“É só o amor

Que conhece o que é verdade.

Ainda que eu falasse a língua dos homens.

E falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria”

Este célebre verso da Carta aos Coríntios, que depois foi transformada em música por Legião Urbana, nos remete a uma grande reflexão: o que é o Amor? A carta, e a música, explicam que de nada vale o homem ter vários dons e capacidades, se não houver o Amor por trás.

Hoje usamos a palavra amor para sentimentos tão divergentes! “Eu amo chocolate”, “eu amo meus pais”, “eu amo ir à praia”, mas como podemos usar uma mesma palavra para definir o sentimento pelos nossos pais e pela praia? Não deveria ser uma escala de “amor” diferente? Será que é correto usar esta mesma ideia para elementos concretos, como o chocolate, e mais abstratos, como o amor aos pais? E em casos ainda maiores, quando acima da família, um homem sacrifica sua vida pela pátria? Também é amor?

Na obra intitulada “O Banquete”, Platão vai explicar que existem três tipos de Amor de acordo com as três partes que compõem o ser humano, como mostra a figura abaixo:

Essa divisão do homem em 3 partes, muito comum na tradição grega, mostra do aspecto mais físico ao mais elevado de todo ser humano. Soma equivale ao corpo físico, Psique às emoções e pensamentos e Nous ao espírito. No caso dos relacionamentos, Platão diz que quando há um interesse no corpo e na beleza, surge o amor-soma. Existe o sentimento, mas é muito físico, sexual, baseado mais na aparência externa… Não vai muito além disso.

Já o amor-psique, surge quando nos relacionamos com pessoas que possuem as mesmas afinidades, os mesmo gostos e os mesmos interesses psicológicos que os nossos. Quando percebemos tantas similaridades, nos encantamos e ficamos cobertos por um sentimento de amor que está muito ligado ao nosso astral, às nossas emoções, por isso ele gera tanta empolgação, tanto fervor e tanta intensidade. Este tipo de amor é um pouco mais elevado que o soma e o mais comum de sentirmos, mas ainda possui suas limitações.

Por fim, há o amor-nous, que é o mais nobre, mais elevado de todos. É o sentimento que desperta quando se compartilha os mesmos princípios, os mesmos sonhos, o mesmo ideal de vida. Quando juntos vivem um mesmo propósito e tem um mesmo objetivo, que vai além de suas vidas particulares, englobando o todo, a humanidade. É quando juntos vivem para ajudar o próximo e tornar o mundo melhor.

O amor-nous é o verdadeiro amor platônico. Não tem nenhuma relação com um amor impossível, nem com relacionamentos, mas sim com o sentimento mais altruísta que o ser humano tem desperto dentro de si, voltado para uma ideia, um ponto de união de todos, um ideal de vida. É o sentimento que motivou Joana Darc ou Giordano Bruno, é tão profundo e tão elevado que a própria vida fica em segundo plano em nome da ideia.

Talvez, em algum grau, este tipo de amor nos lembre as nossas mães, que sacrificam o sono, o conforto e o bem-estar, pelo amor ao filho, pelo bem do outro. Que possamos sempre lembrar deste belo sacrifício da maternidade e demonstrar nossa gratidão!

Mas, lembremos, quando Paulo escreveu a carta aos coríntios, ele percebeu que só o amor-nous, o amor altruísta, sem interesses pessoais, é que o tornaria um verdadeiramente homem. Tudo que amamos nos traz alegria, prazer… Amamos tudo que está no nosso campo de relações mais íntimas: nossa família, nossos amigos, nossa casa, nosso animal de estimação, nosso namorado, ou seja, tudo que é “o conhecido” e “o confortável”, mas será que esse sentimento tão profundo não nos dá mais possibilidades? Será que estamos usando realmente toda a intensidade e profundidade que essa palavra carrega? Será que não nos cabe ampliar este sentimento e alcançar um nível mais elevado? Pois, só através do desenvolvimento deste amor-nous, o amor espiritual, o amor pela a humanidade, que se conhece o que é Verdade, que se consegue ver as coisas como elas realmente são!

A palavra “Amor” significa a busca pelo que nos falta, a busca por uma completude. E o que será que falta para o homem? Será que estamos precisando de relações de aparências, de desenvolvimento de instintos sexuais, de vivências de gostos comuns, mesmo que esses sejam gostos que deformam o caráter e tornam o homem pior? Ou será que estamos precisando desenvolver o nosso lado mais sensível e humano, através do cultivo de sentimentos altruístas, solidários, que nos ajudem no desenvolvimento de nossos potenciais internos, nossas Virtudes, a exemplo da Bondade, da Justiça e da Beleza?

Que neste dia das mães que se aproxima, possamos refletir sobre o amor de mãe, muito mais generoso que outros de nossos “amores” e que além de alcançá-lo, possamos expandir ainda mais, em nome das ideias, em nome do todo que estamos inseridos!

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