Segundo estudos do Pew Research Center, em 2012 cerca de 14,5 % da população mundial era formada por ateus. Os quase noventa por cento restantes estão distribuídos em milhares de formas religiosas: cristianismo, islmamismo, budismo, judaísmo, entre milhares de outras religiões, sendo que cada uma dessas tem outras milhares de sub-ramificações. Esse estudo nos retorna um diagnóstico de um mundo que mesmo em uma era de modernidade avançada, ainda assim é predominantemente religioso. Isso parece sinalizar que a religião é uma necessidade visceral do Ser Humano, sendo muito mais do que apenas uma necessidade de experiência enquanto civilização. 

Tem um texto poético das religiões abraâmicas que diz: “assim como o cervo brama pelas correntes das águas, suspira a minha alma por ti ó Deus!”. O que a inspiração poética pretendia expressar nessas palavras era essa necessidade visceral que somente se conseguiria traduzi-la à altura se fizesse uso de uma alegoria com um animal sedento em terras desérticas correndo desesperadamente em busca das águas, sob pena de morrer se não as encontrasse. Só uma imagem dessas consegue descrever a força do fenômeno religioso ao longo da história Humana.

Os achados arqueológicos dos tempos mais remotos que se conseguiu encontrar até hoje já nos dão sinais de um mover religioso na presença humana. Desde pinturas rupestres, gravadas em pedras e cavernas, até sofisticados monumentos de civilizações desaparecidas expressam a presença da magia, da mística e dos rituais religiosos. Todas as civilizações conhecidas, desde o antigo Egito até Roma, todos os impérios de que temos notícia, desde a altura de seu apogeu até às profundezas de suas decadências, dão sinais de terem se organizado em torno da religião.  

Porém, a crítica à religião começa a ganhar eloquência no começo da modernidade, através de pensadores como Maquiavel, para quem a religião era uma ferramenta nas mãos dos governantes manipuladores do povo. Já Karl Marx via a religião como uma espécie de alucinógeno ou uma droga que anestesiava o povo economicamente explorado. Essas definições, entre muitas outras de outros grandes pensadores, contribuíram para a construção de uma mentalidade tendente à aversão às religiões. 

No entanto, podemos ver que essas são críticas não ao fenômeno religioso em si, mas a uma espécie de conjuntura religiosa. A instrumentalização da fé como um mecanismo de poder, as deformações no entendimento das questões religiosas e o dogmatismo que passaram a envolver os círculos religiosos no período da Idade Média permitiram o surgimento do argumento anti-religioso. Com o tempo, essas práticas foram gerando uma espécie de mentalidade ateísta, que mais tem a ver com uma repulsa à institucionalização da religião do que mesmo com uma rejeição à ideia de uma Natureza Humana buscadora do Mistério do Mundo.

As estatísticas nos mostram que mesmo diante da guinada da sociedade ocidental para o materialismo, a partir de ideologias pós-medievais como o racionalismo, o positivismo, o marxismo, entre outras, a fé não deixou de aquecer os corações humanos. Há ainda uma busca sedenta pelo Mistério, pelas práticas religiosas, o que se vê no agigantamento cada vez mais acelerado das formas religiosas no mundo, sendo o cristianismo a mais populosa, depois do islamismo e do judaísmo. Essas três religiões, que têm a mesma raiz e são chamadas de religiões abraâmicas, agregam mais da metade de toda a população do planeta. A outra metade está distribuída em milhares e milhares de outras formas religiosas. 

Por que o fenômeno religioso é tão forte, a ponto de confundir-se com a própria Natureza Humana? Por que a história do surgimento e desaparecimento de todas as civilizações do mundo é a história da pureza e da deformação dos movimentos religiosos? Só há uma explicação para isso: há uma busca profunda e inevitável dentro da Alma Humana por uma unificação de todo o Mistério do mundo. 

O céu estrelado sobre a nossa cabeça, a vastidão dos oceanos, o milagre da vida, o Sol, a lua, a natureza, o nascimento, a morte, são surpreendentes demais para passarmos por eles sem questionar: o que está por trás de toda essa ordem cósmica? Que Mistério há por trás das estrelas, que inteligência, que consciência pensou matematicamente o movimento dos astros? Quem está por trás disso?

