Você conhece o país mais feliz do mundo? Eleito por vários anos como a nação com maior índice de felicidade, esse país não é o mais rico, nem o mais populoso e nem mesmo o que possui maior tecnologia. Apesar disso, seus habitantes possuem uma qualidade de vida inimaginável para quem vive nos grandes centros urbanos. Estamos falando do Butão, uma pequena nação asiática que conquista o coração de todos com sua forma peculiar de vida.

Situado mais precisamente no leste asiático, encravado aos pés do Himalaia, este pequenino país compartilha a vizinhança com vários outros “personagens” bem mais famosos nos quesitos lendas e culturas exóticas, como Índia, Nepal, e mais notadamente o Tibete. Talvez por isso, por ser ofuscado por esses países, seja tão pouco conhecido no restante do mundo. Como país, a história do Butão faz parte do passado do próprio continente e, em especial, do Tibete. 

Para entendermos a história do Butão, precisamos voltar um pouco no tempo. Vamos até o Tibete, entre os séculos IX e X, quando, diante de muita agitação política muitos tibetanos das primeiras camadas monárquicas e aristocráticas partiram em exílio para os países vizinhos. Esse grupo de pessoas acabou se estabelecendo na região onde antes era um apanhado de feudos independentes e conflituosos. Ali, nos vales e montanhas da região de Bumthang e Paro, formaram uma nação culturalmente Harmoniosa e Equilibrada socialmente. Porém, uma parte fundamental dessa harmonia foi conquistada graças à aplicação de uma antiga doutrina religiosa, o Budismo, que já era a tradição mais comum dessa região. Logo, com uma relação perfeita entre a busca de uma estabilidade social e serem guiados pelos ensinamentos de Buda, que em sua essência nos fala do amor, da caridade e da busca pela sabedoria, esse grupo pequeno, mas fiel às suas raízes, formou o Butão.

Hoje, o Butão representa uma espécie de Joia dos Himalaias, não só pela Beleza arquetípica das paisagens, mas também por ter conseguido seguir uma rota de desenvolvimento bem diferente dos outros países culturalmente semelhantes. Ao invés de abrir-se por completo, e quase irrestritamente ao turismo e à economia internacional, o reino Butanês permaneceu em reclusão por muito tempo. No entanto, na década de 70 do século XX, assumiu o trono um jovem príncipe educado na Europa, que trazia consigo uma consciência mais ampla de bem-estar social e qualidade de Vida.

O então rei, Jigme Singye Wangchuck, quarto monarca do país, observou que quase todos os países do mundo mediam seu desempenho econômico e usavam índices – como o PIB (Produto Interno Bruto) – como indicadores de riqueza e poder. Na busca de melhorar estes índices, fomentavam a competitividade e desenvolvimento comercial, muitas vezes em detrimento do social. Isso deixava Wangchuck confuso, pois não entendia como alguns governos inclinavam seus projetos e ações para atender interesses de pequenos grupos específicos de pessoas e empresas, em prejuízo do Bem da população como um Todo. Então, imbuído de um espírito Altruísta, o monarca implementou no Butão o índice de Felicidade Interna Bruta, onde pretendia medir a Alegria, e a Satisfação da população, afinal, o povo deveria ser o verdadeiro beneficiário da administração pública.

Atualmente, o turismo ainda é bastante controlado, de forma que só é possível conhecer essa “Shangri-lá” (cidade paradisíaca das obras de James Hilton) com o auxílio de operadoras de turismo locais. A chegada também só é permitida através de voos esporádicos, pilotados por companhias aéreas de lá, que, apesar de serem empresas públicas, são de excelente qualidade. Além disso, o Butão está prestes a se tornar oficialmente o país mais sustentável do mundo, já que quase 3/4 do território é coberto de florestas preservadas, que são capazes de reciclar três vezes mais carbono do que é produzido pela atividade humana local.

Talvez para nós, que estamos acostumados com uma cultura do turismo mercadológico, ou seja, voltado apenas para o acúmulo de bens e vivência de experiências, a limitação da entrada de estrangeiros no país pareça ser uma atitude extrema. Entretanto, quantos “paraísos” naturais na Terra já foram destruídos com a chegada de mais e mais estrangeiros? Praias paradisíacas que foram lotadas por resort e pessoas que não aprenderam a respeitar e preservar aquele local? Essa é uma história comum, e no Butão, caso esse padrão se repetisse, rapidamente o país perderia o seu status, pois aos poucos a cultura estrangeira os modificaria. 

Como sabemos, os Butaneses cultivam hábitos que não incluem o apreço ao materialismo, e, por isso, mesmo tendo sido eleitos entre os mais Felizes do mundo, são considerados os mais pobres, se observados os aspectos econômicos. Isso, sem dúvida, deve soar altamente contraditório aos nossos ouvidos ocidentais, mas faz todo sentido quando entendemos que existem várias coisas que um Ser Humano pode valorizar além do dinheiro. Aliás, até a uma década atrás, eles sequer tinham uma moeda nacional. Mas será que é possível ser verdadeiramente feliz sem possuir praticamente nenhum bem material? 

