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Todos nós queremos ser mais fortes. Mas, o que realmente significa a força? Normalmente, ao pensarmos nesse atributo da natureza, nos limitamos ao seu aspecto puramente físico, porém há diferentes níveis e tipos de força. De igual modo, muitas vezes relacionamos a força com algo rude, abrupto e ruim. Por exemplo, quando falamos que “algo foi feito à força” estamos dizendo que foi feito de maneira pouco gentil. Hoje, entretanto, nos propomos a refletir mais profundamente sobre essa questão. Para isso, recomendamos o vídeo abaixo, da professora Lúcia Helena Galvão.

Como bem explicado pela filósofa, a força está diretamente ligada à vontade, à capacidade de realizar o que se deseja. Essa ideia se apresenta em diferentes aspectos da nossa vida, desde o plano físico até a maneira como olhamos para os problemas diários. Por exemplo: se queremos mover uma cadeira, precisamos de força em nosso corpo para realizar a tarefa. Essa força, entretanto, depende da nossa energia e motivação para ser realizada. Assim, em um plano mais sutil, é fundamental que tenhamos também motivação para fazermos o que nos cabe. A força, portanto, não está expressa apenas no nosso físico, mas também nas nossas emoções e na energia.

A força também está nas nossas ideias. Afinal, o que é mais poderoso do que uma ideia? São elas que movem o mundo. Não por acaso, Platão afirmava que tudo o que existe no Universo nasceu das idéias ou dos arquétipos. De maneira similar, a sabedoria egípcia também atesta a favor das ideias ao dizer que o Universo é mental, ou seja, que tudo nasce a partir da mente. Em nossa vida prática, como isso se expressa? Pensemos no seguinte exemplo: quando queremos viajar, o que fazemos? Planejamos nosso itinerário, juntamos dinheiro, compramos as passagens de ida e volta, além de reservar hotel e achar uma data compatível em nossa agenda. A viagem física, portanto, começou bem antes. Em nossa mente, ao pensar e chegar à ideia de que desejávamos viajar, começamos a colocar em movimento todo o necessário para a realização desse desejo. 

Partindo disso, fica claro que a verdadeira força não está no nosso aspecto físico, pois apenas com ela não conseguimos mudar muito nossa realidade. Porém, quando elevamos esse atributo para o plano das ideias, percebemos que podemos bem mais. Entretanto, assim como grandes poderes nos exigem uma grande responsabilidade, é fundamental compreendermos, agora, quais as ideias que gostaríamos de ver no mundo. Devemos refletir sobre isso, pois a história nos prova que, em diversos momentos, quando ideias que não buscavam o bom, o belo e o justo ganharam força, causaram um grande mal para a humanidade. Os exemplos são inúmeros: movimentos como o Nazismo, por exemplo, nasceram de uma ideia; o Apartheid na África do Sul se originou de uma ideia de que as pessoas eram diferentes. Assim, para que tais ideias retornem ao nosso tempo, devemos fazer cotidianamente o exercício de refletir sobre as ideias que alimentamos e, de maneira direta ou indireta, colocamos nossa força.

Ao fazermos esse exercício, podemos perceber, de maneira natural, que é possível movimentar-se a partir da força de uma ideia, ou seja, de fazermos das ideias em que acreditamos a razão pela qual existimos no mundo.  Assim nascem os idealistas, os seres humanos que movem-se não por desejos pessoais, mas pela convicção e vontade de verem o mundo de acordo com aquilo que pensam. Essa força, que pode ser traduzida como vontade colocada em ação, forma os grandes homens e mulheres da história. Os exemplos são muitos: graças a uma ideia de igualdade perante a lei, Nelson Mandela conseguiu livrar seu país do Apartheid; graças a uma ideia de amor, irmã Dulce e Madre Teresa de Calcutá cuidaram de doentes e pessoas deixadas à margem da sociedade. 

É inegável perceber, portanto, a força que tinham essas pessoas. Por mais que seus corpos parecessem frágeis, havia – e ainda há – uma tremenda energia que nos impede de achá-las fracas. Mas, como chamamos isso? Como vimos, há diferentes tipos de força, desde o plano físico e objetivo, até a força de mover-se por uma ideia. Porém, há ainda um outro tipo de força, que se apresenta de modo sutil, mas que irradia sua verdadeira essência: as virtudes.

