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Todos nós temos amigos, ou pelo menos desejamos tê-los. Mesmo as pessoas mais isoladas e até aquelas que recusaram a convivência com outros Seres Humanos, já experimentaram a amizade. Nossos primeiros amigos, chamemos assim, são, sem sombra de dúvidas, os nossos pais. Em seguida surgem os colegas de rua, vizinhança, da escola, do trabalho…E dos momentos cotidianos surgem os amigos. Mas o que significa, de fato, amizade?

De acordo com a Sabedoria egípcia, por exemplo, só poderíamos chamar de “amigo” alguém que compartilha dos mesmos ideais e caminha na mesma direção que a nossa, de modo que a conduta deste jamais envergonha aqueles ao seu redor. Assim, a amizade seria fruto de um compartilhamento de Princípios e Valores e, acima disso, geraria a honra de fazer com que estas ideias fossem vistas em ações. Jamais, portanto, poderíamos chamar de amigo aquele que age mal, ou mesmo que nos humilha e calunia. Os verdadeiros amigos, segundo a tradição egípcia, poderiam frequentar a sua casa, pois seriam como parte da família e seus laços, mesmo que não estivessem ligados pelo sangue, eram fortalecidos pela conduta moral de suas vidas.

A amizade também foi tema de grande interesse aos romanos. Cícero, senador da república romana, dedicou um dos seus livros somente para tratar do assunto. Para o filósofo romano, uma verdadeira amizade ocorre quando duas Virtudes se reconhecem, ou seja, quando passamos a nos unir com nossos amigos pelas mais nobres e belas atitudes, não pelos vícios e ações vis. Desse modo, se levarmos essas formas de ver a amizade para a nossa vida cotidiana, talvez nem todos que chamamos de “amigos” atualmente sejam, de fato, dignos de representar a amizade. E, infelizmente, talvez nem nós mesmos possamos estar aptos a levantarmos a voz e nos considerarmos amigo de alguém.

Considerando isso, talvez nos faltem exemplos do que seria uma verdadeira amizade e, talvez por isso, não consigamos exercer nossa amizade de maneira consciente. Felizmente, tanto na vida real como nas grandes ficções, sobram exemplos de como se portam amigos nas mais distintas situações. Assim, falemos da amizade em uma das obras modernas mais famosas da literatura mundial: Senhor dos anéis.

Escrito entre os anos 1937 e 1949, “Lord of the rings” (Senhor dos anéis, em português) é a obra prima de J.R.R Tolkien, um dos maiores escritores de literatura fantástica. Formado em literatura, Tolkien ensinava inglês na Universidade de Oxford e foi autor de diversos livros que retratavam o mundo fantástico da Terra-Média, cenário em que ocorrem as suas aventuras. 

Para os que não leram o livro, em 2001 foi lançado o filme “O senhor dos anéis: a sociedade do anel”, tendo outras duas películas, formando assim a trilogia dos livros. Sucesso de bilheteria e vencedor de 18 Oscars, os filmes dirigidos por Peter Jackson e que deram vida às páginas de Tolkien se consagraram na 7° arte, tornando-se certamente um clássico para os amantes do cinema. Considerando isso, é notável que a história e narrativa de “Senhor dos anéis” ganhe fãs de diversas gerações, sendo uma história passada ao longo do tempo e, mesmo assim, consegue manter seus espectadores encantados, sejam nos filmes ou nos livros.

Mas, afinal, o que essa obra tem a ver com a amizade?

Dentre os diversos temas abordados na narrativa de J.R.R Tolkien, a amizade é, sem dúvidas, um dos tópicos mais interessantes que podemos notar. Rodeado de diversos personagens com características distintas, a amizade criada entre eles é o elo que garante, em grande medida, os sucessos e desafios que são levados ao longo da narrativa. Comecemos então pelo primeiro exemplo de amizade que podemos encontrar na obra: os personagens Sam e Frodo.

Vivendo no condado, os dois amigos são Hobbits, uma das muitas raças humanóides que Tolkien nos apresenta. Os Hobbits vivem de maneira pacata, sem envolver-se em brigas e guerras, porém, o destino da Terra-Média acaba nas mãos de Frodo, que precisa destruir o poderoso anel mágico que a tudo corrompe. Para essa missão, Sam é imbuído de jamais abandoná-lo, sendo seu fiel escudeiro nessa longa jornada. Os perigos enfrentados pelos dois personagens, porém, não são suficientes para quebrar o forte laço que os ligam. Um exemplo dessa fidelidade a amizade está no vídeo abaixo:

Sam mostra-se leal a Frodo e a missão que recebeu de Gandalf. Assim, podemos compreender que a força da amizade desses dois personagens está, principalmente, na lealdade quanto às suas ideias e propósitos. Mesmo nos momentos mais sombrios, em que a maioria dos “amigos” poderiam virar as costas ou mesmo trair, a força da amizade os mantém firmes. Frodo, por carregar o Anel, a ferramenta maligna e que a todos corrompe, ao longo da narrativa vai sendo possuído pelo desejo, mas ainda assim, a amizade com Sam é um dos pontos que o faz retornar a si, libertando-o de ser totalmente consumido pela corrupção do Anel. 

Sam e Frodo são um ótimo exemplo de como devemos entender a amizade, em sua definição mais pura. A nobreza das atitudes, mesmo nos momentos de extrema dificuldade, a fidelidade um com o outro e o pacto benéfico de jamais deixar-se abandonar ou abater. Há, porém, quem possa dizer que ambos são apenas personagens de uma narrativa e que, querendo nós ou não, jamais seus exemplos poderão ser vistos na vida real. 