Essas buscas, essas perguntas, essa sensação de espanto diante do Mistério do mundo nos levam à ideia de Deus, que nada mais é que um jeito de falarmos de um Ser que unifica todas essas coisas. A integração de todos os Mistérios em um único ponto é o que gera todas as religiões. Qualquer religião do mundo busca uma Unidade de sentido no Universo, porque religião é exatamente isto, a busca da união entre todos os Seres Humanos e entre o Ser Humano e todos os seres e fenômenos que existem. Não por acaso a palavra “religião” vem do latim “religare”, que significa “religar”, ou seja, unir novamente o Homem ao Universo, ou mesmo a Deus. 

Portanto, a religião é a busca de uma síntese em toda esta complexidade que é a realidade. Nesse sentido, quando a ciência, as artes, a política e qualquer movimento da cultura humana busca uma unificação, uma integração, uma síntese de toda a realidade, está fazendo o que a religião faz. Em certo sentido, não há separatividade entre religião, ciência, arte, política, filosofia, etc. Nós separamos essas vertentes na mente, como um recurso didático para entendê-las, mas essa divisão é apenas mental, na realidade tudo é uma coisa só.

A história da humanidade, quando observada sob a ótica da busca por sentido no Universo, nos permite entender que, em algum grau, tudo que desenvolvemos volta-se para responder ou auxiliar nessa busca pelo Divino. Desde a transformação do espaço, o domínio da matéria, a expansão de todos os sentidos humanos, até os meios que levaram o  Ser Humano à Lua, essa trajetória guarda um elo com a intuição humana pelo Divino. Essa percepção é uma das maiores diferenças que existem entre os Seres Humanos e outros seres vivos da Terra. Se nosso senso intuitivo não tivesse captado a ideia de algo elevado, que transcende à morte e à matéria, é possível que hoje ainda estivéssemos vivendo como animais. O que nos humaniza é a Intuição, quase inconsciente, com a qual convivemos o tempo todo, de que somos uma corda esticada entre o animal e algo Divino que está para muito além de nosso alcance e que nossos escassos limites mentais não dão conta. É essa intuição que nos empurra para adiante. 

Ademais, bem sabemos que o homo sapiens não é o começo da humanidade. Os estudiosos da pré-história afirmam, com base em descobertas arqueológicas, que antes do Ser Humano moderno houve outros humanoides, a exemplo do homo habilis, mas que desapareceram ao longo do curso da história. Os homo sapiens resistiram e se aperfeiçoaram ao longo da sua existência e a razão muito provável para isso é que desde o início de seu desenvolvimento visualiza-se um mover constante em torno da magia, da espiritualidade, do Divino, o que se vê nos totens, nas imagens de divindades, nos mitos que apontam para Deuses.

Entretanto, essas materializações simbólicas são apenas expressões na linguagem humana de um pulsar interno em direção a algo misterioso, que está para além da matéria. Há, portanto, uma grande diferença entre o que professamos, o que externamos na linguagem e o que se passa dentro de nós, uma vez que nem sempre temos palavras ou meios de expressar aquilo que sentimos e percebemos. Apesar de qualquer forma de expressão, todos nós temos uma espécie de chama que arde dentro, que representa a busca para conhecer mais desse Mistério que chamamos de Deus, mas na maioria das vezes ofuscamos essa fogueira. Quando essa busca é ofuscada, obstruída e interrompida, amargamos fortes angústias, confusões mentais e desesperanças. 

Porém, se passamos a observar a natureza e todas as suas formas é possível enxergar padrões e “pequenos milagres” cotidianos, o que nos dá uma pista de que existe, de fato, uma misteriosa inteligência em todos os atos da Vida. Se considerarmos que toda essa inteligência cósmica, que visualizamos desde o esquema planetário do sistema solar até o funcionamento interno do núcleo de um átomo é uma expressão de Deus, então podemos afirmar que Deus está em todas as coisas. 

