As grandes Religiões do nosso planeta nos ensinam, através de diferentes modos, um mesmo ensinamento: devemos amar ao próximo e ajudá-lo. Se na doutrina Cristã, por exemplo, temos o “Ame ao próximo como a si mesmo”, no Budismo fala-se que “O ódio só é combatido pelo Amor”. Já no Hinduísmo, tem-se o precioso conceito de reta-ação que nada mais é do que ajudar alguém sem esperar nada em troca. 

Poderíamos escrever aqui outras tantas citações que refletem esse mesmo caráter de ajuda mútua entre os Seres Humanos, porém, cabe neste momento pensarmos um pouco sobre essa ideia. O primeiro ponto que podemos tratar é de que em torno de 85% da população mundial afirma seguir alguma doutrina religiosa. Porém, ao observarmos nosso comportamento cotidiano, ou quando assistimos o noticiário e até mesmo em conversas informais com nossos amigos, não percebemos esses preciosos ensinamentos colocados em prática. Ao contrário disso, cada vez mais, somos espectadores de casos de violência, ódio e desunião entre nós. Por que isso ocorre?

Os motivos, como podemos imaginar, são diversos. No entanto, todos partem de uma mesma causa: o egoísmo. Não é novidade que vivemos em uma sociedade que preza pelo individualismo, ou seja, que devemos pensar, em grande parte, somente em nós mesmos. Estimulamos a competição entre as pessoas e, no fundo, somos doutrinados a “nos garantirmos”. Assim, caso “tenhamos” algum tempo, dinheiro e energia é que devemos ajudar outras pessoas. Essa mentalidade está inserida de maneira tão profunda em nossa sociedade (e em nós mesmos) que não notamos a contradição de seguirmos uma Religião, mas vivemos nossa prática cotidiana dessa maneira.

Pior que isso, em um mundo contaminado por atitudes individualistas, no qual cada um só olha para seus problemas e dilemas existenciais, é comum passarmos a desconfiar de quem não alimenta esse tipo de comportamento. Quem de nós, por exemplo, nunca “desconfiou” de alguém que nos ofereceu ajuda? Ou que analisou bem se não estavam querendo aplicar um golpe, ou mesmo nos deixar endividados para sermos “obrigados” a ajudá-la no futuro? Esse tipo de reação é comum em nossa civilização pois foi isso que nos foi ensinado em diferentes ambientes sociais. Em nossas casas, na escola, na rua ou em qualquer lugar, sempre nos avisaram para estarmos atentos e não sermos enganados. Crescemos, afinal, sob a grande sombra da desconfiança.

Graças a esse tipo de pensamento, hoje vivemos uma verdadeira inversão de valores em nosso mundo. O próprio estímulo à competição, por exemplo, é uma forma de relação pouco inteligente do ponto de vista biológico. Pensemos em um organismo: todas as suas células trabalham em prol da saúde do corpo, não é verdade? Desde a célula que compõe o coração até a que está no nosso dedo mindinho, todas atuam de maneira a cooperar com o todo, fazendo sua função e executando-a da melhor maneira. Assim, essa grande engrenagem faz com que possamos ter energia, atividades vitais e conseguirmos viver. A cooperação, portanto, é uma relação muito mais harmônica – e vantajosa – para nós. Do mesmo modo, o que ocorre ao corpo, quando uma célula decide não cooperar, mas realizar suas atividades de modo autônomo? Ela se torna um câncer. 

Não por acaso, a mentalidade de competição é, de fato, uma espécie de doença que está generalizada em nosso corpo social. É em nome da competição que nossos valores mais preciosos são trocados por promoções, cargos e salários. Enquanto isso, a cooperação é deixada de lado, afinal não é possível ajudar o meu concorrente. Essa, porém, é apenas uma das inversões que podemos observar entre tantas outras. Seguindo a mesma lógica, o Altruísmo também tem sido alvo dessa terrível realidade. 

Por definição, Altruísmo é uma ação executada, pensado em ajudar o próximo. Diferentemente de uma ação egoísta, que visa beneficiar apenas o agente da ação, o Altruísmo busca pensar primeiro nos outros e menos em si mesmo. Assim, uma pessoa que busca se colocar à serviço dos demais é, em síntese, altruísta. Porém, o que geralmente pensamos sobre tais pessoas? Num primeiro momento, é possível que a desconfiança, mais uma vez, nos venha à mente. Perguntas surgem, como “Será mesmo que essa pessoa está fazendo isso sem querer nada em troca?” 

Pensemos, primeiramente, em grandes exemplos de Altruísmo. Quando olhamos para a história de pessoas como Madre Teresa de Calcutá, irmã Dulce, Desmond Doss e tantos outros que dedicaram sua vida para salvar e cuidar de outras pessoas, em geral desconhecidas, há quem pense que eles estavam, na verdade, interessados somente em si. Assim, o que deveria ser um ato heróico e louvado acaba, por algumas vezes, sendo visto como um ato de extremo egoísmo. E dizemos que tais pessoas não estavam verdadeiramente preocupadas com os outros, mas queriam salvar suas próprias almas, ou que exploravam os enfermos para o seu próprio benefício. 

