Provavelmente você já escutou o ditado popular “Deus criou o homem com uma boca e dois ouvidos para falar menos e escutar mais”. Comumente falamos sobre a importância de escutarmos a nós e aos demais, porém, será que fazemos isso mesmo? Se pararmos para pensar em nossas atitudes numa discussão, por exemplo, será que poderemos dizer que ouvimos o que o outro tem a dizer?

Essas perguntas são importantes e nos levam a refletir sobre o valor que damos ao escutar. Não estamos falando simplesmente de ter uma boa audição, mas de verdadeiramente escutar os outros. Essa é uma ferramenta fundamental para a resolução de conflitos, além de ser um método eficaz para desenvolvermos nossa empatia e paciência. Além disso, aprender a escutar nos ajuda, consequentemente, a melhorarmos o nosso modo de nos comunicar com os demais.

Tratando disso, o conceito tradicional de “comunicação” envolve dois fatores: o emissor e o receptor. Ou seja, aquele que transmite a mensagem e o que recebe. Ao falarmos sobre a Arte de ouvir, portanto, estamos falando que precisamos refinar nossa capacidade de comunicação com os demais. Comunicar não é só falar, não é apenas emitir opinião. Há também que aprender a escutar e ser um bom receptor. E essa Arte, meu caro leitor, é mais complexa do que expor suas ideias.

Ela se torna complexa porque, na grande maioria dos casos, não estamos preocupados com o que os outros têm a dizer. No mundo atual, mergulhados no individualismo, cada vez menos paramos para escutar e a comunicação tornou-se uma disputa para ver “quem fala mais alto.” Desejamos, a todo momento, falar e mostrar nossos pontos de vista, porém, raramente estamos abertos para silenciar nossa fala e abrir nossos ouvidos e coração para os demais. 

Sim, falamos de ouvir com o coração, pois, metaforicamente, significa buscar encontrar uma maneira de ligar-se com quem está conversando. Para isso é preciso estar receptivo, aberto ao diálogo e desejando uma real conexão com as outras pessoas. Quantas vezes, por exemplo, em uma conversa, estamos tentando compreender o que o outro está dizendo? Na grande maioria dos casos estamos educadamente (ou não) esperando nossa vez de falar. Em nossa mente ficamos desenhando argumentos, ensaiando o tom de voz que usaremos e as palavras mais precisas para, por fim, fazer o outro ceder. Enquanto focamos nisso, o outro está tentando nos passar uma mensagem, que morre ao “entrar por um ouvido e sair pelo outro”, como diriam nossos sábios pais. Estamos, enfim, perdendo a sensibilidade de escutar os outros.

Essa é, talvez, uma das características mais marcantes do nosso tempo: a falta de sensibilidade. Estamos sempre com pressa e correndo atrás do tempo, portanto, não achamos válido ter uma conversa profunda ou compreender o outro. Desdenhamos das ideias alheias, consideramos a maioria das pessoas ignorantes e, ingenuamente, criamos nossas próprias verdades. Desse modo, desejamos que a todo momento nossa opinião seja imposta, uma vez que acreditamos que ela seja a melhor e mais bem acabada ideia sobre qualquer tema. E qual o resultado dessa combinação? Sem sombra de dúvidas, em um mundo ditado por essas regras, a intolerância, naturalmente, passa a ser lei. Passamos a não aceitar opiniões divergentes da nossa e muito menos considerar a possibilidade de estarmos equivocados. Deixamos a Cortesia de lado e usamos da violência, verbal e física algumas vezes, para “fazer valer” nossas opiniões. Em um mundo assim, se faz urgente melhorarmos nossa capacidade de ouvir. Mas como podemos desenvolver essa Arte?

