Não somos perfeitos e sabemos bem disso. No entanto, se tivermos de nomear nossos defeitos, teremos muita dificuldade em fazê-lo, pois não nos conhecemos tão bem assim. Quando temos a chance de enfrentá-los, frequentemente fugimos. E, quando somos obrigados a responder por nossas falhas, comumente nos justificamos: “Meus pais eram assim”,  “tive uma criação difícil” e então transferimos para alguém a responsabilidade. 

É claro que gostaríamos de viver num mundo de paz, sem guerras e apenas com o mínimo necessário de conflitos para nossa evolução, mas nem sempre isso se torna claro em nossas ações. Se pudéssemos voltar no tempo, por exemplo, não perderíamos a chance de fazer com que nossos pais fossem diferentes conosco, mesmo que, na prática, hoje nos vejamos repetindo com nossos filhos os mesmos comportamentos, ou que estejamos nos esforçando tanto para nos tornar o exato oposto do que eles foram, sem no entanto entender que nenhuma dessas é a solução. 

Tentar pagar com a mesma moeda, isto é, buscar devolver ao mundo exatamente o que recebemos como forma de compensação pelo sofrimento que passamos, não chega nem perto da verdadeira justiça que pensamos exercer com isso, mas se assemelha muito mais com uma vingança, fria e destrutiva. É curioso perceber que, mesmo que o mundo tenha mudado tanto desde que o homem surgiu sobre suas terras, mesmo que já tenham sido maioria os que acreditavam que a verdadeira justiça deveria ser “olho por olho, e dente por dente” como propôs Hamurabi há tanto tempo, ainda hoje não somos capazes de entender completamente que, se seguirmos mesmo esse conceito, no final “o mundo acabará cego”, como alertou Gandhi.

Sabemos que não é fácil seguir um caminho que, por vezes, não foi trilhado pelas pessoas com as quais convivemos, que não vimos um exemplo prático, mas que é necessário. Formado por três aspectos essenciais na nossa caminhada humana: despertar, transformar e transmutar. 

Despertar é reconhecer que a verdade existe e que precisamos buscá-la. Somos todos parte de uma unidade, algo maior, comum a tudo e a todos. Assim, o bem só pode ser encontrado naquilo que nos une, ao contrário do que nos afasta. Temos a urgência de empreender essa busca pela sabedoria que transforma ódio em compaixão, tristeza em gratidão, indiferença em amor. 

Viver não é fácil e isso nunca foi um segredo, mas recorremos à máxima de que “não há manuais para a vida”, quando na verdade existem, como o Enchiridion, conhecido popularmente como “O Manual de Epicteto”, ou, ainda, as famosas “Meditações a Mim Mesmo” do imperador filósofo Marco Aurélio. Sim, existem, mas não os lemos, ou não depositamos neles nossa confiança, em detrimento da própria experiência. Então, de que adiantam todos os avanços da humanidade ao longo dos tempos, se, quando tivermos uma missão tão importante como a de viver, começarmos nossas buscas do zero, sem considerar as descobertas feitas pelos sábios do passado?

Transformar. Mudar o passado é impossível. O que fazemos em nossas mentes todos os dias, é interpretar de formas diferentes o que aconteceu, na esperança de encontrar alguma versão que nos agrade mais. Nos transformar é fazer as pazes com o que passou, perdoando o que ainda carrega culpa, deixando pra trás o que precisa morrer, e trazendo conosco a semente do que precisa nascer. O mundo que não é semeado, jamais brotará para que o vivamos, então, buscar as mudanças hoje que farão do futuro o lugar onde gostaríamos de estar, é a verdadeira transformação.

Mas, em alguns casos, simplesmente a mudança de um jeito de lidar com as coisas ou um hábito qualquer podem não ser suficientes para esse plantio. Às vezes, o solo é infértil, mas nem por isso a semente deve morrer junto. Transmutar nossas vidas é o mesmo que retirar essa semente já plantada, na maioria das vezes já brotada, com muitas falhas, muitas fraquezas, cuja poda já não surte mais efeito, e levar para um jardim que possa recebê-la e potencializar toda sua beleza.

Todos estamos aprendendo alguma coisa e todos estamos passando por alguma dificuldade. Então, não nos cabe julgar e sentenciar o que passou ou quem poderia ter sido melhor conosco, mas é nosso papel ser a pessoa que não foram para nós. O bem não florescerá no ódio, no remorso, ou na vingança. Precisará se espalhar com o amor, o perdão e a resiliência. Somente assim poderá tomar todo o mundo e transmutá-lo no maravilhoso jardim que todos desejamos ver. 

Não importa como foi a presença, ou mesmo a ausência, de seus pais, professores ou familiares em sua vida. Seja agora o que a humanidade mais urgentemente precisa. Se torne uma pessoa melhor, não apenas por você, mas também pelos que erraram no passado, e, principalmente, pelos que sofrerão no futuro se não formos capazes de perdoar. Seja e faça o bem.

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