Quem nunca mentiu que atire a primeira pedra. Todos nós em alguma situação já mentimos. Pequenas ou grandes, as mentiras fazem parte do nosso cotidiano: seja para evitar brigas, proteger alguém de uma verdade desconfortável ou por querer propositalmente fazer mal ao outro. A verdade é que, gostemos ou não, já escutamos ou contamos uma mentira em nossa vida. Quando crianças, era comum escutarmos de nossos pais que “mentira tem perna curta”, pois eles sabiam que nem sempre somos verdadeiros ao contarmos ou admitirmos alguma atitude que fazemos. 

Nossa cultura atual está mergulhada por essa incômoda verdade. Se observarmos com cautela perceberemos que até mesmo no calendário a mentira encontra-se presente e é celebrada, o famoso 01 de abril conhecido como “o dia da mentira”. Nessa data é comum passarmos trotes e fazermos pegadinhas com nossos familiares e amigos. A brincadeira, em síntese, resume-se em enganar os outros e evitar a todo custo ser enganado. Mais uma vez nossos pais, com seus sábios conselhos, nos alertavam nesse dia: “cuidado com o que te disserem hoje, pois é o dia da mentira”. Com esse aviso saímos de casa atentos e planejando que mentira vamos contar. Mas, afinal, como surgiu o dia da mentira e por qual razão sua data é o primeiro de abril? 

Para contar essa história precisamos retornar ao século XVI, mais precisamente na Europa do ano de 1582. Após a reforma do calendário Juliano feita pelo papa Gregório XIII a maioria dos países europeus passaram a seguir a recomendação das novas datas. No novo calendário, chamado de Gregoriano e utilizado até os dias atuais, o Ano Novo é celebrado no dia 1° de janeiro. No calendário Juliano, porém, a celebração para a passagem do novo ano se dava em abril, no dia primeiro do mês.

A mudança das datas causou uma disputa entre as pessoas: existiam aquelas que seguiam a recomendação do Papa e adotavam o novo calendário, porém, outras não gostaram dessa transição e por muitos anos ainda celebravam o Ano Novo de acordo com o calendário Juliano. Como consequência dessas posições, as pessoas que não aceitavam a mudança de calendário passaram a ser ridicularizadas, sendo vistas como tolas. Nessa data, portanto, elas recebiam “presentes” inusitados e convites para festas falsas. Com o tempo, tornou-se uma cultura pregar peças nas pessoas. Nosso costume de criarmos pegadinhas inventando mentiras no 1° de abril vem desse período.

Para além da história, devemos refletir sobre o impacto que o ato de mentir causa em nossa vida particular. Há pessoas, por exemplo, que sofrem de Mitomania, que nada mais é do que a obsessão em mentir. Outras, entretanto, tornam-se extremamente desconfiadas após descobrirem que caíram em uma mentira. Em geral, quando somos enganados ou descobrimos que faltamos com a verdade nos sentimos envergonhados, pois a mentira, por mais que esteja enraizada em nossa cultura, não é uma conduta socialmente aceitável. Um mentiroso, definitivamente, não é uma pessoa de confiança. Porém, insistimos: quem de nós nunca mentiu?

As famosas “mentiras necessárias” se enquadram nas inverdades socialmente aceitas. A sua premissa é bem clara nesse sentido: há situações em que o melhor é contar uma mentira. Quando inventamos histórias para poupar as crianças de certas verdades, por exemplo, estamos usando a mentira com uma boa intenção e, portanto, elas se tornam válidas. Do mesmo modo, em nossas relações sociais geralmente não somos sempre sinceros, uma vez que algumas verdades, se ditas do modo errado, podem gerar desgastes na convivência. Nesses casos, portanto, não emitirmos nossa opinião mais sincera é uma forma de Cortesia. Quando uma pessoa nos pergunta, por exemplo, se ela está acima do peso ou se a roupa que está usando caiu bem, o que, em geral, respondemos? Mesmo que achemos que a pessoa esteja precisando perder alguns quilos ou que a roupa não combinou, tendemos a elogiar e não expressar nossa verdadeira opinião. Não utilizamos essas mentiras por maldade ou por desejarmos que a outra pessoa passe vergonha, mas sim por não achar que a sinceridade seja a atitude mais válida.

