Há 135 anos, a maioria dos países do mundo param no primeiro dia do mês de maio em homenagem aos trabalhadores. Mas é preciso entender as causas que deram origem a essa celebração, refletir sobre as mudanças ao longo desse tempo e se questionar qual o sentido dessa homenagem nos dias de hoje. Se não fizermos isso, corremos o risco de cair em uma repetição mecânica e inconsciente, esvaziada de sentido, vivendo esse dia apenas como uma folga no calendário para aproveitar ou descansar. Esse jeito de lidar com a realidade histórica e social nos superficializa enquanto natureza humana. O que nos diferencia dos animais é justamente a capacidade de extrair sentido em tudo o que fazemos. Assim, quanto mais sentido profundo conseguimos alcançar em nossas cerimônias e comemorações, mais forte e mais evoluída se sobressai a Cultura Humana. Que valor tem este dia? Qual a natureza profunda do trabalho? Que este dia seja um marco para nos lembrar o quão elevado, humano e altruísta é o trabalho.

É com esse espírito que lhe convidamos a refletir sobre o Dia do Trabalho.  A origem da data remonta ao ano de 1886, quando na cidade de Chicago, Estados Unidos, ocorreu uma verdadeira convulsão social em razão das jornadas de trabalho humanamente insuportáveis, as quais estendiam-se nas fábricas por doze, quatorze e até dezoito horas de trabalho. Em torno desses excessos, havia um conflito de interesses muito acirrado: de um lado a classe numerosa dos trabalhadores e de outro os donos de indústria. O Estado, por sua vez, estruturado a partir da ideologia do liberalismo econômico, não intervinha na liberdade das indústrias. Na contramão dessa corrente crescia aceleradamente os nichos ideológicos ligados ao comunismo, anarquismo, anarco-sindicalismo, entre outros movimentos de esquerda. Espremidos entre a agressividade das indústrias em busca do lucro, a apatia estatal decorrente de sua posição liberal e a fantasia apaixonada dos movimentos de esquerda, encontravam-se as massas de trabalhadores desprovidos de proteção e vulneráveis a toda essa comoção.

É dentro dessa conjuntura que acontece uma das greves mais violentas da história, que ficou conhecida como os conflitos de Chicago e serviu como o estopim, na mesma época, para greves gerais em todo o mundo. Nesse conflito de Chicago, em uma noite que ficou conhecida como Black-Friday, vários líderes grevistas foram enforcados, enquanto muitos policiais foram assassinados e muitos trabalhadores se encontravam num confronto incontrolável. 

Diante desse cenário macabro, organizações do mundo inteiro resolveram firmar o dia primeiro de maio como um marco de luta organizada pela redução das jornadas, pelo direito a férias, pela proibição do trabalho infantil, e assim surgia o Dia Internacional do Trabalho.

Ao longo desses mais de 130 anos, a maioria dos direitos pelos quais tantos tombaram nesses confrontos foram constitucionalmente alcançados. Em nosso país, por exemplo, nossa Constituição Federal assegura em seu artigo sétimo o direito à jornada de trabalho nunca superior a oito horas, repouso semanal remunerado, preferencialmente aos domingos, gozo de férias, licença à gestante, seguro-desemprego, fundo de garantia, entre muitos outros, que eram um sonho para os pioneiros da Revolução Industrial do Século XIX.

Essa narrativa poderia nos levar à conclusão de que chegamos ao fim da história, pois o objetivo pelo qual tantos morreram lutando está alcançado, está nas leis e constituições dos países. Mas isso não é verdade. O século XXI trouxe mudanças na natureza do trabalho tão significativas que não conseguimos ainda dar conta delas, no sentido de compreendê-las em profundidade. Hoje, o centro do problema social dos trabalhadores não é exatamente a supressão de direitos, mas a falta de condições reais de torná-los efetivos. O empresariado brasileiro, por exemplo, tem levado a cabo uma marcha silenciosa na contramão das garantias constitucionais, em razão da sua falta de condições econômicas em mantê-las. Com uma taxa de desemprego superior a 14%, a mais alta dos últimos oito anos, a maioria dos trabalhadores do nosso país impõem a si mesmos jornadas muito superiores a oito horas diárias. A mão-de-obra tem sido cada vez mais autônoma, e alheia às leis trabalhistas, ou até na clandestinidade. Novas modalidades de ofício têm surgido como coach, influencer, personal, entre outros, e esses trabalhadores não podem e não querem seguir estritamente as determinações legais em relação a jornada, repouso, férias, etc. 

O século XXI nos lançou em um paradoxo em relação aos últimos 130 anos, pois o centro da gravidade do problema mudou, precisamos com urgência reelaborar nossa visão em relação à natureza do Trabalho. Nossas buscas na atual conjuntura precisam ser redirecionadas para outros focos. Precisamos repensar a competitividade, pois o fracasso do outro, aprendemos com a história, equivale ao fracasso de todos. Precisamos desenvolver um espírito colaborativo. Precisamos racionalizar gastos, direcionar o trabalho para o socialmente relevante e imprimir o Espírito Humano na produção. 

