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Não há quem passe pela existência sem sentir dores, sofrimentos, rupturas ou qualquer tipo de desconforto. Para alguns filósofos, essa é uma percepção fatalista, pois nos sugere que a humanidade, e tudo aquilo que vive, está “condenada” ao sofrer. Porém, afirmamos que isso não é um problema em si, pois as dores, como diria Sidarta Gautama, o Buda, é uma forma de adquirirmos consciência. Nesse sentido, será que por detrás de algumas marcas que a vida nos traz não há um aprendizado, uma forma de ressurgimos mais fortes e íntegros a partir da experiência vivida?

Pensar nesses aspectos nos levam a uma busca mais profunda, pois devemos mergulhar no sentido da dor, na forma que encaramos esse desconforto e, se for possível, em como podemos usá-la ao nosso favor. Sem dúvida, não podemos pensar nessas questões sem lembrarmos do budismo, uma vez que Buda foi um dos grandes investigadores dessa questão. A dor, como já apontamos, seria uma espécie de fato da natureza, algo que é inerente a qualquer ser vivo. Assim, a primeira grande síntese de Buda é que a dor existe. Entretanto, sabe-se que na natureza não há vácuo, ou seja, nada existe sem um propósito ou finalidade. Dessa forma, pensou Buda, é provável que haja um sentido para a dor. Mas qual seria essa finalidade?

Pensemos na dor física. Ela, de maneira objetiva, é um sinal que alguma região do nosso corpo manda para o nosso cérebro para indicar que há algo fora do normal. Quando encostamos nossa mão em uma panela com água fervendo, por exemplo, a dor nada mais é do que o aviso de que sua mão precisa sair daquela situação. Logo, considerando esse aspecto físico, a dor nada mais é do que um aviso, um alerta, um sinal de que realmente precisamos colocar atenção sob algum aspecto da nossa vida. Assim, quando ficamos tristes, a dor gerada pela melancolia deve ser encarada como um alerta de que não estamos sabendo lidar com alguma situação do mundo ou sensação. Correto?

Esse ponto de vista nos leva a refletir que a dor é muito mais do que apenas o sofrimento por algo que nos aconteceu, mas a oportunidade de aprendermos com a experiência vivida e nos reposicionarmos, ou seja, tomarmos novas atitudes diante do que nos causou dor. Geralmente assumimos uma atitude paralisante perante as dores, principalmente as que têm origem psicológica, fazendo com que não possamos perceber a bela oportunidade de evolução que está à nossa frente. Ao invés disso, nos rendemos ao sofrimento e afundamos nos traumas e tristezas que estamos sentindo. Tal postura se assemelha a uma ferida física que, ao invés de tratarmos para cicatrizar, passamos a cutucá-la para que nunca possa ser fechada. Será que esse é o modo mais inteligente de lidarmos com a dor?

Sobre esse assunto a cultura japonesa tem uma tradição interessante e que pode ser muito útil em nossa vida prática. Estamos falando da Arte do Kintsugi, que inicialmente nada mais era do que uma forma de reparar algum objeto quebrado, mas ao longo do tempo acabou se tornando uma grande filosofia de vida. O Kintsugi consiste basicamente numa técnica de reparo de cerâmicas quebradas, porém o detalhe dessa técnica está no material usado para fazer esse conserto. Conhecida como “carpintaria de ouro”, a técnica surgiu no Japão feudal com Ashikaga Yoshimasa, que enviou uma tigela de chá chinesa danificada de volta à China para reparos. Quando a tigela retornou, percebeu que os reparos tinham sido mal feitos e eram grosseiros. Ainda insatisfeito, Ashikaga levou a cerâmica para artesãos japoneses que aplicaram a técnica de preencher as ranhuras com resina e ouro em pó, dando o aspecto final de fios de ouro pela peça. Assim, a peça, que outrora estava danificada, agora tinha em suas rachaduras uma bela decoração dourada, que realçava seu valor e tornava nobre aquilo que um dia foi um defeito.

Segundo a tradição, diz-se que os artesãos usaram essa técnica porque não tiveram coragem de se desfazer da peça original, e encontraram um modo de valorizá-la ainda mais. A partir daí, surge toda a filosofia dessa técnica japonesa. Exatamente o ponto onde a cerâmica quebrou, seu “ponto fraco”, por assim dizer, foi onde eles enriqueceram-na, colocando o ouro. O que era fraqueza e defeito, tornou-se o mais belo, o ponto de destaque da peça.

Essa mesma ideia deveria ser vivida por nós, sobre nós mesmos. A Arte do Kintsugi nos ensina a reconhecer a beleza das nossas cicatrizes. Nossos erros, nossas falhas, nossas quedas, podem nos tornar mais fortes, podem nos enobrecer, nos enriquecer de valores humanos. Se observarmos com sinceridade nossa trajetória, poderemos perceber que muitos momentos dolorosos serviram de impulso para chegar a um novo patamar em nossa existência: por exemplo, um erro que cometemos e de que conseguimos nos redimir; ou a consciência adquirida após um esforço tremendo que nos gerou medo, ansiedade e outra série de tensões. Nesse sentido, podemos entender que as cicatrizes que adquirimos ao longo do tempo podem ser um cofre de ouro, do qual ganhamos resiliência e outra série de virtudes a partir da superação da dor. Normalmente, no entanto, queremos esconder nossas marcas, não queremos que ninguém saiba o que passamos. Mas por quê, se foi graças a esta marca que nos tornamos quem somos hoje?

Os guerreiros espartanos, e várias culturas guerreiras, tinham o hábito de valorizar suas cicatrizes. Quanto maiores elas eram, mais se sabia sobre o tipo de guerreiro que estava ali. Ao falar de suas cicatrizes, não só resgatavam a memória de como elas foram adquiridas, da dor que sentiram no momento, mas também traziam à tona o ânimo e o impulso de sair em novos combates. Por isso, as famosas cicatrizes de guerra eram mostradas com tanto orgulho. 

A tradição também comenta que dependendo do Kintsugi, às vezes são necessários dias, até mesmo meses, para que a resina cole completamente a peça. E o mesmo acontece com nossas feridas: após gerarem a dor, é preciso de um tempo para que se fechem, e o tempo ajuda no processo de superação. Nesse sentido, a grande filosofia dos japoneses foi justamente essa, e com isso, podemos ver que algo tão simples pode se tornar uma reflexão sobre nós mesmos. Temos poucas ou muitas “linhas de ouro” em nossa alma? Tudo o que foi quebrado foi consertado? Ou ainda temos fragmentos soltos dentro de nós?

E por mais Bela que seja essa filosofia, hoje já se perdeu muito dela. Existem diversos tutoriais na internet ensinando a como fazer seu Kintsugi em casa. Você escolhe uma peça de que gosta, quebra de propósito e depois faz a aplicação. Mas dessa forma, se perde todo seu significado, não é mesmo? Torna-se uma prática superficial, voltada só para decoração, e não mais uma forma de reparo e cuidado com a peça, sem nenhum respeito à tradição. 

Assim como as cicatrizes da pele são formadas após a resposta do corpo a uma reação inflamatória, as cicatrizes de nossos pensamentos e emoções foram formadas em resposta a uma ferida interna que tivemos. Elas são o resultado de muito aprendizado, muito movimento e da busca pelo equilíbrio. Que possamos olhar sempre para elas e reconhecer a beleza e o valor delas, assim como reconhecemos o valor do ouro nas tênues linhas da cerâmica.

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