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Você já ouviu a frase “no mundo atual o dinheiro é Deus?” Para os religiosos essa pode parecer uma frase um tanto quanto ofensiva, porém devemos refletir um pouco sobre seu sentido. É inegável a importância que damos hoje aos nossos recursos, de modo que seria impossível sobreviver no mundo atual sem dinheiro. É através dele que compramos nossa comida, pagamos nossos bens de consumo e realizamos os nossos prazeres. Sabemos que a maioria dos nossos desejos não são necessários para nossa sobrevivência, mas quem de nós não gosta de realizá-los? Por isso nos é, nesse momento, impensável imaginar um mundo sem a lógica econômica. 

Mas por que comparar o dinheiro com um Deus? Considerando nossa História Ocidental, durante a Idade Média, o elemento central da civilização era a religião e a doutrina cristã. Acordava-se para realizar os desígnios divinos e, antes de dormir, depositava-se os pensamentos em Deus, nos atos que fizemos de correto e nos erros que cometemos, de acordo com a perspectiva religiosa. Dito isso, comparando com nossa sociedade atual, não é exatamente o que fazemos com o dinheiro? Quem nunca perdeu o sono com alguma conta atrasada ou buscou fazer algumas horas extras para acumular mais dinheiro? Em geral, acordamos, vivemos e dormimos pensando somente no que podemos comprar com dinheiro e o quanto precisamos dele. Por isso, a afirmação de que o dinheiro é Deus não é absurda como imaginávamos.

Partindo dessa perspectiva, como devemos nos posicionar frente a essa realidade? Certamente não podemos abrir mão desse recurso fundamental para nossa vida se quisermos viver inseridos na sociedade comum. Logo, não seria lógico aprendermos a lidar com o dinheiro, visto sua importância? Acreditamos que sim, e por isso vamos falar um pouco sobre educação financeira.

Antes de tudo, é preciso alertar que esse não é um texto sobre métodos e técnicas de educação financeira. Como uma gota que gera uma poça d’água, é preciso ir às causas que geram o nosso descontrole nesse aspecto da vida para que, assim, possamos entender o valor da educação. De nada adiantaria passar técnicas e formas de economizar se não entendermos as raízes que nos levam a gastar mais do que precisamos ou mesmo ganhamos. 

Sendo assim, para entendermos finanças é crucial entendermos nós mesmos. A primeira pergunta que devemos fazer quando pensamos sobre educação financeira é em que gastamos o nosso recurso. Há, por exemplo, pessoas que passam grande parte da vida acumulando dinheiro para poder fazer viagens, enquanto outras buscam investir em imóveis e outros bens; há ainda aqueles que nada poupam e gastam tudo que ganham com os mais diferentes tipos de prazeres. Por que fazemos isso?

Entender o modo como gastamos os nossos recursos é, antes de tudo, compreender um pouco sobre os nossos desejos e a própria felicidade. É senso comum o pensamento de que seremos felizes à medida que possuirmos coisas. Quem de nós não fica feliz quando vai no seu restaurante favorito ou quando compra uma roupa nova, um celular novo? O que nos leva ao consumo é, em última instância, a sensação de felicidade que vamos possuir. Essa felicidade, entretanto, está presente nos mais diferentes aspectos da vida, que são distintos, desde uma apreciação de uma boa música ou um momento na natureza, que em nada nos custam, até uma viagem cara ao redor do mundo. 

Pela ilusão de que só seremos felizes vivendo alguns destes prazeres, submetemo-nos à busca incansável de dinheiro para custear o alto preço desses momentos de felicidade. Por isso precisamos nos perguntar sobre o que nos faz verdadeiramente felizes e se é, de fato, através da acumulação de riqueza que chegaremos nessa felicidade. Uma vez que tenhamos isso em mente, poderemos entender a causa que nos leva a gastar tanto e, por vezes, de forma imprudente os nossos recursos.

