Como podemos definir um milagre? Será algo que foge da compreensão humana? Ou uma ação impossível de ser realizada e, ainda assim, ser feita? Será que essa ideia cabe apenas às religiões ou a todos nós? Em algum grau, será que podemos realizar pequenas façanhas dignas de ser um milagre? Todas essas perguntas podem servir de base para refletirmos sobre a capacidade humana e até onde, de fato, podemos chegar. Um antigo ditado diz que não existe impossível, mas sim impossibilitados. Se olharmos para trás, perceberemos que, em algum grau, compreendemos essa ideia. Ou será que, há mais ou menos 500 anos, não era uma ideia absurda o homem voar e visitar outros planetas? Bom, e aqui estamos, no século XXI, com diversas expedições pelo sistema solar, pegando aviões e viajando por todo o planeta. Não é que voar seja impossível, apenas não tínhamos os meios necessários, naquele momento, para tornar esse sonho real.

Além disso, há quem considere a própria vida um milagre, afinal, as variáveis existentes para a construção da vida como conhecemos são tantas que alguns defendem que não pode existir outro planeta com vida a não ser a Terra. Desse ponto de vista, desde as pequenas plantas que vivem no fundo dos oceanos até o ser humano, a espécie mais complexa que há em nosso planeta, são provas incontestes de um verdadeiro milagre.

Nessa perspectiva, um milagre pode ser entendido como algo raro, quase impensável e, por vezes, inexplicável do ponto de vista racional. Mesmo assim, ele está lá, se apresenta e mostra suas possibilidades perante todos nós. Será que podemos viver essa ideia? Ou o milagre é uma dádiva que apenas alguns poucos seres são capazes de realizar?

Partindo disso, podemos levar essa reflexão para a nossa vida cotidiana. Quantas vezes nos deparamos com situações em que pensamos ser impossíveis de serem resolvidas? Seja lidar com uma pessoa muito “difícil”, ou conseguir realizar um trabalho que ninguém acreditou ser possível? Tenho certeza que você, meu caro leitor, já viveu essa experiência, pois ela é extremamente comum em nossa vida diária. Achar que certos desafios são impossíveis tira nossa força perante os problemas, logo, esse modo de pensar nos impede de caminhar. Nesse sentido, como já achamos algo impossível, por qual razão tentaremos superá-lo? Se definimos que, por exemplo, é impossível lidar com certas atitudes advindas do outro, como vamos ser capazes de vencer essa barreira que nos impede de melhorar a convivência? Quando ficamos presos nesse modo de pensamento, acabamos nos impedindo de viver, arriscar e se colocar à prova. Quando pensamos que algo é impossível, então nem começamos a fazê-lo. Ficamos parados, observando o movimento à nossa volta e não entendemos como algumas pessoas conquistam feitos grandiosos e nós, não. A realidade é que elas se colocaram à prova, se movimentaram. Nesse momento é comum justificarmos nossa falta de iniciativa e “terceirizamos a culpa”. 

Colocando em exemplos práticos, relembremos uma anedota vivida por Santos Dumont, o grande inventor brasileiro. Conta-se que em sua infância os amigos do pai da aviação brincavam com um jogo muito simples: falar animais que podiam voar. Cada um, ao seu tempo, falava um animal até que não sobrasse mais opções. Sempre que se chegava na vez do jovem Dumont, ele respondia categoricamente: o homem voa. Seus colegas caíam na risada e debochavam do pensamento “infantil” de Santos Dumont. De fato, naquele momento do século XIX era impossível o homem voar, mas o milagre aconteceu e, no alvorecer do século XX, em Paris, Dumont provou que estava certo. O que era impossível acabara de se realizar.  

Essa história nos revela, de forma didática, como o impossível é uma questão de tempo e opinião. Esse pensamento nos limita e, infelizmente, cresce como erva daninha nos jardins dos nossos pensamentos. Mesmo quando vemos algo esplendoroso ser feito, acabamos caindo em certas armadilhas mentais que reforçam esse tipo de pensamento. Quem nunca, ao ver alguém bem sucedido, pensou que “ele só conseguiu porque teve ajuda” ou “ele teve muito tempo livre para estudar, por isso conseguiu chegar até lá”. Sempre buscamos justificativas em meios externos e, em algum grau, eles realmente podem facilitar ou dificultar a nossa vida, mas nunca determinar o nosso destino. 

No entanto, não podemos, definitivamente, permitir que os meios externos determinem nossa condição interna, nossos valores e o caminho que queremos trilhar. O meio não pode nos roubar a capacidade de decidir, conscientemente, como queremos viver. No fim, o que vai determinar nossa capacidade é a nossa forma de ação. Sendo assim, o importante é se colocar frente aos desafios e, principalmente, não comparar o que o outro consegue com o que, no momento, nós conseguimos. Julgar a nossa vida nos baseando em elementos externos só nos traz depressão e faz da nossa jornada um caminho duro e cheio de revoltas.

Por isso, devemos ser um milagre. Explicando melhor: sempre que pensamos em milagres, os atribuímos à ideia de algo, a priori, impossível de acontecer, mas que foi realizado. É assim que devemos pensar. Acontecem milagres todos os dias à nossa volta: a mãe que trabalha em dois empregos, cuida dos filhos e ainda os educa de maneira adequada; o jovem que trabalha e estuda a fim de ser um bom profissional no futuro; o idealista que busca ajudar os outros. Gostamos de pensar em santos e heróis, mas, se olharmos em volta, perceberemos que esses personagens não estão apenas nos livros e histórias mitológicas, mas vivem diariamente conosco. Ser um milagre não está associado a ressuscitar os mortos, andar pelas águas ou qualquer outro feito realizado por um grande mestre de sabedoria. Esses são os grandes milagres e talvez nos seja inacessível nesse momento. Entretanto, podemos realizar pequenos milagres diários como superar nossos limites internos, vencer nossas debilidades e defeitos e caminhar rumo a uma nova forma de vida, capaz de vencer as amarras psicológicas que nos conduzem há tanto tempo. Esses milagres ocorrem todos os dias ao nosso redor, então por que não sermos nós mesmos um deles? Para isso, é preciso fé e não desistir de nós mesmos, pois, quando abrimos mão de nossa própria identidade, de nossa força de vontade e confiança na vida, estaremos caindo no grande jogo ilusório dos pensamentos “impossíveis”.

A cena do vídeo abaixo, do filme “Todo Poderoso”, nos faz lembrar dessas pessoas:

Que esses heróis cotidianos possam nos servir, sobretudo, de inspiração. À medida que caminhamos, percebemos que podemos mais. Sempre mais. Até que o que parecia impossível há alguns anos começa a ser possível. Se pensamos, por exemplo, que viver um ideal de generosidade para com os outros, no mundo de hoje, é impossível, que tal começarmos a ser gentis e generosos com as pessoas que gostamos e, aos poucos, ir expandindo essa ideia? Com o tempo, perceberemos que podemos ser gentis com os colegas, com os conhecidos e mesmo com pessoas que convivem pouco conosco. Depois, pode se tornar algo comum para nós sermos gentis, independente dos dias bons ou ruins, e seremos assim com todos que estão à nossa volta: do porteiro do prédio até nossos pais e filhos. O que era impossível, portanto, começa a se aproximar do real. E talvez, a bem da verdade, tenham coisas que não alcancemos, mas o fato de termos caminhado em sua direção já nos garante que não somos mais os mesmos de antes. Essa é a maior das vitórias: a vitória sobre nós mesmos.

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