Tudo que existe nesse mundo manifesto exala essa consciência cósmica de Deus. Não há nada mais espiritual e Divino diante dos nossos olhos do que o nascimento de uma criança, por exemplo, a mesma Beleza se faz no florescer de uma planta, no germinar de uma semente, no desabrochar de uma flor. A natureza tem ritmo, inteligência e é toda matematicamente planejada. Os ciclos de vida de todos os seres, a respiração, a interação com   o ambiente, os níveis de temperatura e a repercussão de seus efeitos, tudo nos leva a crer que há uma espécie de mente Universal que pensa milimetricamente a realidade natural. Se você acredita nisso, então você pode encontrar Deus em todas as coisas.

Nesse sentido, Deus está no ritmo de seus batimentos cardíacos, no fluxo do sangue nas suas veias e artérias, na sua respiração, no movimento das águas do mar quebrando na praia, nos primeiros raios solares no começo das manhãs. Se vemos Beleza nesses eventos, se isso nos toca a Alma é porque há algo expresso nesses movimentos que também está em nós, esse algo que se espraia por todos os redutos de vida, em todas as direções, é Deus. A clássica pergunta se Deus existe ou não existe, é, nesses casos, irrelevante pois a constatação de que somos atravessados o tempo todo pela realidade universal, nos coloca em um patamar de consciência onde não faz sentido. Partindo dessa ideia, Deus não existe como as coisas existem, ele não seria um Ser plasmado no mundo, mas sua existência está sendo a causa dessa Inteligência Cósmica que coincide com as versões de Deus expressas pelas mais variadas culturas. 

Em geral, as tradições quando falam de Deus costumam associá-lo a algo que está presente em todos os lugares, onipresente, ou o associam à toda a consciência, a palavra para isso é “onisciente” e que pode todas as coisas, onipotente. Assim, quanto mais presentes conseguirmos ficar em dado momento, quanto mais amplos forem os limites de nossa consciência e quanto mais realizamos no mundo a Vontade que existe dentro de nós, mais damos sinais da manifestação de Deus. 

Encontramos Deus no exercício da vida, quando não somos reféns do passado, nem do futuro, mas conseguimos estar presentes, conscientes do que passou e conscientes do que virá, mas presentes no momento em que estamos. Esse “estar presente em tudo o que fazemos” nos permite um grau de despertar de consciência, que significa a posse de nós mesmos. Quando estamos conscientes, temos o governo sobre nossos impulsos, ficamos alertas, e assumimos o comando de nossa existência, ou seja, não somos condicionados por pensamentos pré-concebidos, ou emoções ou mesmo instintos. 

Nesse ponto, somos capazes de tornar a nossa existência um palco de Deus no mundo, desde que manifestemos em nosso exercício cotidiano de vida as ideias sublimes que acessamos nas tradições. A ideia de que somos templos e moradas desse Grande Mistério nos ensina que somos muito mais do que apenas um corpo que pensa, mas que habitamos uma dimensão mais profunda, que somos um Princípio que vem de todas as eras e viverá para sempre.

O encontro com Deus se dá em momentos menos complexos, menos sensacionais, e tem muito mais a ver com o estar presente em tudo, desde um simples ato de lavar os pratos, até o sentir o outro de forma consciente em uma conversa. Deus está no sorriso de uma criança, no sonho de dias melhores, no poder sobre as adversidades, no domínio dos impulsos para os vícios que nos perturbam tanto, na gestão inteligente do tempo, no domínio sobre si mesmo, nisso está Deus e muitas vezes não percebemos, e nos perdemos em tantas buscas por alucinógenos, fenômenos mentais, etc. Precisamos de um novo jeito de entender o Divino, e esse novo olhar, por incrível que pareça, às vezes encontramos em tradições antigas, como a tradição socrática, o Jesus histórico, e as tradições védicas, da Índia antiga. A Natureza, a Vida, o Universo e o Ser Humano estão impregnados de Deus, que lhes atravessa a existência manifesta o tempo todo, só precisamos despertar para isso.

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