No livro hermético de Sabedoria Antiga, chamado Caibalion, fala-se sobre a Lei da Polaridade. Em linhas gerais, essa Lei mostra que no Universo tudo se expressa a partir de pólos ou dualidades. Estas, por sua vez, são dualidades aparentes, pois diferenciam-se pela falta ou excesso de algo. Podemos citar como exemplo o quente e o frio, que nada mais são do que percepções de uma variação de temperatura. Quando esta aumenta e chega em determinado grau, dizemos que está quente; por outro lado, quando essa mesma temperatura cai, dizemos que o clima “esfriou”. Desse modo, o quente e o frio são, em verdade, o excesso ou a falta de calor em um ambiente ou corpo.

A Lei da Polaridade, portanto, está ao nosso redor, nos mais variados contextos: do alto ao baixo, do pesado ao leve, da luz à escuridão, tudo se expressa por dualidade. Desse modo, toda nossa percepção de mundo está, em maior ou menor grau, direcionada a reconhecer opostos, pois isso facilita – e muito – a nossa compreensão do mundo. Até mesmo para criarmos nossa própria Identidade e nos reconhecermos enquanto um Ser Humano específico é preciso que exista o outro, ou seja, uma pessoa que não seja nós e que por contraste nós entendamos a nós mesmos.

Entendemos que isso possa parecer confuso em um primeiro momento, mas é essencial entendermos a Lei da Polaridade para compreendermos o assunto desse texto: a relação que existe entre o fácil e o difícil e como nos colocamos em relação a isso.

Como podemos notar, fácil e difícil é mais uma polaridade da natureza na qual nos relacionamos. Para além disso, estamos em constante diálogo com essas duas faces de uma mesma moeda, afinal, há coisas que fazemos de maneira fácil e outras que são custosas a conseguirmos realizar. De igual modo, falamos que existem pessoas fáceis de nos relacionarmos, que o “santo bate” na hora, assim como temos uma tremenda dificuldade em conseguirmos nos aproximar de outras pessoas, por diversas razões. 

Visto isso, será que o fácil e o difícil são absolutos, ou, assim como o quente e o frio, são graus diferentes de um elemento que não conhecemos bem?

Comecemos refletindo: quando falamos, por exemplo, que determinadas disciplinas ou atividades nos são fáceis, elas são fáceis do nosso ponto de vista. Provavelmente um engenheiro possa achar fácil fazer cálculos matemáticos, porém, um professor de história sinta-se desafiado a resolver equações e problemas de trigonometria. Do mesmo modo, o professor provavelmente achará fácil conectar diversos fatos históricos e relacioná-los, enquanto o engenheiro precisará de muito tempo para compreender a cronologia de certos momentos da História.

Esse exemplo deixa claro que o fácil e o difícil não são absolutos, mas dependem inteiramente de quem está considerando ambos. Ou seja, essa dualidade depende da percepção do Ser Humano em questão e por isso haverão coisas fáceis para alguns e dificílimas para outros.

Trazendo essa questão para o nosso dia a dia, essa percepção pode nos ajudar e muito em nossas relações. Todos nós, por exemplo, temos dificuldade de nos relacionar com alguma pessoa. Seja um chefe, um parente ou um colega de trabalho, há sempre uma pessoa que não “engolimos”, e dizemos que ela é uma pessoa “difícil” de se relacionar. Do mesmo modo, temos problemas difíceis de resolver e trabalhos difíceis a serem realizados, o que, quando observamos desse ponto de vista, nos parece um fardo grande demais para carregar.

Quando a vida é apenas dificuldade parece-nos que ela fica pesada, triste e repleta de dor, afinal, se tudo necessita de um grande esforço para se realizar não sobra tempo para a alegria e a Felicidade. Como lidar com isso?

Mais uma vez podemos aplicar a Lei da Polaridade para resolvermos nossa situação. Se há algo difícil para mim, a solução mais inteligente é observar quem faz aquela tarefa parecer fácil. Se eu não sei jogar futebol, por exemplo, qual seria a solução mais inteligente para aprender? Jogar e observar com quem sabe mais do que eu. Quem sabe jogar o faz parecer fácil, como os grandes jogadores que assistimos na TV. De igual modo, se não sei cozinhar, o meio mais inteligente é observar um chef cozinhando e aprender seus truques. 

