Há muito tempo se fala que, na vida, tudo está integrado. Como um complexo de sistemas interligados para todas as partes, a Terra, os mares, a fauna, a flora, o céu, as galáxias, os sistemas solares, todos os seres vivos e, até mesmo, todos os átomos que giram atordoados em torno da luz do Sol. As tradições humanas mais antigas, como a do Tibet, chegaram a afirmar que se há uma realidade possível, esta é una por essência, e o que vemos como separado é apenas fruto de uma ilusão criada pelo mau posicionamento de nossa consciência individual.

Essa ideia começa a fazer mais sentido se olharmos para o corpo humano e observarmos que todo o seu funcionamento se dá não só por um elemento, mas por milhares de células, variados sistemas e órgãos, que juntos põem e dão movimento a esta máquina complexa que é a vida humana. Diante dessa constatação, a depender de como olhamos para um indivíduo, podemos vê-lo como um ser uno ou como um ser múltiplo. O mais interessante é ver o ser humano para além de sua aparente multiplicidade, e para isso, necessitamos ir além do seu físico.

A Natureza é mestra em nos ensinar as suas verdades, ela nos dá lições o tempo todo. Uma delas é a máxima sobre a importância de compreendermos a unidade da vida. Assim, como numa engrenagem, todos os fatos, acontecimentos, experiências passadas, presentes e, possivelmente, futuras parecem estar unidas por um único fio condutor. Para os filósofos estoicos, como o romano Sêneca, tudo na existência tem uma finalidade e necessidade, e essa necessidade está intimamente ligada a nossa necessidade de evolução de consciência. É assim no que concerne ao indivíduo, é assim no que se diz respeito à vida coletiva e social. À medida que compreendemos essa unidade por trás da multiplicidade e ampliamos os matizes de nossa consciência, superamos as nossas provas e adversidades e passamos para os próximos estágios evolutivos.

Mas é claro que enxergar a vida por essa ótica nem sempre é tarefa fácil para nós que surfamos na superficialidade dos fatos e dos acontecimentos, uma vez que somos produto de uma sociedade muitas vezes massificada e, consequentemente, carregamos conosco uma cultura de pouco aprofundamento e quase nenhuma reflexão genuína sobre a Natureza. Alheios de nós e do mundo que nos cerca, passamos a meros espectadores dos joguetes existentes a que somos submetidos e mal enxergamos a caótica e fragmentada realidade material.

Por outro lado, além do baixo nível de reflexão a que estamos acostumados, outro fator que nos impede de perceber a integralidade da vida advém do nosso modelo socioeconômico, o qual adotamos em sociedade. Tendo em vista que não podemos negligenciar que elegemos como valores predominantes para o “sustento” de nossa teia social o individualismo e o egoísmo que, por si só são valores, ambos não são só perigosos para a condição humana, mas perniciosos e inviáveis para a manutenção da harmonia social. Quem de nós poderá negar que dentro de si há um germe de “competição” em detrimento da cooperação? O problema é que a nossa sociedade não alimenta, mas nutre formas que ardilosamente vão pautando a nossa experiência humana. Então, a nossa identidade vai sendo construída a partir de artimanha que leve a tirar vantagens sobre o outro e passa a desconsiderar o outro e a existência de uma única humanidade. 

Nessa ordem, a nossa educação social nos ensinou a desejar e a sonhar com o topo, com o primeiro lugar em tudo, não pelo prazer de superar as nossas debilidades, mas pelo ardiloso prazer de nos sentirmos melhores ou maiores do que os demais. Degladiamo-nos para fazer uma corrida insana que não sabemos onde queremos chegar. Buscamos construir e conquistar as coisas não para serem compartilhadas com os nossos semelhantes, mas para serem apreciadas por eles e, se tal conquista provoca no outro um sentimento de impotência e debilidade, é possível que tal situação nos traga um prazer infame e equivocado de poder sobre os demais. E de onde vem esse nosso gosto pelo prazer mórbido? Certamente, não da essência que nos une, mas dos instintos que nos separa.

Pois, se todas as coisas existentes no universo convergem para a grande unidade e todos os elementos de nosso corpo se integram para gerar vida, a competição entre os indivíduos pode gerar tudo, menos harmonia, integração para a experiência humana. Imaginemos, mesmo que por um minuto, se de repente o nosso sistema endócrino resolvesse competir com o nosso sistema cardiovascular ou respiratório? É bem provável que teríamos como consequência toda a ordem de problema para manter a homeostase de nosso corpo. Então, se usarmos tal exemplo para uma analogia social, como manter um tecido social unido e saudável, se os seus fios (individuais) estão esgarçados, fragmentados e preocupados apenas consigo e não com o todo?

Tal contexto nos leva a crer que há algo de muito errado com nosso posicionamento, enquanto indivíduo, no momento histórico atual. Não podemos continuar nos comportando como se fôssemos o centro do universo e todos os demais existissem para nos servir, não podemos continuar contaminando os rios, os mares, acabando com as florestas ou consumindo como se tivéssemos um planeta de reserva. Não estamos separados nesta existência, mas unidos pela própria condição humana e, se não tomarmos as medidas necessárias, é possível que deixemos às próximas gerações problemas nada fáceis de se resolver.

Diante de tudo o que foi apresentado acima, é vital superarmos a nossa heresia da separatividade, como bem disse a filósofa russa Helena Petrovna Blavatsky. Não há “eu”, mas “nós”, ou seja, só há uma única humanidade vivenciando sua experiência através da multiplicidade das experiências individuais. Dessa forma, se um indivíduo age apenas em nome de si, essa ação afetará toda a coletividade e impactará toda a experiência humana, seja esse indivíduo consciente ou não. De forma objetiva, pode-se vencer a separatividade buscando a fraternidade universal com todos os seres vivos. Entretanto, tal harmonia só é possível quando primeiro se conquista uma unidade dentro de si, quando se consegue viver de forma coerente o que se pensa, o que se sente e o que se faz. Esta é a tão cara harmonia individual, à qual os gregos clássicos chamavam de Ética.

Por fim, quando compreendemos que há uma necessidade de se buscar uma Ética interna pautada em valores universais — como Bondade, Coragem, Amor etc —, e quando nos esforçamos e conquistamos algum grau neste sentido, naturalmente, percebemos que é possível também lutar para conquistar uma unidade fora com os demais semelhantes. Como disse o filósofo Confúcio, a nossa relação social é fruto de nossa ética interna, e é por isso que os conceitos de indivíduo e sociedade são faces de uma mesma moeda.

Talvez, no momento, o nosso maior desafio, enquanto experiência humana, seja a conquista da fraternidade universal. Assim, a superação de todas as formas de nossos egoísmos não é só importante, mas também vital para que possamos avançar nas próximas experiências. Vale lembrar que possuímos egoísmos em todos os planos de nossa existência e o egoísmo no plano espiritual é ainda mais danoso e ardiloso do que no plano material. Pois, embora se propague por qualquer esquina sobre os planos de salvação individual, é preciso que fique claro que não existe salvação individual sob uma perspectiva de evolução humana. Como Jesus afirmou em alguns de seus diálogos, os homens se libertam em comunhão, ou seja, toda e qualquer superação ou saída é sempre pela via coletiva. Desde os tempos mais remotos, as tradições antigas já nos alertaram que a humanidade só passará para uma outra etapa evolutiva depois que todos os indivíduos compreenderem que fazem parte de uma mesma experiência. Daí, talvez, derive a máxima tão comum que usamos em nosso dia a dia – juntos somos mais fortes!

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