Mas acima de tudo, precisamos lançar luz sobre a natureza filosófica do trabalho, sem isso acabamos caindo na robotização, trabalhando, trabalhando, sem entender o por quê, nem qual a finalidade transcendente disso, reduzindo o cotidiano apenas à subsistência primária. Quando as grandes mentes da Humanidade olharam para o trabalho, como Platão, Hegel, entre outros, viram algo para além do mero sustento. Na obra “A República”, Platão coloca o trabalho como o ponto de partida para a cidade ideal e esta é, no sentido filosófico, o ponto alto da evolução. Assim, para o pensamento platônico, trabalho consciente é evolução. Não tem como o Espírito Humano evoluir se não for pela ação, pela produção, pela transformação do espaço. Ao longo do livro, ao erigir passo-a-passo a cidade, ele vai aumentando gradativamente as formas de trabalho. Inicialmente o trabalho se resumia a lavradores, construtores de moradias e confeccionadores de vestuários, mas à medida que a cidade vai crescendo, Platão vai introduzindo novos artífices como sapateiros, artesãos, ferreiros, depois comerciantes, e quando a cidade se sofistica muito, começam a surgir necessidades que transcendem à mera subsistência, do tipo, necessidade de trazer para aquela realidade a ideia pura de Justiça. Assim, quando o fim transcendente daquela sociedade se torna mais urgente do que as meras necessidades de sobrevivência, aí nasce o ideal de Estado. Toda essa evolução, até chegar aos altos ideais, tem como ponto de partida o trabalho e acontece através dele. Podemos dizer com isso que, para a filosofia antiga, a boa filosofia, o trabalho é um meio de evoluirmos, e evoluir é ter alcance para as ideias puras, elevadas e perfeitas como Justiça, Amor, Generosidade, Dignidade, entre outras.

Se hoje o trabalho não tem nos levado a esse grau de evolução é porque talvez o direcionamento que temos dado às nossas formas de produção tem sido desviantes do propósito Humano. Na República, o trabalho que conduz aquela sociedade à evolução é um trabalho que atende à necessidade do grupo. Assim, o lavrador cuidava da alimentação do grupo, enquanto sua moradia era construída pelo grupo dos construtores, e o grupo dos que confeccionavam vestuários dava conta de providenciar vestes para toda a sociedade. Percebe-se aí um sentido de colaboração mútua, assim como vemos nos padrões da Natureza. Observe uma sociedade de formigas ou uma sociedade de abelhas, elas têm um padrão de colaboração. Em uma sociedade com esse padrão, o trabalho de um complementa ou dá cobertura ao trabalho do outro, e assim todo o grupo funciona como uma Unidade. O que temos visto hoje, no mundo do trabalho, é algo parecido com um “salve-se-quem-puder”, é como se estivéssemos em um enorme naufrágio, com poucos botes salva vidas.

Já para o filósofo alemão Hegel, o trabalho aparece como uma fusão entre o Espírito Humano e a Natureza. Para Hegel, quando trabalhamos, algo sai de dentro de nós e encarna no objeto resultante da nossa produção. Nessa visão, o trabalho é a expansão do Espírito Humano na matéria. Esse jeito de pensar o trabalho fica bem perceptível quando nos deparamos, por exemplo, com as construções arquitetônicas de uma determinada civilização. Percebe que ali está, de algum modo, materializado o Espírito daquela cultura? O que dizer das construções do Antigo Egito? E o Pathernon da Acrópole ateniense? Ou as ruínas das civilizações desconhecidas pré-colombianas? Nesse sentido, vale a reflexão: que estados de consciência, que Espírito estamos imprimindo em nossas produções hoje? O que deixaremos para o futuro, ou qual futuro estamos construindo com o nosso trabalho?

O Dia do Trabalhador no século XXI precisa ter um sentido diverso daquele que lhe deu origem. É um dia para refletirmos sobre nossas atuais condições e buscarmos um caminho coletivo de superação. Nossos problemas parecem não se resolverem com reformas legislativas, ao que parece, precisamos mesmo de uma reforma no jeito de ver o trabalho. Hoje precisamos atuar no cenário real que se instalou. Precisamos pensar em um jeito de construir um modelo econômico que ofereça condições de sobrevivência a todos e não apenas a alguns. Que esta homenagem, neste ano, soe como uma convocação à reflexão sobre um novo jeito de lidar com a dimensão do trabalho, em uma sociedade completamente transmutada pela crise. Essa é uma mudança que só é possível a partir de uma mudança de perspectiva em relação ao trabalho. Em lugar de ver o trabalho como sacrifício, precisamos enxergá-lo como meio de evolução, como manifestação do Espírito Humano na matéria. Precisamos lidar com o trabalho como lidamos com coisas Sagradas, pois nada é mais Divino e Sagrado do que a atuação do Espírito Humano na realidade prática, natural e material. A capacidade de construir, inovar, expandir e servir ao outro é a grande potência que todos nós carregamos latente em algum lugar da nossa Alma. Que este marco temporal do Dia Internacional do Trabalho, na atual quadra da história, desperte em cada um de nós essa Renovação, esse novo olhar para o Sentido Profundo do Trabalho.

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