Mas o que exatamente isso tem em comum com o tema de educação financeira? Basta entendermos que o termo “educação” vem do latim educare, que nada mais é do que “eduzir”, ou tirar de dentro. Se usamos atualmente o dinheiro como um meio para atingir a felicidade, é preciso, portanto, conhecer o que nos faz felizes. Educação financeira, portanto, é acima de tudo um autoconhecimento para que seja possível planejar e gerir da melhor maneira os nossos recursos. Dito isso, pensemos: será que a forma como lido com meu dinheiro reflete um aspecto da minha personalidade?

Devemos iniciar essa reflexão pensando sobre nós mesmos. Somos compostos por diversos aspectos, os quais diversas tradições humanas tentaram traduzir. Para os gregos, um ser humano possui três partes: Nous (a razão), Psique (emoções e pensamentos) e Soma (corpo físico). Já para os hindus esses elementos eram no número de sete. Entretanto, em essência, pode-se dizer, a grosso modo, que todos nós possuímos aspectos mais objetivos e outros mais sutis, que não são visíveis, mas que estão presentes em nossa vida tanto quanto o que podemos tocar e sentir.

Coloquemos em exemplo: Nossos pensamentos não podem ser tocados, vistos ou detectados por nenhum meio físico até que ele seja expresso através da fala, escrita ou ação. Mesmo assim, não há dúvida de que ele existe e é uma parte essencial do nosso Ser, muitas vezes sendo o responsável por diversas decisões e formas de agir no mundo. Acontece igualmente com as emoções, que não podem ser detectadas pelos outros, mas internamente nos preenche de maneira tal que é impossível pensar em viver sem elas. Desse modo, é inegável que existem componentes para além do físico e, portanto, devem ser considerados quando falamos de personalidade.

E como esses aspectos mais sutis de nossa personalidade interferem em nossa saúde e educação financeira? Basta pensar nas vezes que compramos algo por impulso, levados por uma emoção. Do mesmo modo, ocorre quando estamos em uma festa e acabamos consumindo mais do que o necessário e, consequentemente, gastando mais do que o previsto. No fundo, o que causa o descontrole financeiro não é uma má gerência, mas sim a falta de controle sobre esses aspectos mais sutis. Assim, somos levados pelos nossos impulsos e desejos, sem saber discernir o útil e necessário do que que é totalmente dispensável.

O mesmo ocorre quando refletimos nossa relação com a aquisição dos nossos recursos. Em geral passamos grande parte do tempo trabalhando para conquistar nossos salários, não é verdade? Quando passamos a ganhar nosso próprio dinheiro é uma tendência natural valorizá-lo, pois sabemos o quão difícil foi adquiri-lo. Em nossas fases infantis, em que a grande maioria das pessoas não trabalha e seu sustento é feito pelos pais, essa preocupação não existe. Por não saber valorizar o trabalho de outros – e às vezes nem mesmo o nosso -, acabamos gastando de forma irresponsável todo o nosso recurso. Nesse sentido, não somente o descontrole de nossa personalidade é o responsável pelo estrago financeiro que causamos em nossa vida, mas também a falta de percepção quanto ao valor do trabalho em que atuamos. Essa inconsciência é, no fundo, o grande mal que assola nossas vidas, uma vez que ela nos faz cair em armadilhas que sequer imaginávamos que existiam.

Por fim, podemos perceber como é fundamental uma educação financeira como parte da formação de nosso caráter. Quando aprendemos a controlar nossos impulsos, a saber discernir o que é justo e necessário do que é somente um desejo passageiro, podemos galgar os primeiros passos para não ser refém do dinheiro, mas sim tê-lo como um grande aliado. Devemos lembrar, inclusive, que pouco adianta planilhas de gasto, técnicas para poupar dinheiro e aplicação de regras econômicas se, no fundo, não entendemos a razão pela qual buscamos consumir nossos recursos e em que estamos depositando nossa felicidade. 

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