Olhando para exemplos mais cotidianos, o que pensamos, por exemplo, quando um homem abre uma porta para uma mulher? Automaticamente, achamos que aquela cortesia tem uma segunda intenção por trás, quando, na verdade, tudo que ocorreu foi apenas isto: a expressão de uma cortesia. Se recebemos um presente de um amigo sem motivo aparente, também pensamos que agora estamos na “obrigação” de retribuir essa gentileza e darmos um presente a ele também. Não aceitamos atos generosos de forma natural, e isso ocorre porque não fomos educados a agirmos de modo gentil, mas sermos competitivos e individualistas.

Neste sentido, atos altruístas podem (e infelizmente são) vistos de maneira negativa. O primeiro motivo para isso ocorrer é o que expomos acima, pois partimos da premissa da desconfiança. Porém, um segundo motivo para que tais atos sejam “mal vistos” por algumas pessoas é o fato delas apresentarem a nós uma “terrível” realidade: a de que as pessoas podem – e são – boas. O altruísta é, afinal, uma pessoa boa, que coloca os interesses alheios na frente dos seus. Essa constatação pode ofender muitas pessoas que, em geral, acreditam que o egoísmo é a maior verdade do nosso mundo. E assim, procuram razões para justificar as atitudes dessas pessoas.

Quando não se encontra motivações egoístas para tais atos de generosidade, comumente apela-se para uma outra inversão de valores: a de que as pessoas que fazem atos de bondade são “ingênuas” ou “bobas” por agirem assim. Para ilustrar isso, uma pessoa que devolve uma mala cheia de dinheiro para quem a perdeu não é uma pessoa honesta, mas sim uma pessoa “besta”. As virtudes tornam-se, sob o ponto de vista do egoísta, uma das piores debilidades que poderíamos ter. Sendo assim, o bom passa a ser mau, a cortesia passa a ser uma forma de galanteio e a honestidade nada mais seria que uma falta de “visão”.

Entretanto, não fiquemos desanimados com essa mentalidade. Como dito por Platão em seu livro A República, é melhor sofrer uma injustiça do que cometer uma. Neste caso, devemos compreender que uma atitude altruísta é fruto de um verdadeiro esforço consciente, ou seja, precisamos fazer o bem de forma autêntica, sabendo o impacto de nossas ações no mundo e desejar que elas se realizem. Ao contrário de uma reação egoísta, que se manifesta naturalmente por causa dos nossos instintos, ter uma atitude altruísta, seja com uma ou mais pessoas, envolve um sincero exercício de Vontade, Amor e Inteligência. Por isso não devemos ficar abismados quando alguém pensa que é impossível viver agindo de maneira a beneficiar os demais, pois não são todos que estão dispostos a fazer esse tipo de esforço.

É preciso compreender, portanto, que ser altruísta é uma escolha. Não é, nem nunca será, um “dom” ou “talento” para se fazer o bem, mas sim a capacidade de se sacrificar em nome de algo maior. Por isso que, à medida que conseguimos exercitar nosso lado altruísta, podemos dominar, mesmo que pouco, a mentalidade egoísta que aflora em nós, em tantos momentos do dia. Para tanto, porém, é preciso vontade de atuar desse modo. Ninguém, a não ser nós mesmos, pode nos obrigar a agirmos de forma altruísta, pois mesmo que estejamos em uma condição de ajudar outra pessoa, nosso sentimento e pensamento também devem estar direcionados a esse intuito.

Assim, o altruísta não apenas faz ações bondosas, mas sente a bondade em seu peito e pensa constantemente em como pode fazer mais com essa virtude. Frente a isso, não precisamos dizer o quanto o mundo atual necessita de pessoas altruístas. Do egoísmo já estamos cheios e fartos, mas um verdadeiro altruísta faz muita falta e diferença no mundo que vivemos.

Para isso, não pensemos em como o senso comum nos julgará, pois ele o fará de qualquer maneira. Tenhamos em mente que, apesar de alguns não acreditarem, de enxergarem como negativa tais ações, todos desejam um mundo melhor. Todos nós, em maior ou menor grau, ansiamos por um mundo com mais virtudes, mesmo aqueles que não acreditam nisso. Estes desejam provar-se errados, pois no fundo, sabemos que o Ser Humano pode ser sublime em suas ações e se tornar um verdadeiro exemplo de Justiça, Bondade e Beleza. Busquemos tais inspirações e sejamos a mudança que queremos ver neste mundo mergulhado pela grande sombra do egoísmo.

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