Final do ano chegando e vai logo batendo na gente aquela sensação de tentar medi-lo pelas conquistas alcançadas ou pelas perdas sofridas durante todo o processo em curso. Em geral, as perdas costumam ser sempre os nossos grandes marcadores que vão ganhando o centro das auto promessas para o ano que se inicia. A verdade é que, quase nunca paramos para refletir e entender quais foram os reais motivos que nos impediram de alcançar os nossos objetivos ou mesmo nos limitaram na nossa caminhada e nos fizeram tropeçar e desistir de alguns projetos. Para aqueles mais organizados, a lista de desejos que outrora era entregue ao Papai Noel, hoje está restrita aos rabiscos dentro de uma agenda que mal foi folheada ao longo do ano. Diante disso, o que fazer e como receber esse novo ciclo que já desponta no horizonte com toda a alegria e a força necessária dos inícios e dos nascimentos de todas as coisas? Como lidar com o que não foi no ano anterior e acolher o que poderá vir a ser no ano que se inicia?

A primeira coisa a ser feita é saber diferenciar quais são os nossos sonhos e quais são os nossos projetos dentro da lista para o ano novo. Olhando sob a perspectiva filosófica, o primeiro, os sonhos, estão ligados à dimensão do Ser ou da Alma, ou seja, estão diretamente relacionados à posse de Virtudes, por exemplo, uma pessoa generosa, disciplinada, doce, cortês, etc. Vale lembrar, que esses aspectos transcendem qualquer nível de materialidade. Já o segundo conceito, os projetos, estão diretamente relacionados ao ter, à aquisição de algo ou alguma coisa material como a posse de um carro, uma casa ou qualquer outro objeto material. A questão é que nem sempre temos o discernimento necessário para separar esses dois campos e por isso nos confundimos na condução de nossas metas.

Compreendido isto, vamos perceber que lá nos nossos rabiscos dos desejos, a maior parte dos itens se encontram no campo do ter e não do Ser. O problema aqui é que, quando se é, pode-se ter qualquer coisa, mas o inverso nem sempre é diretamente proporcional aos fatos. Sempre queremos um apartamento novo, a troca de um carro, uma viagem, uma reforma, ou qualquer outro objeto desejado, mas, nem sempre estamos preparados para planejar o orçamento, reduzir nossos custos e nos disciplinar financeiramente para a aquisição das nossas metas. Assim, em contrapartida, queremos cada vez menos Ser, e por isso, somos cada vez mais indisciplinados frente aos nossos objetivos e exercitamos cada vez menos a Perseverança, a Constância e a Vontade para executar os nossos planos. Diante desse contexto, vamos, aos poucos, nos reduzindo a um cemitério ambulante repleto de esqueletos do que um dia foram sonhos ou projetos coloridos, nos quais investimos muita energia e hoje esses fantasmas nos vampirizam e nos fazem perder, por vezes, a crença em nós mesmos. E chegando a esse ponto é muito difícil reverter o nosso quadro, tendo em vista que nos transformamos num poço de desesperança, insegurança e críticas lançando as nossas amarguras para o mundo.

 

Não esqueçamos que vivemos numa sociedade cada vez mais violenta e que as pessoas estão gradativamente mais brutalizadas. Isso é consequência de uma realidade onde os Indivíduos estão continuamente mais dispersos e desconectados de si mesmos. Isso leva-os a um processo de ansiedade e estados de angústias, as quais julgam que serão aplacadas pela aquisição de algo externo a si próprio ou da posse de algum objeto material. Assim, preso à falsa sensação da resolução rápida e prática dos seus problemas e na busca desesperada para preencher o vazio que toma conta dentro de uma vida sem sentido, consumir é a válvula de escape mais próxima a ser utilizada.

O mercado, por sua vez, tem sempre uma solução para resolver todos os problemas de nossa baixa estima, da nossa solidão ou dos nossos medos, basta escolher a opção no menu, escolher a forma de pagamento e, para melhor comodidade, o produto chega direto na nossa porta. O saldo disso tudo é que ficamos cada vez mais dependentes psiquicamente de elementos externos e progressivamente vamos nos tornando débeis enquanto Indivíduos.

O perigo é que nesse momento vamos nos tornando massivamente autômatos e fruto das circunstâncias, vamos sendo determinados pelas influências das emoções e, a depender do nosso estado de ânimo, iniciamos vários projetos e não terminamos nenhum porquê na verdade, esses projetos que acolhemos como nossos são apenas consequências de esquemas sociais, que por uma carência e/ou uma suscetibilidade os escolhemos para nos sentirmos mais seguros socialmente e aceitos no meio. Quando chegamos nesse ponto, entramos num ciclo vicioso de ano após ano que, ao final de cada ciclo de 365 dias, nos frustramos porque não logramos o que havíamos pretendido, mas para compensar esse estágio de frustração, fazemos outras tantas promessas a nós mesmos e até acrescentamos outras, atualizando a nossa lista que certamente não será sequer relida nos meses seguintes.

Portanto, só há uma forma de romper com esse ciclo vicioso, acredite! A forma é esta: comecemos a nossa lista para o ano novo não baseando-a nas metas do ter, mas nas do Ser, ou seja, na busca para ser uma pessoa melhor. Precisamos experimentar sermos cada vez melhores. Assim, vamos trocar a aquisição de um bem material em nossa lista por uma Virtude a qual temos dificuldade para exercitar. Por exemplo, a Disciplina, o Compromisso, a Perseverança, a Constância ou qualquer outra.

Não importa qual seja a Virtude, que possamos escolher uma para exercitar durante todo o ano de 2021. Essa postura nos ajudará a voltar para dentro e nos fará compreender que as nossas maiores limitações se encontram dentro e não fora de nós. Se não alcançamos as metas almejadas, foi porque nos faltou alguma Virtude, seja no Discernimento para a escolha do projeto, seja a Disciplina e a Constância para continuar o mesmo ou até, quem sabe, a Perseverança para sabermos qual a nossa finalidade. Só assim poderemos ter os êxitos esperados nos nossos sonhos e projetos. A Vida acontece dentro de nós e o que vemos aqui fora é só uma projeção manifestada das nossas raízes internas. Mudemos… Mãos à obra!

Receita de Ano Novo  

“Para você ganhar belíssimo Ano Novo

cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,

Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido

(mal vivido talvez ou sem sentido)

para você ganhar um ano

não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,

mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;

novo

até no coração das coisas menos percebidas

(a começar pelo seu interior)

novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,

mas com ele se come, se passeia,

se ama, se compreende, se trabalha,

você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,

não precisa expedir nem receber mensagens

(planta recebe mensagens?

passa telegramas?)

Não precisa

fazer lista de boas intenções

para arquivá-las na gaveta.

Não precisa chorar arrependido

pelas besteiras consumadas

nem parvamente acreditar

que por decreto de esperança

a partir de janeiro as coisas mudem

e seja tudo claridade, recompensa,

justiça entre os homens e as nações,

liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,

direitos respeitados, começando

pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo

que mereça este nome,

você, meu caro, tem de merecê-lo,

tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,

mas tente, experimente, consciente.

É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre”.

Carlos Drummond de Andrade 

 

 

 

 

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