Primeiramente, ouvir não é simplesmente ficar calado e esperar que a outra pessoa termine de falar. Ficar em silêncio ajuda muito, mas é preciso calar nossa mente antes que nossa boca. A Arte de saber ouvir está no esforço de comparar o que está sendo dito com o que pensamos, sem cortar o outro e muito menos diminuí-lo por sua opinião. Se eu apenas fico em silêncio, mas em minha mente estou a criticar e julgar o outro então não estou verdadeiramente ouvindo. 

Saber ouvir é, antes de tudo, uma reunião de diversas Virtudes: a Paciência para compreender as ideias expostas; o Discernimento para separar o que é válido e moral do que é inválido e imoral; a Humildade para reconhecer a Sabedoria que possa estar sendo transmitida e a Empatia de conseguir colocar-se no lugar do outro e observar a visão dele a partir do seu ponto de vista. Essas Virtudes são a base de uma comunicação eficiente, que busca construir um diálogo. Não se trata de se considerar melhor ou mesmo de validar tudo que é colocado em uma conversa, mas estar consciente de que não somos donos da verdade e que ela estará, necessariamente, exposta de diversas maneiras. 

Ao passarmos a conduzir nossas posturas baseadas nessas Virtudes estaremos refinando nossa capacidade de ouvir. E quantas vezes ao dia não podemos exercitar essa Arte? No trânsito, no trabalho ou em qualquer lugar, a vida irá nos proporcionar ambientes favoráveis para o exercício de escutar o que os outros têm a nos dizer. Seja com o motorista estressado que xinga no trânsito ou em uma conversa com amigos, sempre poderemos praticar nossas Virtudes.

Só assim poderemos construir diálogos e não discussões. Um diálogo, ou seja, dois pensamentos que buscam um ponto em comum, é próprio do Ser Humano pois utiliza-se da razão para chegar a um ponto de vista mais alto, mais próximo de uma Verdade. Trata-se de erguer pontes e de nos ligar aos demais. Em resumo, consideramos que o diálogo é um modo civilizado de construir uma relação, seja ela de qual natureza for. 

Por outro lado, a discussão, na maioria dos casos, acaba por separar as pessoas. Se o diálogo pode ser comparado a uma ponte, a discussão é, sem dúvida, a construção de um muro que divide as pessoas. Isso ocorre porque, em geral, as discussões são comandadas pelas nossas emoções que, mais cedo ou mais tarde, se revelam e tendem a machucar os demais. Quando gritamos com alguém em uma discussão, por exemplo, estamos sendo conduzidos por uma raiva. Do mesmo modo, se deixamos os argumentos lógicos de lado e passamos a atacar a outra pessoa, estamos permitindo que uma emoção nos domine. Ao chegar a esse ponto os debatedores não buscam mais se unir e compreender algo além de seus pontos de vista, mas defendem com unhas e dentes suas opiniões sem ceder, mesmo quando confrontados com provas e argumentos fundamentados. Não se trata, portanto, de encontrar a Verdade, mas sim de um cabo de guerra entre opiniões divergentes.

Saber ouvir, portanto, não é uma questão técnica ou de pura Cortesia. Para além desses aspectos está o desenvolvimento de uma postura Humana, Compreensiva e que busca a Verdade. É estar, antes de tudo, disposto a abrir mão de uma opinião e considerar que o outro possa estar, por bem ou por mal, com a razão a seu favor. Essa talvez seja, afinal, a parte mais difícil: abrirmos mão do que “já conhecemos” para refletirmos sobre o novo, o que ainda não sabemos. 

Não por acaso, um sábio antigo disse que “só sei que nada sei”. Quem busca conhecer a Verdade deve, antes de tudo, aprender a ouvir e desenvolver a Humildade de considerar que ainda não compreende tudo. Logo, se desejamos chegar à Verdade um dia precisamos, antes de mais nada, aprender a antiga Arte de ouvir e melhorar nossas relações. Que possamos, através dessas oportunidades diárias, avançarmos nesse aspecto e, cada vez mais, construirmos pontes e não levantarmos mais muros dos que já existem atualmente.

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