Para responder essa pergunta cabe nos perguntar o que, de fato, nos faz felizes. Muitas vezes, entregamos nossa felicidade nas mãos de algo externo: uma pessoa, um objeto, um status social. Falamos que “ao ir à praia, fico feliz”, ou “quando estou com você, me sinto feliz”, então o que ocorre quando esses cenários não podem ser reproduzidos? Caímos na tristeza, na melancolia, e procuramos outros pontos de felicidade, não é verdade? Desse modo, como um corredor incansável, vamos procurando a felicidade em diversas experiências que nunca nos preenchem de verdade. O resultado disso é a frustração por nunca estar satisfeito. Não por acaso, no ápice do materialismo humano – que tem se convertido no novo normal na sociedade atual –, vivemos uma epidemia de problemas relacionados à infelicidade e à falta de sentido na vida. 

Visto isso, podemos afirmar que ser feliz depende do quanto nos entregamos à nossa Vida. Aceitar permanecer em uma condição que nos torna infelizes é um ato de desrespeito consigo mesmo, ou como disse o líder político e espiritual indiano Mahatma Gandhi, “acreditar em algo e não vivê-lo é desonesto”. Viver de forma Ética, Justa, é viver Bem e Feliz. Para conquistar isso, é fundamental compreender que o sofrimento faz parte da existência humana, e que ele nasce essencialmente em nossa mente que, como uma criança que ainda não foi educada, deseja tudo que lhe dá prazer e recusa tudo que parece privá-la disso. Por isso a Filosofia Budista, que é tão forte no Butão, nos ensina a educar a nossa mente.

Naturalmente, a força de uma perspectiva inovadora, como essa, no modo de governar, não poderia partir isoladamente de cima para baixo. Não se pode, afinal, impor um estilo de vida a um povo sem que este concorde. Assim, O rei do Butão, na verdade, canalizou um aspecto cultural muito forte daquele povo, notadamente o Budismo, como já falamos nesse texto, que ensina a aceitar a dor e os momentos difíceis e que, além disso, é possível aprender com ele para transformá-lo em Sabedoria.

Um dos exemplos mais claros quanto a inevitabilidade da dor é a morte. Sabemos que a Vida vai acabar e não há nada que possamos fazer além de vivê-la bem, promovendo saúde, bem-estar e União com os outros. Os Butaneses, que encaram essa realidade de maneira natural, tendem a viver Vidas muito mais serenas e com menos angústias. A aceitação da morte como um processo natural é tratado há milênios pela cultura ocidental, porém, ainda hoje nos desesperamos quanto a essa realidade. Quando colocado nesses termos, a morte parece algo simples, porém, geralmente o que vemos em nossa sociedade ocidental é uma tendência a não pensar a respeito da morte, e isso nos faz viver de maneira imprudente. Tal atitude nos fragmenta, tanto como pessoas, quanto como sociedade. Ignorar a morte, ou não ter Coragem de encará-la de frente e entendê-la de uma vez por todas, faz com que deixemos de dizer o que sentimos aos que amamos, e também nos mantém presos a hábitos negativos, porque esquecemos que não temos todo o tempo do mundo para mudá-los.

Outro ponto que queremos destacar é que dedicar-se à Felicidade não é o mesmo que dedicar-se ao prazer. Se assim fosse, lanchonetes de fast-food ou casas noturnas não teriam entre seus clientes quem cultivasse comportamentos autodestrutivos, ou sofresse de depressão, por exemplo. Um alimento saboroso lhe dará prazer de imediato, e não há nada de errado nisso. Viver momentos alegres e despretensiosos na companhia de amigos também é uma forma divertida de passar o tempo, sem dúvida. Agora, imagine que comer com frequência algo que lhe dá prazer, mas tem valor nutritivo muito baixo ou até nenhum, vai tornar sua Vida muito mais infeliz em alguns anos, pela decorrência de doenças como diabetes, hipertensão, entre outras que tiram nossa Vida aos poucos, tornando o sofrimento ainda maior. Desta forma, torna-se claro que não é o prazer que leva à Felicidade.

Levando em consideração todos os pontos apresentados até aqui, podemos afirmar que nos acostumamos a ter um ritmo de Vida muito frenético, e acreditamos que viver com pressa, em constante estresse e nervosismo é sinal de responsabilidade, é sinal de que estamos batalhando para crescer profissionalmente, para comprar nossos imóveis, nossos veículos, ampliar o nosso patrimônio… a fim de um dia “ser alguém na vida”. Por outro lado, é incrível, e muito Belo de perceber, como um país como o Butão pode nos ensinar que estamos dedicando tanta energia, e sacrificando tantas coisas realmente valiosas, pensando que a riqueza material é a resposta para nossos questionamentos. Diante disso, a resposta para nossas perguntas, muitas vezes é algo extremamente simples. Basta compreendermos, e colocarmos em prática uma ideia: a Felicidade não significa “TER”, mas sim “SER”.

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