Quanto a isso, entendemos que a amizade representada por Sam e Frodo são arquétipos e que devemos buscar alcançá-la ao máximo. Sabemos que nos dias atuais seria ilusório achar que viveremos tais ideias com toda a nossa “rede de amigos”, entretanto, em nosso círculo mais íntimo deveríamos fomentar tais Valores para chegarmos até uma amizade verdadeira, baseada nesses Princípios e Virtudes.

Além de Sam e Frodo, porém, a narrativa de Senhor dos anéis nos apresenta um outro formato de amizade, que apesar de também estar baseada na fidelidade e lealdade, tem uma dinâmica muito distinta. Estamos falando da “improvável” amizade entre Gimli e Legolas, respectivamente um anão e um elfo. De acordo com a narrativa de Tolkien, essas duas raças são rivais, assim, o primeiro encontro entre os dois personagens é marcado por brigas e desavenças. Alimenta-se, porém, ao longo da jornada para destruição do Anel, uma parceria entre os dois, transformando-os assim em amigos.

Sempre competindo um com o outro, à primeira vista os dois não parecem, de fato, que são amigos. A rivalidade entre as duas raças torna os diálogos e a própria convivência um desafio para ambas as partes, porém, os dois guerreiros superam suas diferenças e pontos de vista para unirem-se por um ideal maior. Além disso, a convivência “obrigatória” e as muitas batalhas fazem com que o laço de amizade, até então aparentemente frágil, se construa de maneira firme e inquebrantável. 

Fazendo um paralelo com a nossa vida, podemos pensar sobre quantas vezes repelimos as pessoas ao nosso redor por não terem a mesma “forma” que a nossa. Quando falamos em forma, estamos querendo dizer os traços da nossa personalidade, o nosso “jeitinho” que tanto somos apegados e, ao mesmo tempo, faz com que não aceitemos os outros. Porém, a amizade é um elo que transpassa qualquer tipo de forma, pois conecta-se com algo superior, as Ideias e Valores. Assim, por mais que não tenhamos os mesmos gostos, que nossos hobbies sejam distintos ou mesmo que estejamos vivendo em outro lugar, se nossos Princípios mantêm-se iguais, então é possível caminhar e criar um afetuoso laço de amizade com as pessoas que também compartilham dos nossos ideais.

A amizade, assim, transforma-se em um ponto de união e convergência de forças. Passamos a ser amigos não porque temos gostos em comum, mas sonhos e ideais em comum. Assim, a amizade supera a forma e causa transformações em nós, pois passamos a aceitar o outro como ele é. Essa marca da amizade, de superar as formas e peculiaridades de cada um, fica bem marcada no final da trilogia de Senhor dos Anéis, quando Gimli e Legolas estão cercados por uma horda de Orcs (outra raça que combate pelo lado do mal na História) e Gimli diz que nunca imaginou que morreria em combate ao lado de um Elfo. Em resposta, Legolas lança a pergunta: e ao lado de um amigo? Os dois se olham e uma risada, marca singular de uma grande amizade, salta de ambos os personagens e assim lançam-se na batalha.

Poderíamos citar tantos outros momentos e amizades ímpares que são desenvolvidas na trilogia de J.R.R. Tolkien, porém é possível aprendermos bastante a partir desses dois exemplos. Isso porque a amizade, tal qual uma árvore com diversos galhos, tem inúmeros caminhos para realizar-se. O importante, porém, não são os caminhos em si, mas o que garante que eles sejam percorridos: a nobreza de espírito, a busca das Virtudes e o compartilhamento de um Ideal comum. Um amigo, para ser chamado assim, é, antes de tudo, um Ser Humano de valor e honra exemplar. Constata-se, então, que nos dias atuais, em que temos uma rede com milhares de “amigos”, o que temos de sobra são “colegas”, “conhecidos” e tantos outros substantivos, mas que nenhum (ou quase nenhum) pode ser considerado um verdadeiro exemplo de amizade. 

Acabamos, por fim, relegando a amizade a uma zona de interesses e gostos, nas quais consideramos um amigo aquele que nos permite fazer as mais vis atitudes e não nos repreende. Como diz uma velha frase, isso não se trata de amizade, mas de um companheirismo vulgar, em que não nos impulsiona para o nosso melhor, mas que somente testemunha nosso afogamento na lama moral. Um amigo, então, sempre será aquele que buscará retirar de nós o melhor, nossa essência e que caminhará ao nosso lado nessa trilha. Para tanto, enfim, é fundamental desejarmos companheiros nessa saga humana, que naturalmente se aproximarão de nós por nossos Valores e serão fiéis a nós, assim como nós a eles, nessa eterna busca da nossa melhor parte. 

Que sejamos, então, tal qual Frodo e Sam: leais até o nosso último suspiro. Que possamos caminhar e arriscar nossas vidas por um Ideal comum e, acima disso, viver em nome dos Princípios que elegemos. Que esses Princípios sejam fortes e vívidos em nós para que a forma das outras pessoas não seja motivo para nos afastarmos uns dos outros, assim como Gimli e Legolas não permitiram que suas diferenças, por mais profundas que fossem, o fizessem desviar do caminho de uma sincera amizade. Se conseguirmos garantir isso, então, sem dúvida, poderemos olhar ao nosso redor e falar que conquistamos a amizade.

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