Já imaginou viver em um mundo sem redes sociais? Nesse mundo não publicaríamos fotos esperando curtidas e comentários, muito menos estaríamos conectados a milhares de grupos nos quais receberíamos centenas de mensagens todos os dias. Nessa realidade quase distópica também não gastaríamos grande parte do nosso tempo observando a “vida” alheia a partir de postagens e compartilhamentos. Certamente viver em um mundo assim hoje em dia é um pesadelo para a maioria das pessoas e, mesmo que por poucas horas, isso foi uma realidade.

O “apagão” das redes, como tem sido chamado, foi um momento ímpar nos últimos anos, pois nunca havíamos ficado tanto tempo desconectados. O “bug” nas principais redes sociais durou cerca de seis horas, um recorde quando falamos de acidentes dessa natureza. Apesar de ser um tempo relativamente “curto”, a queda impactou fortemente o nosso modo de vida nessas poucas horas, gerando perdas econômicas, mas principalmente psicológicas. 

Não é exagero falar que o evento causou dano aos usuários mais ativos das redes sociais, principalmente às pessoas que trabalham e vendem seus produtos diretamente nos seus perfis na internet. Porém, um ponto mais preocupante está na saúde mental do grande público, pois o comportamento de algumas pessoas revelou o que, infelizmente, a maioria das pesquisas apontam há anos. As redes sociais, em última instância, causam uma relação de dependência tão grave quanto as drogas. Assim, os usuários mais afetados pela interrupção da atividade das redes passaram a apresentar, nesse curto período de tempo, sinais de abstinência.

Apesar de ter sido um evento fruto do “acaso”, chamemos assim, o apagão das redes nos mostrou como é urgente a discussão sobre os impactos da internet em nosso modo de vida. É nítido que não podemos abrir mão dessa ferramenta em nosso modelo social atual, afinal, estar conectado às redes nos traz uma grande vantagem na comunicação e agilidade em processos, sejam de cunho pessoal ou profissional. Nesse sentido, vinculamos nossa vida (em todos os seus aspectos) tão fortemente à internet que, de fato, ela passou a ser um elemento-chave para a nossa “sobrevivência social”. Isso significa dizer que, de maneira geral, a nossa sociedade não conseguiria sustentar-se caso as redes sociais e toda a “World Wide Web” parasse de funcionar permanentemente.

Não por acaso, nesse período em que somente algumas redes sociais saíram do ar, os usuários passaram a alarmar-se devido à falta de comunicação. Enquanto uns levaram o problema em tom de brincadeira, outros encontram-se desesperados com medo de perder suas conversas, fotos e vídeos. Assim, podemos perceber o quão dependentes estamos dessa ferramenta. Aceitemos ou não, é inegável que, assim como outros objetos e tecnologias, a internet e as redes sociais são, objetivamente, ferramentas que facilitam a nossa vida. Desse modo, elas não deveriam possuir tanta importância e muito menos nos desequilibrar tão facilmente.

Pensando sobre isso, podemos refletir sobre como as redes sociais, assim como todo o sistema de internet, se tornaram essenciais em nossa vida. Basta voltarmos um pouco no tempo, há 70 anos ou mesmo há um século, e perceberemos que nossos avós e bisavós viviam de maneira completamente distinta de nós. Certamente os tempos eram outros e, de fato, pouco existe daquele passado que outrora fora a nossa realidade. Apesar disso, é impactante perceber o quanto mudamos ao longo dos últimos 100 anos, pois conseguimos criar e desenvolver de maneira hábil uma tecnologia que facilitou – e muito – nossa vida cotidiana. Em contrapartida, nossa estreita relação com as máquinas tem nos roubado aquilo que nos é mais valioso: a nossa humanidade.