Nota-se, portanto, que o primeiro passo para vencer as dificuldades da vida é ter um Mestre, ou seja, alguém que entenda mais daquilo do que você e que esteja disposto a lhe ensinar. Entretanto, será que apenas observar um jogador de futebol nos faria tão bons quanto ele? E apenas provando os pratos feitos pelo chef de cozinha estaríamos aptos a preparar um banquete? A resposta certamente é não. Isso porque a dificuldade não desaparece somente com observação e estudo teórico, mas é fundamental colocar-se a praticar o que aprendeu. Se não nos colocarmos em ação, tentando deixar o difícil mais fácil, nunca sairemos desse lado da polaridade.

Assim, observar e agir de acordo com o que aprendeu são os dois passos essenciais para que as dificuldades da vida passem a ser mais brandas. Partindo disso, podemos compreender que se temos uma pessoa “difícil” em nossa convivência precisaremos aprender a melhorar essa relação com quem já a torna fácil. Durante esse processo provavelmente perceberemos a necessidade de sermos Virtuosos para aprendermos a aproximar nosso coração destas pessoas, pois de nada adiantaria observar e agir, mas manter a crítica e os ressentimentos dentro do nosso peito. 

Pensando sobre isso, a filósofa Delia Stenberg Guzmán nos mostra uma visão belíssima do que é o difícil: 

“O difícil é o que nos coloca frente a frente com o que nos corresponde adquirir neste momento, com o que, parecendo uma dura prova, é, no entanto, o exercício indispensável para que as experiências abram passagem na consciência.”

Aqui enxergamos uma percepção mais profunda do difícil, própria de uma grande filósofa. O difícil não seria somente aquilo que ainda não fazemos bem ou adequadamente, mas uma prova para alcançarmos um outro estágio. Pensemos em nossos trabalhos: o que nos é fácil em nossas profissões é o que já conquistamos, que não nos apresenta mais desafios.

Já o que ainda não dominamos, ou seja, o que é difícil, é a parte que nos falta para sermos profissionais ainda melhores.

Levando isso para a nossa vida em geral, se encararmos o que nos é difícil como uma oportunidade de crescermos, seja em que aspecto for, mudaremos nossa visão e certamente buscaremos superar nossos desafios diários com mais afinco.

E quanto ao fácil? Será que é preciso ter cuidado e lições com o que já é fácil para nós?

Do mesmo modo que há tarefas difíceis para nós, também existem aquelas em que não temos tantas barreiras para superar. Esse é, em geral, um dos critérios que utilizamos, por exemplo, para escolher nossas profissões. Além de gostar do que fazemos, em termos gerais, tendemos a ir para as áreas que sentimos mais facilidade e, consequentemente, gostamos. Partindo disso, percebe-se que existe uma relação muito próxima entre a motivação e a facilidade, pois uma vez que desempenhamos bem uma tarefa isso renova nossa motivação em fazê-la. Colocando em exemplos, se resolvemos um problema matemático rapidamente e de forma correta, tendemos a querer mais questões para fazer e passamos a seguir resolvendo-as à medida em que vamos acertando. 

Isso é interessante pois seria um meio inteligente de desenvolvermos nossas atividades diárias, uma vez que ela nos estimula a continuar progredindo. Entretanto, de modo geral, não agimos assim. Acabamos por gastar muito tempo nas coisas que nos são difíceis e esquecemos – ou não sobra tempo – para realizar aquilo que facilmente desenvolveríamos muito mais. Por não entendermos os benefícios que poderíamos tirar do fácil tornamos ainda mais difícil as tarefas que já não nos agradam.

Se no que nos é difícil devemos ter alguém que nos ensine, nas tarefas que já desempenhamos bem podemos doar essa habilidade para diversas pessoas e nos colocarmos como instrutores para os que não sabem. Seja ensinando, sendo exemplo ou simplesmente refinando e trazendo mais qualidade ao que faz, aquilo que nos é fácil abre um leque de oportunidades para ajudar os demais e nos melhorarmos ainda mais a partir do que somos bons. 

Se você é uma pessoa que faz amigos facilmente e tem boas relações, por que não ajudar aquele colega mais introspectivo? Se é excelente em esportes, pode dar dicas e treinar com o amigo que está apenas começando sua jornada no mundo fitness. Assim, nossas habilidades são colocadas à serviço do mundo e possibilitam uma nova visão para essa relação de fácil e difícil, sendo ambos campos de aprendizado e evolução constantes.

Por fim, o fácil e o difícil não são pilares imutáveis. Certamente cada um de nós temos habilidades, talentos e gostos distintos, o que torna fácil certos aspectos da vida e difícil outros, porém eles não devem ser encarados como bênçãos ou maldições. As coisas, no final das contas, são o que são. O que nos cabe é evoluir dentro do nosso processo, ajudando cada vez mais o máximo de pessoas em nosso caminho. Assim, fácil e difícil se tornam a mesma face de uma única verdade: a Evolução Humana.

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