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Qual seria sua reação se soubesse que seu salário iria aumentar? Euforia, alegria, expectativa para a realização de novos projetos… Uma série de emoções ligadas ao futuro. Mas isso permanece ou é algo passageiro? A ideia de “felicidade”, nesse caso, se relaciona não com o fato de você receber um aumento, mas, sim, com o que esse aumento pode fazer você conseguir conquistar de bens materiais.

É natural que isso nos deixe em um estado de ânimo positivo, ou seja, alegres ou até mesmo felizes, porém essa não é a verdadeira felicidade que os grandes filósofos e todos os seres humanos buscam. A felicidade está diretamente relacionada com um estado de plenitude e que, em seus níveis mais sublimes, não se relaciona necessariamente com o prazer. Mas estamos nos adiantando à nossa discussão. Antes de entendermos isso, devemos compreender o que ocorre quando ficamos “felizes”.

Como sabemos que estamos felizes? Geralmente fazemos uma associação direta com o prazer. Sempre que sentimos prazer, em algum grau, vivemos esse estado chamado de felicidade. Assim, imagine que você está em seu restaurante favorito e que em poucos minutos chegará o seu prato predileto. Ao saciar sua fome com uma comida deliciosa, qual a sensação que predomina em seu interior? Saciedade, satisfação, felicidade. Porém, imaginemos que mesmo saciados ainda desejamos comer mais dessa refeição. Chegará um momento em que o prazer se tornará dor e o que chamávamos de felicidade passou a ser uma verdadeira penitência. Ficamos enjoados da comida ao ponto de quase não conseguirmos levantar de tanto que a comemos, e possivelmente poderemos ter uma indigestão.

Esse exemplo cotidiano nos mostra o porquê da verdadeira felicidade não habitar nos prazeres, pois um estado de plenitude, de verdadeira vivência das virtudes jamais nos levaria para a dor. Sendo assim, é um erro associar os prazeres que a vida material nos proporciona com a felicidade, pois a própria vida é pensada como uma dualidade, em que ora estaremos no prazer, ora estaremos na dor.

Seguindo essa lógica, uma pessoa racional poderá dizer que a felicidade então é perseguir o prazer e evitar ao máximo a dor, precisando assim mudar sempre o estímulo que nos leva ao prazer para que nunca chegue o momento em que este se torne uma dor. Dessa maneira o que fazemos? Variamos os diversos estímulos através de viagens, aquisição de bens materiais e os mais diversos tipos de prazer para que, dessa forma, jamais estejamos presos na dor.

Ainda assim, mesmo que fôssemos capazes de viver apenas nos prazeres, ainda assim deveríamos nos perguntar: como podemos ser felizes se toda hora estamos tentando escapar de alguma dor? Esse “estilo de vida” focado nos prazeres também nos leva à infelicidade, pois jamais poderemos estar “em paz”, afinal, precisaremos, dessa forma, estar sempre vigilantes quanto a esse delicado equilíbrio.

Por essas razões Aristóteles, grande filósofo grego do século IV a.C., nos disse que a felicidade humana jamais poderia estar em realizações materiais, muito menos dependeria de algo externo a nós mesmos. Para o “pai da ciência”, a felicidade humana ocorre quando realizamos nossa verdadeira natureza, ou seja, quando vivemos o que é próprio da nossa espécie. Nesse sentido, o que é próprio do ser humano?

Uma pequena comparação com os outros seres da natureza pode nos dar essa resposta. Se nos compararmos aos minerais, por exemplo, perceberemos que compartilhamos um aspecto físico com eles. Ambos temos algo sólido, uma forma. Já com os vegetais compartilhamos da vitalidade, da capacidade de manter-se vivo, reproduzir, crescer e ter um corpo ativo, que contém movimento. Se pensarmos em nossas semelhanças com os animais, notaremos que ambos sentimos emoções como raiva, paixão, alegria, tristeza e tantas outras sensações que são tão sutis. Logo, o que nos torna únicos?

A resposta é simples: a razão. Em outras palavras, a capacidade de se conscientizar e de voluntariamente buscar ideais mais elevados, que estão acima de qualquer reação instintiva e que podem, inclusive, sobrepujar o prazer. Para Aristóteles, a verdadeira felicidade humana está quando agimos em nome desses grandes ideais de forma racional, ou seja, conscientemente praticamos o bem, o belo, o justo e o verdadeiro.

Considerando essa perspectiva, a relação entre dinheiro e felicidade é, em um mundo mergulhado pelo desejo de bens materiais, criar a ilusão de que a felicidade está atrelada ao dinheiro. No entanto, basta observarmos que se assim o fosse, não existiriam pessoas com alto poder aquisitivo sofrendo males que são próprios da alma: a desesperança no mundo, uma tristeza perene e, acima disso, uma vida vivida de maneira infeliz. Isso porque a essência humana, ou seja, nossas virtudes, não podem ser compradas em um shopping ou em qualquer outro lugar. Muito pelo contrário: a vida humana acontece de maneira mais além do que qualquer relação comercial e, portanto, não está à venda.

Frente a esse cenário, é impressionante percebermos que na nossa sociedade, de maneira geral, ocorre a seguinte relação: quanto mais mergulhamos no materialismo, no consumo de bens e buscamos aumentar nosso poder aquisitivo, menor é a busca por ações verdadeiramente humanas. Agindo dessa forma, nossa consciência se volta apenas para a produtividade e o desenvolvimento de habilidades técnicas, enquanto o aspecto humano é esquecido. 

William James

Ainda na área da filosofia, Segundo William James, filósofo considerado pai da psicologia americana, “Evitar a tristeza é um processo passivo. Buscar felicidade é um processo ativo”. A sua afirmação coincide com os grandes pensadores da antiguidade, sejam eles indianos, chineses, gregos ou romanos. Buda, Confúcio, Platão, Plotino e tantos outros tinham a mesma compreensão sobre o que é a verdadeira felicidade humana. Similar ao que abordamos sobre Aristóteles, todos esses filósofos diziam, de maneiras diferentes, que a felicidade é um estado de plenitude da alma, e essa plenitude surge da convicção de que estamos vivendo exatamente o que necessitamos viver, para cumprirmos com o nosso propósito de seres humanos. Nesse estado de plenitude, sentimos que nada nos falta, e nos mantemos equilibrados, diante do prazer ou da dor. Assim, podemos dizer que a felicidade não é uma dádiva dos céus, e sim fruto de uma conquista do indivíduo.

Então, por que é tão difícil alcançá-la? Isso acontece porque não sabemos exatamente qual é o nosso papel no mundo, não temos um propósito claro para as nossas vidas. Aristóteles, em sintonia com toda a tradição filosófica da antiguidade, dizia que a felicidade humana provém da ação da alma dirigida pela virtude, ou seja, o ser humano vai encontrar a verdadeira felicidade quando dedicar a sua vida na busca de ser cada vez mais generoso, mais justo, mais sábio, mais corajoso etc. Como cada ser da natureza vive em função de um propósito, este é o do ser humano: desenvolver virtudes.

Ainda que estes ensinamentos tenham sido transmitidos por grandes sábios, nós precisamos exercitar o nosso lado científico para testá-los. Como? Vivendo com seriedade e sinceridade a busca da virtude, para descobrirmos se isso realmente nos levará à verdadeira felicidade. Experimente!

Sobre esse assunto preparamos um Podcast especial para você! E você pode escutar esse e mais outros temas aqui mesmo na nossa página, ou através da nossa Playlist de Podcast no Spotify.

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