Virtude vem do latim, virtus, que significa justamente “força”. Segundo Aristóteles, as virtudes são a chave para a felicidade humana, pois a partir delas entraríamos no fluxo da natureza. Segundo a tradição, apenas os seres humanos podem desenvolver virtudes, pois somos os únicos a termos consciência. Desse modo, a virtude se expressa quando busco, conscientemente, construí-la. Assim, pode ser vista como um atributo a ser desenvolvido, e, quando conseguimos alcançar esse patamar, ele nos permite não ficarmos refém das situações externas. 

Pensando nessa perspectiva, a essência da verdadeira força humana está na sua capacidade de expressar virtudes. Porém, assim como, para nos fortalecermos fisicamente, precisamos de exercícios, disciplina e cuidados com nosso corpo físico, de igual modo, para desenvolvermos virtudes, é essencial exercitá-las. Significa dizer, em poucas palavras, que só poderemos ser virtuosos agindo como tal,. Não basta apenas pensar em ser, é preciso tornar-se. Considerando isso, não basta pensar em ser gentil, é preciso agir com gentileza. O mesmo vale para a justiça, a bondade e para qualquer outra virtude que busquemos desenvolver.

Parece-nos que a antiga lei da correspondência do Caibalion estava correta: assim como é em cima, é embaixo. Ou seja, a dinâmica necessária para desenvolver nossa força física é igual à que podemos usar para fazer aflorar nossas virtudes. Portanto, para chegarmos à essência da nossa força, é preciso disciplina, ritmo e o mais importante: querer viver tais virtudes. Por mais que este pareça ser um caminho árduo, não nos resta dúvida do quão forte uma pessoa virtuosa é. Pensemos, por exemplo, em uma pessoa paciente: ela controla suas emoções ao ponto de não deixar-se afetar pela irritação do outro, nem mesmo nas situações mais difíceis. Quando estamos próximos de alguém que tem verdadeiramente essa virtude, nos inspiramos na sua calma para a resolução de conflitos sem ficarmos presos a emoções negativas. Parece – e é verdade – que nada pode alterar a paz de tal pessoa. Nenhuma força externa, portanto, é capaz de fazê-la sucumbir e obrigá-la a agir de forma contrária à sua virtude. 

Podemos pensar em diversos exemplos com as mais distintas virtudes e ainda assim o resultado mostra-se similar ao que observamos. Se pensarmos verdadeiramente sobre essas questões, chegaremos ainda a uma verdade mais interessante sobre a força: ela se expressa internamente e externamente, mas a nossa força interna é muito superior à externa. Ao falarmos de “força interna”, entenda-se como as virtudes e ideais que nos guiam pelo mundo, nossas convicções. Já a força externa é tudo aquilo que pode nos acontecer e que não teremos poder para mudá-la. Se pensarmos, por exemplo, em um Giordano Bruno, monge da Idade Média que foi preso e morto por defender uma nova tese e verdade sobre o Universo, perceberemos que a sua busca pela verdade universal como um ideal humano foi muito superior às correntes que o prenderam. 

Mesmo que fisicamente enclausurado, por nenhum segundo o desconforto e situação indigna que viveu nos últimos anos o tirou do seu caminho, das suas convicções e virtudes. Ele continuou a refletir sobre a vida, o Universo e Deus, mesmo nas piores condições. Assim, as forças externas que o subjugaram não foram capazes de lhe roubar seus maiores atributos, o que demonstra uma força e uma coerência interna que poucas vezes vemos em nosso cotidiano. 

Sendo assim, podemos dizer que a força interna de manter-se fiel a si mesmo é, em resumo, a nossa maior ferramenta para vencermos tudo que o contexto que vivemos nos impõe. Nossas ideias e virtudes não estão sujeitas aos desafios que enfrentamos e, como diz o velho ditado, “são as únicas coisas que não podem nos tirar”. Se quisermos, portanto, sermos fortes e encontrarmos nossa essência, comecemos exercitando não apenas nossos músculos, mas, principalmente, nossas virtudes. Se assim o fizermos, ganharemos o maior de todos os poderes: o de controlarmos a nós mesmos.

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