Não queremos dizer que estamos nos tornando máquinas, mas que a interação humana, nos seus mais distintos níveis, tem sido feita somente através da tela de celulares e computadores. O mundo virtual, gostemos ou não, é onde gastamos a maior parte do nosso tempo. Não precisamos de muitos exemplos para comprovar isso. Peguemos, nós mesmos, em um cálculo sincero, quanto tempo gastamos em nossas redes sociais? Provavelmente passamos algumas horas diárias somente para ficarmos “por dentro” dos principais acontecimentos do nosso “mundo”, ou seja, das pessoas que seguimos. Além disso, dispomos de mais horas em conversas em grupos que nunca chegam ao fim e que nos roubam ainda mais do nosso precioso tempo.

Um fator agravante nesse cenário é o fato de acharmos que a “convivência virtual”, chamemos assim, equivale às trocas de experiências do mundo real. Isso significa que, para grande parte das pessoas, não precisamos estar fisicamente com os outros, pois somente o fato de conversarmos através das redes já se mostra suficiente para criarmos laços profundos. Essa falsa percepção nos leva a um sentido oposto ao proposto pelas redes sociais, que foram criadas para encurtar as distâncias entre as pessoas. Ao invés de nos aproximarmos, acabamos por nos distanciar e interagir somente de forma fria e pouco empática. Somando esses fatores com o anonimato permitido pelas redes sociais, muitas vezes a ferramenta que deveria ser um facilitador na comunicação acaba se tornado um instrumento para destilar nossos rancores e preconceitos, nos separando ainda mais. 

Para além das fronteiras virtuais, há o mundo real, em que precisamos viver cotidianamente e interagir com outros seres humanos. Nossas relações, cada vez mais frágeis, apresentam-se como laços incrivelmente fáceis de serem desatados, pois acabamos nos tornando um número a ser contabilizado, não uma essência humana a ser integrada em nossa vida. As redes indicam, por exemplo, a quantidade de “amigos” ou “seguidores” que possuímos. Porém, o quanto sabemos de cada um deles? A banalização dessas palavras é um indício de que estamos nos afastando do verdadeiro significado do que seria a amizade, criando números como moedas de troca e influência no mundo virtual.

Assim, propomos uma reflexão sobre como seria viver, tal qual no passado, em um mundo sem redes sociais. Se o “apagão” de seis horas fosse, na verdade, de seis anos, quantos amigos ainda conservaríamos sem as redes? O que faríamos com tantas horas disponíveis? Como registraríamos os momentos especiais?  Esses são questionamentos relevantes e que nos possibilitam pensar a influência das redes em nossas vidas. Talvez chegaríamos à conclusão de que os milhares de seguidores que possuímos em nossas contas virtuais são, no fim, um número que só existe ali. Que os cinco mil amigos se contam nos dedos de uma só mão e esses, sim, mereceriam o nobre título de “amigo”.

O fato é que provavelmente isso não ocorrerá. As redes sociais continuaram existindo e dominando grande parte das nossas relações sociais, afinal, além de serem excelentes ferramentas, são, acima de tudo, fontes quase inesgotáveis de recursos. Atualmente o número de profissionais que trabalham exclusivamente pelas redes sociais só cresce. Visto esse cenário, cabe a cada um de nós buscar utilizar nossas redes sociais de maneira harmônica, uma vez que elas vieram para ficar e também gostamos de usá-las a nosso favor. Não se trata, entendamos bem, de criticar o uso das redes sociais, pois todos nós estamos diretamente ligados a elas, mas sim de não nos deixar dominar. Que as usemos tal qual um instrumento e que elas nos sirvam e não o contrário.

Assim, deixamos como um desafio pessoal o de desconectar-se por conta própria das redes. Não para sempre, mas, assim como quando aconteceu o “apagão”, que fiquemos algumas horas sem a necessidade de estarmos “online”. Dessa maneira podemos começar a exercitar a arte de (re)aprender a conviver. Quem sabe não notemos, ao viver o mundo real, que este é sempre um campo mais fértil e próspero para a experiência humana do que a vida por detrás das telas do virtual?

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