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“O primeiro passo para viver com sabedoria é renunciar à vaidade”, Essa é uma frase escrita há mais de dois mil anos pelo filósofo estoico Epicteto. Se observarmos com atenção, perceberemos que vaidade é um dos defeitos mais perigosos do ser humano, pois não apenas é difícil de percebê-la em nós, uma vez que assume facilmente a face de uma virtude, como é igualmente difícil de ser vencida.

Sobre sua capacidade de camuflar-se, basta pensar em como pequenas vaidades são vividas em nome de uma suposta nobreza. Quando nos vangloriamos, por exemplo, de ajudar o próximo, de ter feito um esforço hercúleo para ajudar um amigo, um familiar, o que estamos realmente comunicando? Por mais que sejam belas as atitudes e dignas de mérito, vangloriar-se é, em si, um ato de vaidade, da busca pela aprovação alheia e do reconhecimento dos seus atos. 

Visto isso, quantas vezes já não fomos vaidosos sem perceber? Sim, sem perceber, pois muitas vezes a vaidade se apresenta de modo tão sutil que passa despercebida por nossa consciência, e apenas com o exercício de reflexão alcançamos sua verdadeira face. Tal qual um camaleão, ela pode se esconder e se passar por uma virtude, como já comentamos; porém, o problema não está apenas em reconhecê-la, mas sim em combatê-la de forma efetiva.

Se nos parece difícil identificar a vaidade, mais complexo é a forma de lidar com ela. Isso porque em muitos casos ela se apresenta como uma autoafirmação, o que gera em nós um grande dilema: “Quem sou se não for assim?” ou “Mas eu sempre fui assim, agora precisarei mudar?” Tais perguntas escondem a face da vaidade, que cria artimanhas para que não possamos combatê-la efetivamente. Uma pessoa vaidosa sempre se afirmará em elementos externos a ela como, por exemplo, seu grau de instrução, sua profissão, seus títulos. Todos esses elementos são provas do quão “bom” uma pessoa é, e por isso deve se afirmar nesses aspectos. Porém, se observarmos verdadeiramente o ser humano, será que realmente somos nossos títulos, nossa profissão ou mesmo nossa escolaridade? É evidente que não.

Desse modo, assim como na tirinha, a vaidade se parece com uma armadura que vestimos e da qual não conseguimos nos desprender. Há, na verdade, um livro que mostra essa analogia. Em “O cavaleiro preso na armadura”, um jovem cavaleiro, exibindo sua formosa armadura, já não a tira para nada. Seus parentes, mais precisamente sua esposa e seu filho, não reconhecem o cavaleiro que vive dentro daquele pedaço de metal. Com medo de perder a mulher da sua vida, o cavaleiro passa por uma jornada mágica até conseguir se desprender da armadura. Esse é o verdadeiro combate de sua jornada: a luta contra si mesmo.

Do mesmo modo, precisamos começar a combater a nossa vaidade que, sejamos francos, todos nós possuímos em algum aspecto. Seja uma vaidade física, derivada da nossa busca pelo corpo perfeito, ou mesmo uma vaidade intelectual – de se gabar pela quantidade de livros que leu no ano –, todos nós vestimos, em maior ou menor grau, a armadura da vaidade.

Dito isso, para começar a combater esse defeito, a primeira etapa é colocar em prática o autoconhecimento, o que, na antiguidade, chamava-se de uma busca pela Sabedoria. Falamos no autoconhecimento porque normalmente temos facilidade em identificarmos uma pessoa vaidosa, mas será que conseguimos identificar também a vaidade em nós com a mesma maestria?

Para aqueles que acreditam não ter vaidade, deixamos, mais uma vez, o aviso: a vaidade está presente em todos nós. O problema é que ela aparece de diversas formas, e quando se encontra camuflada, é aí que mora o perigo. O escritor americano, Mark Twain, confirma essa ideia ao falar que “Não há graus de vaidade, apenas graus de habilidade em disfarçá-la”.  

Na tirinha que colocamos anteriormente nesse texto, podemos observar o quão sorrateiro e discreto este defeito pode ser. Nós nos achamos tão fortes que nada pode penetrar nossas armaduras, mas é só chegar alguém com um elogio que nos desmontamos, tornamos a armadura vulnerável. Logo, o problema não está no elogio, mas em depender do elogio para poder agir, ou mudar totalmente a postura por conta de uma opinião alheia. Ou seja, o problema é querer ser apreciado e reconhecido a qualquer preço! E se você acha que não passa por isso, seguem alguns exemplos práticos de como a vaidade atua discretamente no dia a dia.

É interessante observar que a vaidade também pode nascer de um elogio, ou seja, de algo externo que nos afeta internamente. Nem sempre somos vaidosos porque “queremos”, mas às vezes ficamos envaidecidos quando nos elogiam demasiadamente. É preciso sempre ter cuidado com esse tipo de comportamento, pois, à medida que o tempo passa, podemos nos confundir com os elogios que nos são dados. No entanto, isso não significa dizer que não devemos elogiar as pessoas, muito menos que não somos merecedores dos elogios, mas que é preciso seguir firme no caminho para não se perder nele. Desviar-se do seu propósito é fácil quando caímos nessa armadilha da vaidade. 

Vamos analisar mais alguns exemplos. Quando realizo alguma ação e me chateio porque ninguém soube que fui eu quem fiz, ou porque ninguém elogiou, é a vaidade falando. Quando faço questão que as pessoas saibam como sou experiente em determinado assunto, é a vaidade quem está cobrando. Quando me recuso a ouvir a opinião de alguém menos experiente do que eu, aí também está a vaidade. Essas são algumas das formas de expressão da vaidade intelectual, mas existe também a emocional, quando não conseguimos ouvir uma crítica, ou quando queremos que falem o quanto nossa falta foi sentida. E a física? Quando alguém comenta sobre nosso nariz, a barriguinha, ou os cabelos fora do lugar, é um grande “cutucão na ferida”.

A vaidade pode ser tão sutil que, imagine a situação em que você faz um trabalho voluntário, para ajudar alguém que precisa, mas, depois disso, não recebe nenhum agradecimento ou elogio. Sem dúvida nenhuma, a bondade motivou a sua ação, mas o que será que lhe fez ficar chateado por não ser reconhecido? Provavelmente, algum gérmen de vaidade que estava escondido por trás da boa ação. Então, a atenção com nossas reais motivações, nossos pensamentos e sentimentos é essencial para conhecermos bem esse monstrinho que mora dentro de nós. Só assim teremos a chance de dominá-lo e vencê-lo.

Com essas reflexões em mente, portanto, é importante reconhecermos essas inúmeras expressões da vaidade para podermos combatê-la. Além disso, destacamos que temos que despertar o seu oposto, a Humildade; saber reconhecer os próprios erros; estar sempre disposto a mudar, quando necessário; e buscar fazer o que nos cabe aqui e agora, não por uma necessidade de reconhecimento, mas por um senso de dever. Se agirmos com essa intenção, abertos ao que a vida nos apresenta, sem “armaduras impenetráveis” e com a joia da Humildade, estaremos dando o primeiro passo na busca da Sabedoria!

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