como criaturas pensadas por alguém, e não como criadores de nossa própria obra.  

As consequências de se renunciar a suas ideias para apenas reproduzir as ideias dos outros nos apequena e nos reduz apenas a espectadores da vida e não legítimos criadores. Na sociedade atual, ainda se tem um agravante nessa questão, pois com o advento das tecnologias e a descoberta do mundo virtual, acabamos por transferir nossas vivências e relações pessoais para a esfera virtual, assim, embora estejamos acompanhados ou sozinhos toda a nossa energia, atenção e sentidos estão voltados para o ciberespaço.

As facilidades deste mundo virtual nos proporciona sermos quem quisermos e tudo pode ser definido apenas em um clique: aspectos físicos, psicológicos ou históricos podem ser definidos através de comandos. Podemos fazer e desfazer milhares de amigos e termos a falsa sensação de que estamos no controle deste mundo, mas isso é, assim como o próprio mundo virtual, uma ilusão. Não por acaso nunca os consultórios de psicólogos e psiquiatras estiveram tão cheios, sendo esse um sintoma claro de que nossas relações sociais precisam de ajuda.  

Em algum momento vamos precisar dar conta dessas questões e, inegavelmente, essa saída terá como ponto de partida a volta para o nosso interior, para a reconquista de si mesmo. Indubitavelmente, precisaremos fazer essa volta sozinhos, no mais profundo silêncio, para que possamos sentir a nossa presença.

Portanto, o papel da solidão nos tempos atuais deverá ter a função de proporcionar um ambiente produtivo para uma reconexão conosco mesmos e para nos reaproximar dos trilhos da saga humana. Nosso caminho tem, por natureza, um sentido de ser e de existir e dentro dele o indivíduo tem passado, presente e futuro. Para além disso, a solidão nos traz vantagens objetivas: a primeira é que vive melhor em sociedade aquele que sabe conviver com os demais e, para saber conviver é preciso viver suas próprias convicções para aprender a respeitar as dos demais. A segunda e última questão é que, não se desenvolvem convicções e valores pessoais sem o autoconhecimento, quem não aprecia a sua própria companhia, quem não elabora, analisa e avalia os seus pensamentos e sentimentos, não consegue gerar certezas dentro de si. E, sobre essa perspectiva, os estados de solidão, como bem diziam os antigos, podem ser indispensáveis à nossa condição humana. 

Portanto, deixemos de lado o estigma criado para a solidão nos tempos modernos, pois não é solitário aquele que passa dias trancado em um quarto ou que não aceita conviver com os outros. Esse é, em si, alguém que desaprendeu a estar em convivência com os outros. A verdadeira solidão é, como dissemos, se autoconhecer para dominar-se e ser, acima de tudo, um indivíduo autêntico. Dito isso, que nosso caminho seja marcado por momentos de solitude, mas que esta reflita em uma expansão de consciência, de nossas debilidades e Virtudes e, uma vez visto tudo isso, que possamos dar passos mais firmes rumo a nossa evolução.

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