Visto isso, podemos entender um pouco como as mentiras não são sempre nefastas. Não queremos, entretanto, relativizar o problema: a mentira, seja ela necessária ou não, é um falseamento da realidade. A diferença está, talvez, em que há algumas vezes que fazemos pensando no outro e outras vezes pensamos apenas em nós. Usemos as crianças mais uma vez como exemplo: comumente elas inventam histórias para explicar o que fizeram de errado. Se não fazem o dever de casa é porque o cachorro comeu a atividade; se quebram algo em casa colocam a culpa no animal de estimação ou nos irmãos. O fato é que, em geral, usamos a mentira como um mecanismo de defesa contra as nossas debilidades. Quem nunca colocou a culpa de chegar atrasado no trânsito? Ou que não tinha visto a mensagem do chefe acerca de uma mudança de prazo? Poderíamos passar dezenas de páginas citando situações em que mentimos para nos proteger. Apesar disso, vivendo rodeados de mentiras, qual o valor da Verdade para nós?

Uma antiga frase advinda da filosofia tibetana diz que “não há nada superior à Verdade”. Em poucas palavras, isso significa que alcançar a Sabedoria exige ser verdadeiro, principalmente consigo mesmo. Falamos muito até aqui sobre as mentiras que contamos aos outros, mas não esqueçamos que a principal vítima desse mal somos nós mesmos. Quantas vezes escolhemos nos enganar, construindo teorias e histórias mirabolantes em nossa mente para justificar nossos erros? As mentiras, muitas vezes, justificam e guiam nossas vidas, limitando nosso raio de ação. Comparando a vida a um teatro, seria como colocar uma máscara e entrar em cena para atuar em um papel que, no fundo, não é o nosso. No cotidiano fazemos isso de maneira corriqueira: copiamos demonstrações de afeto, modos de pensar, agir e falar que, na realidade, não corresponde em nada ao que somos. Vivemos, portanto, uma vida baseada no que as outras pessoas querem que sejamos quando, dentro de nós, esconde-se nosso verdadeiro eu. No fim do dia, ao nos despirmos de nossas fantasias, resta perguntar: quem somos depois que a última porta se fecha atrás de nós?

Essa não é uma pergunta fácil de responder. A filosofia, por exemplo, se dedica a encontrar essa resposta há mais de 4 mil anos. Uma das chaves para responder sobre quem somos está, justamente, na busca da Verdade. Não há, definitivamente, como reconhecermos o que somos se não formos verdadeiros em nossas ações. Isso significa tirar todas as máscaras e enxergar nossa essência. Essa não é uma tarefa fácil e muitas vezes não estamos preparados para isso. Não à toa, constantemente escolhemos o caminho mais fácil, que é continuar interpretando um personagem e mentindo para nós mesmos, porém jamais nos realizaremos assim. 

A mentira, em um sentido mais profundo, funciona como uma fuga de nós mesmos. Certamente ela tem seu valor quando colocada no âmbito social, principalmente para não magoar outras pessoas. Não se trata aqui, entretanto, de mentirmos sobre algo que fizemos, mas sim de sermos gentis e corteses para com os demais. Ser verdadeiro, portanto, é diferente de ser “super sincero”. A verdade pode ser expressa de diferentes maneiras e contextos e, quando bem intencionada, deve ser feita sem machucar os demais. Para além disso, não basta querermos a Verdade apenas “fora”, em situações que envolvam outras pessoas. No fim, se não conseguimos ser verazes conosco também não conseguiremos ser com as pessoas à nossa volta. Quando isso ocorre, o dia da mentira não é somente no primeiro de Abril, mas todos os dias do ano. Nos esforcemos, então, para superar nossas debilidades. Não deixemos que nossa vida seja um faz de conta. Se assumirmos o papel principal nessa peça de teatro que chamamos de vida, poderemos receber de pé, ao fecharem as cortinas, os aplausos por termos interpretado nós mesmos.

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