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Ressentimento é um conjunto de emoções constituído por um estado de espírito marcado por decepção, tristeza, revolta e, às vezes, autocompaixão, além de mágoa e rancor. Já imaginou o quanto isso é problemático para a saúde psíquica e física também? Mas isso é muito comum e afeta todos nós em maior ou menor grau. Assim, é indispensável pensarmos a respeito, ponderarmos sobre suas causas, suas consequências, suas funções no corpo psíquico e sobre como superá-lo.

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A palavra ressentimento vem do francês “ressentir”. O prefixo “re” dá uma ideia de intensidade ou reiteração dos sentimentos. Isso porque o ressentimento é marcado por um fluxo contínuo, circular, repetitivo e persistente dos mesmos pensamentos envoltos nas mesmas emoções, sendo que a cada repetição vai se tornando mais intenso.

Em termos práticos, esse tipo de estado de espírito vai se instalando em nós, geralmente quando somos atacados por alguma injustiça. Por exemplo, um trabalho intenso que fazemos e no final não é devidamente reconhecido, ou quando somos passados para trás a fim de que outra pessoa seja promovida em nosso lugar, ou ainda quando nossas expectativas a respeito de outra pessoa são frustradas. A decepção, a raiva diante da injustiça, o sentimento de ter sido lesado, vão nos conduzindo lentamente a esse conjunto de sensações e condições psíquicas a que se denomina ressentimento.

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Discriminação, preconceito, inveja, ciúme, luto, perdas imprevisíveis, tudo isso podem desencadear o ressentimento. Mas é importante que se diga que não é um determinismo, nem sempre que somos vítimas dessas agressões, ficamos ressentidos, mas há uma grande possibilidade de acontecer e quando acontece, há uma enorme dificuldade de identificar. Tem muita gente sofrendo dores psíquicas enormes sem saber que estão ressentidas e sem admitir essa possibilidade, pois na mentalidade atual predominante, ressentimento se confunde com fragilidade, o que é um grande equívoco. 

Só se ressente quem é humano, quem tem amor próprio, quem tem sensibilidade. Ressente-se quem tem metas, quem trabalha duro para alcançar algo, quem sabe a importância do bem-estar de si mesmo e dos outros. Uma pessoa fria, insensível e indiferente à vida dificilmente se ressente de algo.

A professora Alice MacLachlan, da Universidade York (Toronto, Canadá), afirma: “o que nos ressentimos revela o que valorizamos e o que esperamos de nós ou dos outros; pode também revelar o que nós consideramos como direito, isto é, como nossas expectativas de nossos arredores são organizadas e medidas”. Assim, o ressentimento não é de todo negativo, é preciso identificar os seus aspectos positivos. 

Se estamos ressentidos, esse é um bom momento para nos conhecermos. O ressentimento tem um potencial enorme de nos mostrar aspectos inconscientes e imperceptíveis de nossas regiões mais profundas. Se você está ressentido, tente jogar luz sobre o que desencadeou, observe que valores foram atacados: Por que a psique entrou em crise? Que valores tão importantes para ela estão em xeque? A busca por essas respostas precisa alterar algo no seu padrão de comportamento e nas suas atitudes diante da vida, só assim o ressentimento vai alcançar sua função positiva para o futuro. A função do ressentimento é despertar em você a consciência para algo que você precisa conhecer e mudar.

Para vencer um ressentimento é preciso reestruturar o padrão de pensamento a respeito do fato causador, do agente e de como ambos atuam dentro de nós. É também preciso mudar a postura diante da vida e reconstruir a visão do futuro no tocante àquela área ressentida.

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Por exemplo, uma pessoa que vem dando tudo de si em um trabalho, que tem tudo para crescer dentro da empresa e inusitadamente é passada para trás, e, para atender a alguma conveniência pessoal, outro é promovido em seu lugar. Imagine que essa pessoa, em razão disso, está ressentida, triste, tendo compaixão de si mesma e, ao mesmo tempo, raiva, rancor, tem vontade de virar a mesa, de explodir, brigar com tudo e com todos. A melhor coisa a fazer seria identificar o estado psíquico de ressentimento, analisar cuidadosamente todos os fatores que lhe deram causa, perceber que valores foram agredidos e injustiçados, por assim dizer, e, em vez de sentir ódio dos seus agressores, lamentar que eles tenham desperdiçado valores tão nobres em si. Além disso, procurar potencializar ainda mais esses valores, sendo certo que naturalmente a vida se encarregará de criar condições para que tais valores renasçam e aflorem  como uma semente plantada em um terreno fértil.

Esse tipo de autoanálise e de tomada de atitude é fundamental na superação do ressentimento. Se o ressentido não seguir esse caminho, se não desvendar o emaranhado psíquico de emoções, ódio, raiva´, rancor e injustiça que o envolve, e se não tomar uma posição ativa diante disso, a tendência é o ressentimento começar a somatizar-se em patologias físicas: hipertensão, queda da imunidade, envelhecimento precoce, problemas digestivos e, por conseguinte, redução da expectativa de vida. 

Então, o melhor remédio é superar o ressentimento e aprender a lidar com o fenômeno. Se estiver muito fora do seu alcance, procure um profissional da psicologia. Se estiver causando desequilíbrios graves e for recomendado pelo terapeuta e prescrito pelo psiquiatra, faça uso de medicação. É uma fase, é cíclico, mas se não cuidar pode ficar muito pior.

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O ressentimento pode afetar as relações, diminuir a auto-estima, a produtividade, a criatividade e pode lançar o indivíduo em uma rota de fracasso, mas ao mesmo tempo, pode ser uma excelente oportunidade de crescimento e de mudança profunda no jeito de existir. A superação de um ressentimento pode proporcionar saltos que jamais teriam sido possíveis, caso nunca tivéssemos passado pela experiência. Então, não vamos nos ressentir do ressentimento, ou seja, não nos condenemos por termos caído em um estado de ressentimento, vejamos como uma oportunidade de crescimento.

Alguns especialistas costumam dar dicas práticas para lidar com o ressentimento, do tipo, escrever uma carta direcionada a quem deu causa ao ressentimento, mas nunca mandar a carta, fazê-lo apenas com o fim de tornar mais claras as ideias em torno da situação, e de desabafar e expurgar as emoções. E, ao final desse processo, procurar perdoar o ofensor e mudar de vida, mudar sua rota pessoal para melhor.

Somos muito maiores, mais profundos e imensuravelmente mais fortes que os ressentimentos que cruzam os nossos caminhos. Só precisamos nos libertar dos limites fáticos que os envolve e expandir os horizontes de consciência. Ver além das circunstâncias e caminhar em direção ao futuro sendo um ser humano melhor e mais eficiente. É assim que devemos lidar com o ressentimento.

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